Acidente revelador

2072 Words
- Alô? – disse desconfiada, não reconheci o número. - Mariah Martinez? – uma voz feminina do outro lado da linha perguntou. - Sim, sou eu... - Aqui é a enfermeira Holly, do CHU, New York, precisamos conversar sobre Spencer... - O que aconteceu? – perguntei desesperada, saltando da cama. - Spencer sofreu um acidente de moto, está internado aqui conosco, não conseguimos contato com nenhum outro familiar... - Tudo bem, o estado é grave? O que eu preciso fazer? - Confirmar alguns dados para o cadastro, precisamos de alguém que o acompanhe por alguns dias... Ele está estável, mas perdeu muito sangue e vai precisar de uma cirurgia... - Okay, me diz quais dados você precisa e eu... – olhei no relógio e encarei meu rosto no espelho – eu estarei aí em quatro horas, no máximo. - Certo...         A enfermeira passou a lista dos dados que precisava e eu logo enviei por mensagem de texto. Tentei em vão falar com Brandon, o telefone novamente desligado e Mia, bem, ela estava no sétimo mês de sua segunda gestação, eu não faria uma coisa daquelas, eu não tinha o contato de Sarah, então apenas enfiei um moletom e peguei minha mochila, peguei dois cafés grandes para viagem na cafeteria – que era 24 horas, entrei no carro e pisei fundo.         O telefone tocou inúmeras vezes... Murray, papai... Brandon não havia retornado. Quando cheguei a New York, seguindo as indicações do gps, foi fácil encontrar o Hospital. Corri com o celular na mão para o posto de enfermaria, e fui direcionada ao prédio de emergências. Os corredores estavam vazios, eram quase dez horas da manhã. - Bom dia – disse apressada – eu sou Mariah... - E eu sou a Holly, falamos ao telefone – ela era uma mulher na casa dos quarenta anos, muito séria e pequena, com traços orientais – deve estar preocupada, venha comigo.         Caminhamos rapidamente pelo corredor, e logo cheguei ao quarto onde Spencer estava: braço engessado, perna engessada, cabeça enfaixada... - Induzimos o coma – ela disse séria – ele estava consciente e muito agitado, o médico m*l conseguiu avaliar – a enfermeira me encarou – é a irmã? - Não – respondi – eu sou a ... - Namorada? – ela perguntou receosa. - Sim, eu... – parei de repente ao ver o olhar piedoso da enfermeira. - A moça que estava com ele – ela disse comovida – está na sala ao lado, em coma induzido também, porém, mais estável, os pais devem chegar a qualquer momento... - Certo – suspirei com os olhos marejados – você sabe, por acaso, o nome dela? - Sim, é Anderson, Pamella Anderson.         Meu mundo parou de girar. Havia dirigido por quatro horas para saber que Spencer andava cortando madrugadas com Pamella na garupa da moto? Apenas sentei-me no chão do hospital e chorei, novamente, não sei por quanto tempo. O celular tocou várias vezes até que eu tivesse coragem de atender, como eu explicaria para qualquer pessoa o que estava acontecendo? Mia foi premiada com a primeira ligação atendida. - Oi – disse tentando não chorar. - Mariah, o que houve? Ficou sabendo do Spencer? - Sim – suspirei – eu... estou no hospital, cheguei há pouco – olhei no relógio – não, há uma hora e meia, ele está em coma induzido, não consegui falar com o Brandon... - m***a – ela disse – ele deve chegar a qualquer momento, estava em Washington, Mariah... - O que foi? - pergunto.  - Os pais da Pamella que entraram em contato com ele - ela diz.  - Sim – engoli o choro – eu... Já soube e... Tá tudo bem. - Não, Mariah, não tá – ela respondeu séria – você vai mesmo perder suas aulas por causa do cara que saiu pra dar um rolê com a ex? - Eu... eu vou ficar aqui – já estava chorando – e eu vou ver depois... - O Spencer nunca mereceu você – ela disse revoltada – fica bem, tá? E volta logo. - Certo, sim – suspirei entre minhas lágrimas – falamos mais tarde. - Tudo bem – ela respondeu – amo você, qualquer coisa me chama. - Certo - eu respondo.          Quando respondi as mensagens de Murray – que ainda não sabia do acontecido, tive que atender um telefonema, ele estava furioso e gritava sem parar que eu estava sendo trouxa, que eu não deveria ter ido sozinha para New York e principalmente que eu não deveria voltar sozinha, porque eu estava abalada demais, que o Spencer não prestava e tudo mais o que se pode imaginar e eu, apenas tive que concordar com ele enquanto engolia o choro.         Brandon chegou: eu não o via desde o aniversário da pequena Amélie, nem me importava muito o que ele andava fazendo da vida dele, desde o rompimento do noivado dele com a mamãe, ele era apenas um “amigo da família”, meu quase sogro, o avô da minha afilhada, mas quando ele correu ao meu encontro no hospital, me senti tão acolhida como quando havia chegado na dele e da mamãe em Beverly Hills, anos antes. - Ah, minha querida, você não precisava ter vindo – ele me abraçou e eu apenas chorei.         