Ayla Solano
A casa de Rick era imponente, uma verdadeira fortaleza esculpida no mais puro gelo. Bonita por fora, mas fria por dentro, exatamente como ele. Cada cômodo refletia perfeição e organização, mas não havia nada que transmitisse calor ou vida. Nenhum quadro com lembranças, nenhum sinal de que aquele lugar era realmente um lar.
Niah observava tudo com os olhos brilhando de curiosidade, absorvendo cada detalhe como se estivesse pisando em um mundo novo. Ela se aproximou de um dos móveis polidos e passou a mão suavemente sobre a superfície impecável, como se buscasse por vestígios de quem realmente habitava ali.
— Essa casa é enorme… — sua voz saiu como um sussurro, um eco suave contra as paredes vazias. — Onde estão as outras pessoas?
Meu olhar percorreu o vasto espaço ao nosso redor antes de responder:
Meu olhar vagou pela mansão até se fixar no longo corredor que levava ao quarto de Rick. Eu deveria me sentir confortável no cômodo de hóspedes, deveria me forçar a descansar. Mas a inquietação que crescia dentro de mim tornava isso impossível. Desde que pisei nesta casa, algo profundo e instintivo se acendeu no meu peito uma necessidade sufocante, um desejo perigoso que eu não sabia como conter.
Meu corpo clamava por ele. Meu coração batia em um ritmo frenético sempre que sua presença se aproximava. Cada célula do meu ser ansiava pelo calor de seu toque, pela urgência de sua boca sobre a minha.
Respirei fundo, tentando afastar esses pensamentos. Não era hora para isso. Não depois de tudo que aconteceu.
Sem pensar muito, movi-me em direção ao cômodo, decidida a preparar algo para comer. Talvez fosse um modo de me distrair, talvez fosse a única maneira de trazer um pouco de vida para aquele lugar frio demais.
Mas no fundo, eu sabia a verdade.
Eu queria vê-lo.
Eu queria Rick.
E não havia como fugir desse desejo por muito tempo.
Na cozinha, comecei a separar os ingredientes. Encontrei ovos, leite, pão e até algumas frutas. A despensa de Rick era surpreendentemente bem abastecida, o que me fez questionar se ele realmente passava muito tempo aqui. Será que ele mesmo cuidava disso? Ou alguém fazia por ele?
Meus dedos deslizaram distraidamente sobre a embalagem do leite enquanto minha mente divagava. Um homem como Rick intenso, enigmático e marcado por sombras não parecia do tipo que se preocupava com o básico do dia a dia. Mas então, quem preparava sua comida? Quem garantia que ele tivesse algo para comer quando chegasse exausto, carregando o peso do mundo nos ombros?
O som dos passos leves de Niah me trouxe de volta. Ela entrou na cozinha e se sentou na bancada, balançando as perninhas enquanto me observava com atenção.
— Você sabe cozinhar? — perguntou, a curiosidade infantil estampada no rosto.
Sorri, quebrando alguns ovos na tigela.
— Claro que sei. Só porque estamos sempre lutando contra alguma coisa não significa que não sabemos fazer coisas normais.
Niah inclinou a cabeça, pensativa.
— Mas você nunca faz comida — comentou inocentemente. — Sempre comemos qualquer coisa pronta ou roubamos dos outros.
O comentário dela me atingiu como um soco no estômago.
Engoli em seco, sentindo um nó apertar minha garganta. Ela estava certa. Nossa vida nunca tinha sido estável o suficiente para algo tão simples quanto um café da manhã tranquilo. Cada refeição nossa vinha da necessidade, da urgência de sobreviver. Nunca houve espaço para algo tão banal quanto cozinhar por prazer.
— Hoje é diferente — murmurei, tentando ignorar a dor que essa constatação trazia. — Pelo menos por enquanto.
O silêncio pairou entre nós por um momento. Eu continuei mexendo os ovos, mas sentia o olhar atento de Niah sobre mim.
— Você gosta dele, né?
A pergunta dela veio como um trovão inesperado. Minhas mãos pararam no ar.
— O quê?
— O Rick — ela respondeu simplesmente. — Você fica esquisita quando fala dele. E olha para o corredor toda hora, achando que ele vai aparecer.
Minha boca abriu, mas nenhuma resposta veio.
Niah sorriu de um jeito sapeca, balançando a cabeça.
— Eu gosto dele também — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Mas ele é triste.
Franzi a testa, confusa.
— Triste?
— Uhum. Ele não fala muito, mas eu sinto. Ele carrega uma coisa pesada. Como se estivesse sempre segurando alguma coisa que quer fugir.
