Capítulo 21

987 Words
Rick Dowson E então veio a pergunta que me corroía por dentro: se eu realmente tivesse esse poder, se eu fosse a chave para algo tão destrutivo... deveria mesmo lutar contra isso? Ou seria mais fácil deixar as sombras vencerem? Não, pensei, quase gritando comigo mesmo. Eu não podia pensar assim. Não podia ceder. Mas as dúvidas estavam lá, enraizadas em minha alma, e duvido que algum dia elas fossem embora completamente. A verdade era clara: não importava o que eu quisesse ou acreditasse. As sombras estavam vindo. E quando chegassem, eu teria que enfrentar a parte de mim que mais temia. A parte que eu não compreendia. Seria esse o destino que me aguardava? A inevitável ruína de tudo o que eu amava? O silêncio da floresta ao redor parecia gritar as respostas que eu não queria ouvir. O ar úmido e frio grudava em minha pele, e a única coisa que me mantinha em movimento era o olhar de Ayla, penetrante como lâminas afiadas. — Então, por que agora? — perguntei finalmente, minha voz carregada de exaustão e frustração. — Por que isso está acontecendo agora? Ayla suspirou, desviando os olhos por um breve instante antes de encarar-me novamente. Havia algo ali além do desânimo. Algo que doía só de olhar. Tristeza, talvez. Ou culpa. — Porque o selo está enfraquecendo — disse ela, sua voz firme, mas envolta em uma vulnerabilidade que me atingiu em cheio. — E as sombras sentem isso. Fechei os olhos, sentindo o peso de suas palavras se alojar em meu peito. Era difícil aceitar algo tão grandioso, tão irreversível. E ao mesmo tempo, eu sabia que não havia outro caminho. Respirando fundo, absorvi o cheiro da terra molhada, tentando encontrar alguma lógica no caos. Mas a única coisa que encontrei foi Ayla. Sempre ela. — E você? — perguntei, minha voz mais dura do que pretendia. — O que você ganha com isso? Ela não hesitou. Seu olhar encontrou o meu, intenso, inabalável. — Eu não ganho nada, Rick. Mas, se não te ajudar, todos nós perdemos. A sinceridade em sua voz me desarmou. Não havia engano, não havia artimanhas. Apenas a dura e fria verdade. E, por mais que quisesse duvidar, por mais que minha mente gritasse para eu manter a guarda levantada, eu sabia. Ela estava aqui. Por mim. Mas acreditar nela não significava aceitar o que estava por vir. — Certo. — Suspirei, esfregando as mãos no rosto, tentando dissipar a tensão. O peso do que ela dizia era esmagador. — Então, o que fazemos agora? Ayla sorriu. Mas não era um sorriso de alívio ou esperança. Era um sorriso vazio, carregado de uma melancolia que me cortou como uma lâmina afiada. — Sobrevivemos. E encontramos uma maneira de reforçar o selo antes que seja tarde demais. Balancei a cabeça, mais para mim mesmo do que para ela. Sobrevivência... era tudo o que eu sempre conheci. Mas, pela primeira vez, isso parecia insuficiente. Enquanto voltávamos a caminhar, o silêncio entre nós era denso, quase sufocante. Cada passo ecoava como um lembrete de que o tempo estava contra nós. Eu tentava me concentrar no farfalhar das folhas, no sussurro do vento, mas as palavras de Ayla rodavam em minha mente, implacáveis. Eu sabia que havia apenas uma escolha a ser feita. E quando chegasse o momento... eu teria que decidir quem eu realmente era. Ou, talvez, quem eu estava destinado a me tornar. Minha linhagem não era um dom, nem um privilégio. Era uma maldição. Uma sentença que eu nunca pedi para carregar, mas que agora pesava sobre meus ombros como correntes invisíveis. Eu era o portador. A última barreira entre o equilíbrio e o caos. As sombras estavam vindo. O selo que protegia o mundo estava falhando, e eu sabia o que isso significava: escolhas impossíveis, sacrifícios inevitáveis e um confronto com forças que sequer compreendia. O tempo estava se esgotando, e a floresta ao nosso redor parecia um aviso silencioso de que não havia mais volta. A cada passo que dávamos entre as árvores retorcidas, o ar ficava mais pesado, carregado por uma energia sombria que parecia espreitar dos galhos altos. As sombras não eram apenas escuridão. Elas tinham vida. Observavam. Esperavam. Senti Ayla se aproximar, sua presença tão intensa quanto reconfortante. Seu olhar, determinado e feroz, encontrava o meu como se pudesse enxergar além do que eu deixava transparecer. — Você está tremendo. — Sua voz era firme, mas seu toque em meu braço foi inesperadamente suave. Eu soltei um suspiro, tentando afastar o nó apertado que se formava em minha garganta. — Não é medo. — Minha voz saiu baixa, quase rouca. Ela arqueou a sobrancelha, cética. — Então o que é? Engoli seco. Como explicar que o verdadeiro terror não era enfrentar o que estava vindo, mas o que eu poderia me tornar quando esse momento chegasse? — Sobrevivência. — Foi a única coisa que consegui dizer. — Sobrevivência é só o começo — Ayla rebateu. — Você sabe disso tanto quanto eu. Sim, eu sabia. Não se tratava mais apenas de salvar a mim mesmo ou aqueles que eu amava. A batalha à frente não era apenas contra as sombras... era contra o que eu poderia me tornar se o selo falhasse. E essa era a verdadeira pergunta que me assombrava: se o selo ruir, quem eu serei? Ayla ainda estava ali, esperando por uma resposta que eu não podia dar. Seus olhos me perfuravam, buscando algo que eu tentava esconder até de mim mesmo. Ela sabia que eu estava mudando. Talvez, no fundo, ela soubesse que essa mudança não teria volta. Então, quando ela se aproximou ainda mais e segurou meu rosto entre as mãos, seu calor foi a única âncora que me impediu de me perder completamente. — Você não está sozinho nisso — ela sussurrou. E pela primeira vez em muito tempo, quis acreditar que ela estava certa.
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