Eu não entendi o motivo da minha mãe ter falado aquilo, mas obedeci. Ela me puxou para fora do mercado às pressas, quase correndo, como se nossas vidas dependessem disso. Seus dedos apertavam minha mão com força, quase me machucando. O coração martelava em meu peito, sem que eu soubesse exatamente por quê.
Quando finalmente paramos, sua respiração estava ofegante. Ela segurou meu rosto com ambas as mãos, seus olhos arregalados e penetrantes, carregados de algo que na época eu não consegui decifrar: puro pavor.
— Você nunca, nunca deve falar com estranhos que têm olhos como aquele homem. Prometa para mim, Ayla. Prometa!
O desespero em sua voz fez minha garganta secar. O medo dela transbordava, e, mesmo sem compreender, eu prometi. Minha mãe nunca foi de se assustar facilmente. Mas naquela noite, eu vi uma expressão nela que nunca mais esqueci.
Na época, achei que fosse paranoia. Hoje, anos depois, percebia que era algo muito maior. Aquilo não era um homem comum, e minha mãe sabia disso.
A lembrança queimava em minha mente, trazendo outra memória à tona. Eu a via sentada na sala de estar, segurando o amuleto que sempre carregava consigo. O brilho amarelado da luz do abajur traçava sombras suaves em seu rosto cansado. Ela murmurava palavras que eu não conseguia entender, sua expressão tensa e concentrada. Eu me lembro de assistir a cena, meus pés descalços no chão frio, tentando encontrar sentido no que ela fazia.
Na minha mente infantil, era apenas minha mãe rezando. Hoje, entendia que aquilo era mais do que uma simples oração. Era uma tentativa desesperada de nos proteger de algo que eu não sabia existir.
— Você é tão especial, Ayla. — Ela costumava dizer, beijando minha testa antes de me colocar na cama. — Nunca deixe ninguém fazer você duvidar disso.
Por muito tempo, acreditei que suas palavras eram apenas uma maneira carinhosa de me acalmar. Mas agora, tudo fazia sentido. Minha mãe sempre soube que havia algo diferente em mim. Algo que aquele homem de olhos incomuns reconheceu. Algo que eu, até então, ainda não compreendia completamente.
E o pior? Talvez fosse tarde demais para fingir que aquilo nunca existiu.
Na época, aquelas palavras pareciam apenas um consolo vazio, algo dito para amenizar a dor de uma despedida inevitável. Mas agora, compreendendo o peso oculto nelas, uma onda de culpa me atingiu com força. Nunca perguntei mais. Nunca percebi o quanto minha mãe carregava sozinha. Ela viveu com medo, sempre olhando por cima do ombro, e tudo isso... por minha causa.
Rick limpou a garganta, me trazendo de volta ao presente.
— Sua mãe fazia parte de algo antigo, Ayla. Uma linhagem que existe para proteger o equilíbrio entre os mundos. Quando você nasceu, tudo mudou. Eles perceberam que você era diferente, que possuía algo que ninguém mais tinha.
— O quê? — Minha voz saiu embargada, carregada de um temor que eu não conseguia controlar.
Rick hesitou por um momento, como se escolher as palavras erradas pudesse condenar tudo. Então, ele finalmente disse:
— O poder de abrir e fechar portais. Você é a ponte entre este mundo e o outro.
Senti o impacto das palavras como um soco no estômago. Minha mente me levou de volta à última vez que vi minha mãe no hospital. Mesmo fraca, ela segurou minha mão e sussurrou:
— Não importa o que aconteça, você é mais forte do que pensa.
Agora, eu entendia. Ela sabia. Sempre soube o que estava por vir. Sabia que minha vida seria marcada por essa luta. E ainda assim, nunca hesitou em me proteger. Minha mãe sacrificou tudo para que eu pudesse viver. Eu podia estar apavorada, mas não deixaria esse sacrifício ser em vão.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. O ar parecia mais pesado, carregado de uma gravidade invisível. Rick passou a mão pelos cabelos, claramente tentando processar tudo. Eu, por outro lado, senti o pânico e a raiva crescerem dentro de mim. Aquela criança — tão pequena, tão frágil — estava falando sobre um destino que nem mesmo um adulto deveria carregar.
— Você entende o que está dizendo? — Perguntei, esforçando-me para manter a voz firme. — Está nos pedindo para lutar contra algo que nem sabemos como enfrentar.
Ela me encarou com aqueles olhos grandes, frios e assustadoramente calmos, como se já tivesse aceitado seu próprio destino.