Capítulo 15

1069 Words
Capítulo 15 Ayla Solano O silêncio na sala era quebrado apenas pelo ranger suave da madeira sob os pés de Rick enquanto ele se movia. A tensão entre nós era palpável, como se o ar carregasse um peso invisível, sufocante. A menina no sofá não dizia nada, mas seu olhar era profundo, quase etéreo, e eu não conseguia afastar a sensação de que ela sabia muito mais do que demonstrava. Havia um mistério nela que fazia minha pele arrepiar, como se estivesse diante de algo muito maior do que qualquer um de nós poderia compreender. Rick soltou um suspiro longo e pesado antes de falar, sua voz grave carregando uma determinação feroz. — Se não fizermos algo agora, pode ser tarde demais. Cruzei os braços, tentando ignorar a inquietação crescendo dentro de mim. — Tarde demais para o quê? — retruquei, minha voz saindo mais cortante do que eu pretendia. — Rick, estamos lidando com algo que não entendemos. Você realmente acha que podemos proteger uma criança conectada... a isso? Ele me encarou, o maxilar travado, os olhos brilhando com uma intensidade que fez meu coração acelerar. Rick nunca foi de perder tempo com palavras gentis, mas também nunca falava sem ter certeza absoluta do que dizia. — Não acho, Ayla. Eu sei. Ela é a nossa única chance. A palavra "única" ecoou dentro de mim como um presságio. O único caminho. A única saída. Mas e se estivéssemos errados? E se protegê-la fosse exatamente o que nossos inimigos esperavam que fizéssemos? Antes que eu pudesse expressar minha dúvida, um arrepio gelado percorreu minha espinha. O tipo de frio que não vinha de uma brisa noturna, mas sim de algo mais profundo, mais sombrio. Meus instintos gritaram um alerta silencioso, e então, a menina finalmente se moveu. Seu pequeno corpo se inclinou para frente e, com uma voz fina, mas carregada de um peso indescritível, ela murmurou: — Eles estão aqui. Meu coração parou por um instante. Rick girou o corpo para a janela, os músculos tensos como os de um predador prestes a atacar. Sua respiração ficou mais lenta, calculada, enquanto ele examinava a floresta do lado de fora. Mas tudo que víamos era a dança sutil das folhas ao vento. — Quem está aqui? — minha voz tremia contra minha vontade. A menina não respondeu. Apenas apontou para a janela. Rick não hesitou. Em um movimento rápido e fluido, pegou a arma sobre a mesa e seguiu em direção à porta. Eu queria impedi-lo, dizer que não deveríamos nos precipitar, mas o olhar determinado dele me silenciou. — Fique com ela. — Sua ordem veio baixa, mas firme, antes que desaparecesse na escuridão. Engoli em seco e me virei para a menina. Ela ainda parecia inabalável, os olhos escuros brilhando com um conhecimento silencioso. — Você precisa me dizer o que está acontecendo. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mas por dentro eu estava em frangalhos. Ela não piscou. — Você verá. E então eu vi. O primeiro rugido veio das árvores, um som profundo e gutural que não pertencia a nenhum animal conhecido. Meu coração saltou contra minhas costelas. Corri até a porta e olhei para fora, sentindo a garganta secar instantaneamente. Rick estava parado a poucos metros da cabana, os ombros tensos, a arma apontada para algo que se movia na escuridão. As sombras. Elas não eram humanas, mas também não eram completamente bestiais. Elas se arrastavam, dançando no ar, deslizando como espectros de puro terror. Ele disparou. Uma, duas, três vezes. Mas as balas pareciam atravessar aquelas coisas sem efeito algum. — Rick! — gritei, sentindo o desespero me consumir. Ele não olhou para trás, mas seu corpo se posicionou de forma mais defensiva. Eu podia ver a tensão em cada músculo, a forma como ele segurava a arma com mais força, como se sua própria presença fosse a única barreira entre nós e aquelas criaturas. E então, em meio àquele caos, seu olhar encontrou o meu por uma fração de segundo. Foi o suficiente para me fazer prender a respiração. Havia algo ali, algo que eu nunca tinha visto antes. Um medo contido, sim, mas também uma promessa silenciosa. Ele não deixaria que nada me acontecesse. Mesmo que tivesse que enfrentar o próprio inferno para isso. A menina apareceu ao meu lado, os olhos fixos na cena. Havia algo nela que exalava mistério, uma presença que me deixava inquieta. — Não se preocupe. — disse ela, sua voz baixa e firme, carregada de uma calma assustadora. — Eles não podem machucá-lo. Não enquanto eu estiver aqui. Minha mente se agitou com perguntas, mas antes que eu pudesse questioná-la, ela deu um passo à frente, saindo da proteção da cabana. Meu instinto gritou para puxá-la de volta, para protegê-la, mas algo me impediu. Havia uma força ao redor dela, invisível, mas impossível de ignorar. Ela ergueu a mão, e as sombras congelaram no lugar. O silêncio que se seguiu foi absoluto, como se o próprio tempo tivesse parado para observar. Rick virou-se para trás, os olhos arregalados em confusão, mas não se moveu. A menina começou a murmurar em uma língua que eu nunca ouvira antes, sua voz ecoando como um feitiço antigo. Aos poucos, as sombras começaram a se dissipar, desaparecendo no ar como névoa ao amanhecer. Rick se virou para mim, o rosto uma mistura de choque e alívio. — O que ela fez? — perguntou, ofegante, os olhos ainda fixos onde antes estavam as criaturas. Eu não tinha respostas. Apenas mais perguntas. Mas, naquele momento, soube que nossa luta estava apenas começando. O passado parecia agora um quebra-cabeça que eu nunca quis montar, mas que lentamente começava a se encaixar, peça por peça. Minha mãe sempre foi uma mulher reservada, mas atenta. Seus olhos pareciam enxergar além do que qualquer um podia ver. Quando criança, eu achava que era apenas o cuidado excessivo de uma mãe superprotetora. Agora, eu entendia que era algo muito mais profundo. Lembrei-me de um dia específico, quando eu tinha oito anos. Estávamos em um mercado, escolhendo frutas, quando um homem estranho apareceu. Ele era alto, vestido de preto, e seus olhos eram de um tom tão claro que pareciam brilhar. Minha mãe congelou ao vê-lo. Largou as sacolas no chão e segurou minha mão com tanta força que doeu. — Não olhe para ele, Ayla. — sussurrou, o tom urgente, quase desesperado.
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