Meu coração apertou. Eu nunca tinha colocado em palavras, mas no fundo, sempre soube que havia algo em Rick além da força e do poder que ele exalava. Ele era um alfa imponente, alguém que os outros temiam e respeitavam. Mas o que Niah disse fazia sentido.
Rick era um homem marcado. E talvez ele mesmo nem soubesse o que tanto o assombrava.
Antes que eu pudesse responder, um arrepio subiu pela minha espinha.
— Ei.
A voz grave e firme cortou o silêncio como uma lâmina afiada.
Virei-me rapidamente para a entrada da cozinha, e lá estava ele.
Rick.
Seu olhar intenso percorreu a cena diante dele eu, segurando uma tigela de ovos batidos, e Niah, com um sorrisinho travesso nos lábios. Mas havia algo mais naqueles olhos sombrios. Algo que queimava como brasas prestes a incendiar.
Meu coração bateu forte.
Eu sabia que deveria desviar o olhar. Que deveria fingir que sua presença não mexia comigo.
Mas não consegui.
Porque, naquele momento, tudo o que eu queria era descobrir o que realmente se escondia por trás daquela tristeza silenciosa.
Automaticamente, meu corpo reagiu. Meu coração acelerou, meus sentidos ficaram aguçados.
Rick estava parado na entrada da cozinha, usando apenas uma calça de moletom. Seu peito nu, esculpido por músculos firmes e bem definidos, parecia ainda mais evidente sob a luz suave do ambiente. Já o vi assim inúmeras vezes quando ele se transforma em lobo, quando a floresta o envolve como se fosse parte dele. Mas ali, entre quatro paredes, era diferente. O espaço fechado tornava tudo mais intenso, mais palpável.
Droga. Por que ele precisava ser tão absurdamente bonito?
— Você cozinha? — Sua voz grave cortou o silêncio, carregada de um tom curioso e levemente divertido.
Meus olhos se ergueram para encará-lo.
— Surpreso? — arqueei uma sobrancelha, desafiando-o.
Ele cruzou os braços sobre o peito largo, como se quisesse demonstrar indiferença. Mas seu olhar me percorria de um jeito perigoso, como se tentasse decifrar algo que ele mesmo não queria admitir.
— Nunca imaginei você fazendo algo tão… doméstico.
Soltei um pequeno sorriso, colocando os ovos na frigideira.
— Eu sei fazer várias coisas, Rick — minha voz saiu firme, mas carregada de um duplo sentido que nem tentei esconder.
O ar entre nós ficou mais denso. Por um breve segundo, seus olhos escureceram, e um sorriso torto apareceu no canto de seus lábios.
— Isso eu não duvido — sua voz saiu mais baixa, arrastada, carregada de uma provocação perigosa.
O silêncio se alongou, criando uma tensão quase sufocante. Meu corpo ficou quente, uma onda de calor subindo lentamente por mim. Eu não deveria sentir isso. Não agora.
Niah, sentada na bancada, observava tudo atentamente, como se assistisse a um espetáculo privado. Então, do nada, ela riu.
— Vocês dois são engraçados — balançou a cabeça, se divertindo. — Ficam se olhando como se fossem se morder.
Rick soltou uma risada seca, desviando o olhar por um instante. Mas eu vi. Vi a faísca em seus olhos, vi como a ideia realmente passou pela sua mente.
E aquilo me fez engolir em seco.
— Já está quase pronto — murmurei, tentando ignorar a forma como meu coração batia forte demais dentro do peito.
Terminei de preparar os ovos mexidos e servi com torradas e frutas. Niah bateu palmas, animada.
— Isso parece bom!
Nos sentamos para comer. Mas o clima entre nós estava diferente. Mais intenso.
Rick mastigava devagar, parecendo perdido em pensamentos. Seu maxilar estava tenso, como se estivesse travando uma batalha interna que não conseguia vencer. Então, de repente, ele quebrou o silêncio:
— Vamos conversar depois do café. Temos muitas coisas para resolver.
Meus olhos encontraram os dele, e a tensão aumentou ainda mais.
Eu sabia que ele não estava falando apenas das batalhas que ainda estavam por vir.
Ele estava falando sobre nós. Sobre algo que vinha crescendo entre nós dois, algo forte, perigoso… e inevitável.
E, pela primeira vez, percebi que ele estava lutando contra isso. Lutando contra mim. Contra nós.
Mas a verdadeira questão era…
Eu queria que ele vencesse essa luta?
Porque tudo dentro de mim gritava que não.