Capítulo 36

873 Words
Rick Dowson Eu não sabia ao certo por que voltei para casa. Talvez fosse o cansaço finalmente pesando sobre mim. Talvez fosse a necessidade de encontrar algo familiar depois de tanto tempo enfrentando o desconhecido. Ou talvez, só talvez, fosse por causa delas. A mansão surgiu entre as árvores, imponente e silenciosa. Durante anos, esse lugar foi um reflexo de quem eu sou: isolado, resistente, inquebrável. Mas, enquanto nos aproximávamos, algo parecia diferente. Pela primeira vez, a casa não me acolheu. Em vez de um refúgio, senti como se estivesse retornando a uma prisão. Ayla parou ao meu lado, observando a construção com olhos atentos. — Isso é seu? — Sim. — Empurrei os portões de ferro, sentindo o peso do metal frio contra minhas mãos. Ela hesitou, mas não desviou o olhar. — Nunca imaginei que você tivesse um lugar assim. Deixei escapar um riso sem humor. — Por quê? — Você não parece o tipo de homem que se preocupa com luxo. — E não me preocupo. — Respondi, cruzando a entrada. O cheiro de madeira polida e do silêncio sufocante me atingiu de imediato. — Mas às vezes, ter algo assim faz as pessoas pensarem duas vezes antes de mexerem com você. Ayla não respondeu, mas vi sua expressão se fechar levemente. Ela entendia. Não aprovava, mas entendia. A menina seguiu atrás dela, os olhos arregalados ao observar cada detalhe. Ela parecia pequena demais dentro daquela imensidão. Pequena demais para um mundo como o meu. Meus passos ecoaram pelo mármore, e um desconforto estranho percorreu minha espinha. Eu sempre vivi bem na solidão, mas agora havia algo diferente. O silêncio que antes era um escudo agora parecia um peso insuportável. — Não parece muito acolhedor. — Ayla murmurou, cruzando os braços. — Nunca foi. Ela me olhou de soslaio, como se tentasse entender o que aquilo significava. A menina se encolheu ao lado de Ayla, e naquele instante, algo dentro de mim se revirou. Eu deveria me sentir no controle, mas, pela primeira vez, não me sentia pertencente àquele lugar. Elas não pertenciam ali. E, talvez, eu também não pertencesse mais. Mas Ayla... A maneira como a luz suave iluminava seus traços delicados, o jeito como os lábios dela se curvaram levemente em desconfiança enquanto analisava o ambiente... Deus, como essa mulher conseguia me desconcertar? Eu deveria estar focado em outra coisa. Na segurança, no perigo, em tudo o que nos rondava. Mas minha mente estava presa nela. O cabelo vermelho caía em ondas soltas sobre seus ombros, a roupa que usava moldava suas curvas de um jeito que me deixava inquieto. Eu podia sentir o calor do corpo dela mesmo à distância, como se a presença dela queimasse o ar entre nós. Ayla ainda me olhava, os olhos curiosos e afiados. Ela sabia que eu estava analisando-a, estudando-a de uma forma que não deveria. Maldita seja. Ela não fazia ideia do que provocava em mim. Ou talvez fizesse. Eu precisava sair dali, respirar fundo, pensar direito. Mas, em vez disso, fiquei preso naquele momento, no desejo crescente e perigoso que ela despertava em mim. Se eu não tomasse cuidado, ela acabaria me consumindo por completo. Caminhamos pelo grande corredor central, o som de nossos passos ecoando pelas paredes altas, preenchendo o silêncio pesado da mansão. O sol da manhã entrava pelas janelas altas, mas ainda assim, o lugar parecia sombrio. Como se até mesmo as paredes soubessem que algo estava errado. Meus olhos se desviaram para Ayla, que caminhava à minha frente com a cabeça erguida, analisando tudo ao redor. Havia algo nela que contrastava com aquele ambiente frio uma presença forte, intensa, que fazia parecer que ela pertencia a qualquer lugar onde estivesse. Mesmo aqui, mesmo em meio a sombras. A menina seguia ao lado dela, pequena, frágil, com os olhos arregalados de curiosidade. A imagem das duas ali, dentro da minha casa, era estranhamente... íntima. Algo que eu nunca imaginei ver. — Vocês podem ficar nos quartos de hóspedes. — Apontei para o corredor à esquerda, minha voz soando mais rouca do que deveria. — Escolham o que quiserem. Ayla parou, os olhos azuis se fixarami em mim com uma intensidade desconfortável. — E você? — Tenho o meu. — Respondi, mantendo meu tom neutro. Mas quando tentei desviar o olhar, percebi que era impossível. Ela me estudou por um instante longo demais. Seus olhos carregavam perguntas que eu não queria responder. Perguntas sobre o que eu realmente sentia, sobre o que aquela casa significava para mim. E, talvez, perguntas sobre o que ela significava para mim. Ayla era inteligente. Percebia tudo. Mas, naquele momento, não disse nada. Apenas respirou fundo e acenou para a menina, indicando que a seguiria. Observei enquanto as duas desapareciam pelo corredor, uma sensação estranha me dominando. Algo que não deveria estar ali. Algo perigoso. Virei-me e subi as escadas para o meu quarto, mas minha mente permaneceu presa na imagem de Ayla. Na forma como seu corpo se movia com graça e firmeza. No jeito que seus olhos desafiadores me encaravam, como se me enxergassem de uma maneira que ninguém mais via. E, principalmente, na ideia proibida de tê-la ali. Sob o mesmo teto. Tão perto... Mas ainda assim, tão longe.
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