Capítulo 37

951 Words
Rick Dowson Meu quarto era como eu me lembrava: grande, frio e vazio. As paredes de pedra abafavam qualquer ruído do mundo exterior, e a cama de dossel permanecia impecável, intocada por meses. Havia um tempo em que esse silêncio me trazia conforto, mas agora... Agora, ele parecia ensurdecedor. Sentei-me na beira da cama, passando as mãos pelos cabelos, tentando encontrar alívio na solidão. Mas ela não veio. Meus pensamentos voltaram para Ayla. Para a forma como seus olhos me atravessavam, como se enxergassem cada pedaço do que eu tentava esconder. Para o jeito que sua presença preenchia os espaços vazios ao meu redor, sem que eu percebesse até ser tarde demais. Ela me irritava. E me fascinava na mesma medida. Fechei os olhos e tentei relaxar, mas tudo o que vi foi Ayla. Ayla desafiando minhas palavras, Ayla lutando contra tudo e todos, Ayla me encarando como se pudesse me dobrar apenas com a força da sua vontade. Principalmente, Ayla me olhando como se eu fosse mais do que apenas um homem marcado pelas sombras do passado. Eu suspirei, sentindo um calor desconhecido crescer dentro de mim. Não era só desejo. Era algo mais profundo, mais perigoso. Algo que me puxava na direção dela sem que eu pudesse evitar. O som de uma batida na porta me arrancou dos meus devaneios. — Entre. — Minha voz saiu mais rouca do que eu pretendia. A porta se abriu e, por um instante, tudo pareceu parar. Ayla entrou, fechando a porta atrás dela com um cuidado incomum. Ela hesitou, o olhar varrendo o quarto antes de finalmente me encarar. Algo nela parecia diferente. Menos desafiadora, mais... vulnerável. — Tudo bem? — perguntei, sentando-me um pouco mais ereto. Ela assentiu, mas permaneceu onde estava. — A menina está descansando. Achei que deveríamos conversar. Arqueei uma sobrancelha, indicando a cadeira perto da lareira. — Sobre o quê? Ayla ignorou a cadeira. Em vez disso, deu alguns passos à frente, encurtando a distância entre nós. — Sobre você. Meu corpo ficou tenso. Eu já sabia que não ia gostar daquela conversa. Fiquei em silêncio, esperando que ela continuasse. — Rick, eu sei que você está tentando carregar tudo sozinho. — Ela cruzou os braços, a expressão séria. — Mas você precisa parar. Um sorriso sem humor escapou dos meus lábios. — Você já disse isso antes. — E vou continuar dizendo até você entender. — Ayla deu mais um passo à frente, me encarando com uma intensidade que fez meu estômago revirar. Ela estava perto demais. Eu podia sentir seu perfume, um aroma suave e quente que me envolvia como um veneno viciante. — Entender o quê? — Minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Que você não está sozinho. — Ela respondeu, e a suavidade na voz dela me desarmou completamente. O ar ao nosso redor pareceu mudar, carregado de algo elétrico. Meus olhos deslizaram involuntariamente pelos lábios dela, e meu corpo reagiu antes que eu pudesse impedir. Ayla percebeu. O modo como ela respirou fundo, como seus olhos brilharam por um segundo... ela sabia exatamente o que estava acontecendo. E não recuou. O que significava que eu deveria. Mas eu não queria. Ela era perigosa para mim. Mas, droga, eu queria me perder nesse perigo. Ela estava perto agora. Perto o suficiente para que o calor do corpo dela me atingisse, para que seu perfume se infiltrasse nos meus sentidos, tornando impossível pensar em qualquer outra coisa. Minhas mãos se apertaram nos joelhos, em uma tentativa desesperada de manter o controle. Mas a verdade era que eu estava à beira do limite. Tudo em mim gritava para puxá-la para essa cama e me perder nela. Para finalmente matar o desejo que queimava dentro de mim desde o momento em que provei seus lábios pela primeira vez. E só uma vez não foi suficiente. Nunca seria. — Você não entende… — minha voz saiu baixa, carregada de frustração e desejo. Ayla, no entanto, não me deixou terminar. — Eu entendo. Mais do que você imagina. Seus olhos azuis prenderam os meus, intensos, diretos, cheios de algo que eu não estava preparado para encarar. Honestidade. Mas também havia algo mais. Algo que me deixava ainda mais vulnerável. Ela levantou a mão, tocando meu braço, e aquele simples contato fez um calor feroz se espalhar por todo o meu corpo. — Rick… você não precisa fazer isso sozinho. Fechei os olhos, tentando ignorar o impacto que suas palavras tiveram sobre mim. Era tão fácil para ela dizer isso. Mas se Ayla soubesse o que havia dentro de mim, se soubesse o que minha escuridão poderia fazer com alguém como ela… talvez tivesse medo. Talvez se afastasse. Mas ela não se afastou. Foi ela quem se permitiu tocar em mim, como se não houvesse perigo algum. Como se, de alguma forma, acreditasse que eu ainda era alguém digno de confiança. Respirei fundo, lutando contra tudo o que queria dizer, contra tudo o que queria fazer. Mas antes que eu pudesse reagir, Ayla soltou meu braço e recuou. — Pense nisso. — Sua voz era um sussurro firme, carregado de algo que parecia uma promessa. Então, sem esperar por uma resposta, virou-se e caminhou até a porta. Eu não a impedi. Mas quando ela saiu, quando a porta se fechou atrás dela, um vazio cortante tomou conta do quarto. Como se algo essencial tivesse sido arrancado de mim. Ayla estava certa. Eu sabia disso. Mas aceitar essa verdade era outra história. Porque, se eu a deixasse entrar, se eu me permitisse sentir tudo o que estava borbulhando dentro de mim… Eu sabia que nunca mais conseguiria tirá-la da minha mente. E, talvez, no fundo, eu não quisesse.
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