Conversamos um pouco, ouvi um sermão por ter saído sozinha e nervosa e tudo o que se pode imaginar, Brandon deu dois telefonemas e me mandou para um hotel há dois quarteirões dali, dizendo que eu precisava comer e descansar. Em parte, ele tinha razão. Passava das três da tarde, meu estômago era quase um buraco n***o, parei em uma lanchonete no caminho, peguei uma salada de frango para levar e fui para o hotel. Depois de comer, eu apaguei, não lembro que horas eram, mas acordei à noite, perto das onze. Brandon havia enviado uma mensagem, que eu fosse para o hospital assim que acordasse, então, tomei um banho e fui para o hospital.         Spencer continuava em coma induzido, Pamella estava acordada e consciente, mas eu não quis falar com ela, apesar de saber que ela gostaria de falar comigo. Brandon e eu conversamos, fiquei sabendo de todas as fraturas e as cirurgias que estavam por vir, a mãe de Spencer, Sarah, havia chegado há pouco tempo, mas ela m*l me olhava no rosto. Percebi, ainda naqueles minutos iniciais, que eu não teria muito o que fazer por lá, e aceitei a ideia de que, muito provavelmente, eu tinha um imenso par de chifres na cabeça e fazia papel de i****a naquele lugar.         Voltei ao hotel, dormi por mais algumas horas. As seis, decidi que tomaria um rumo: iria ao hospital, conversaria com Brandon e também com Pamella, e então, voltaria para Boston, porque não queria perder mais aulas, mesmo que Brandon tivesse providenciado um grande comunicado à Universidade. - Ah, ai está você – Brandon me disse animado assim que apareci no corredor – O Spencer, acordou. - Ótimo – suspirei aliviada – posso ver ele? - Sim, sim – Brandon conduziu-me pelo corredor até o quarto – vamos antes que a Sarah volte e comece a monopolizar ele como se realmente se importasse – ele parecia nervoso, provavelmente sabia o que aconteceria. - Oi – sorri assim que passei pela porta. - Mariah – ele tentou me enxergar, mas não conseguiu, devido às imobilizações – que bom ouvir você. - E ai – sorri novamente, com os olhos marejados ao chegar perto o suficiente para que ele me enxergasse – como está se sentindo? – segurei sua mão não engessada. - Olha – ele suspirou – nunca estive pior – ele me encarou – está sozinha aqui? - Eu estou de saída – Brandon respondeu de imediato e logo tomou o rumo da porta. - Certo, obrigada – Spencer respondeu e ao ouvir a porta se fechando continuou – Mariah, eu sinto muito por tudo isso. - Não se preocupa – disse entre lágrimas – agora o foco é você se recuperar... - Sim, mas você soube – ele pausou de repente – olha o que eu fiz, eu sinto muito... - Spencer, tudo bem – menti – eu sabia que podia acontecer, eu só... Não esperava que fosse tão rápido, ou que fosse justamente com ela... - Você me perdoa? – ele disse em meio às lágrimas. - Não – suspirei profundamente – não consigo te perdoar agora, nem mesmo sei se eu consigo te perdoar um dia. Mas continuo do teu lado, torcendo por ti, e fazendo o que estiver ao meu alcance para te ver bem. - Você tem que voltar para Boston – ele disse de repente. - Sim, eu tenho – respondi – mas eu estarei aqui em alguns fins de semana, e sempre que possível, até você ficar bem, você sabe disso. - Não posso aceitar que faça isso – ele diz. - Não está em condições de me impedir – respondo. - Mariah, eu estava traindo você, com a Pamella, como pode você ignorar isso? – ele parecia confuso. - Eu não ignoro, eu apenas... – pausei – Você ama a Pamella, por acaso? – perguntei de repente. - Eu não sei – ele respondeu – Sinto muito, mas eu não sei te responder isso. - Tudo bem – suspirei – acho que você vai ter bastante tempo para pensar sobre isso também – encarei as paredes, tentando engolir o choro – você quer que eu vá embora? - Eu não quero que perca as suas aulas por minha causa – ele diz. - Tudo bem – suspirei – você logo vai poder usar seu celular, ao que parece, então, me liga se você quiser – encarei ele nos olhos mais uma vez – eu volto para te ver.          Não dei tempo para que ele respondesse, apenas me levantei e fui embora. No corredor, me despedi de Brandon e Sarah, e pedi à mãe de Pamella para ver ela, o que prontamente foi atendido. O que doía mais, era ele “não saber se amava ela”, o fato de existir uma pequena possibilidade de ele sentir algo, era o que me machucava, afinal, ele podia ter a v***a que quisesse na cama dele, mas no momento em que tivesse sentimento, eu sabia que aos poucos, eu iria perder ele. - Oi Pamella – disse assim que entrei no quarto. - Mariah, como você está? – ela respondeu: estava sentada na cama, bem melhor do que Spencer. - Bem – suspirei para engolir minha própria mentira – e você? - Com dores, mas ainda estou melhor que o Spence... – ela diz. - É, o caso dele ficou bem crítico e ele vai precisar de um bom tempo para se recuperar – eu informo, mesmo sabendo que ela já deveria saber daquilo. - Eu pedi que viesse, porque eu queria dizer... – ela iniciou. - Não precisa dizer nada – me ative a suspirar novamente – sinceramente, melhor eu não saber de nada. Já soube o suficiente, tudo o que eu precisava saber... Estou voltando hoje para Boston e volto para ver o Spence quando conseguir, até lá vou ter tempo para processar tudo o que está acontecendo. - A culpa é minha, Mariah – ela disse de repente – eu que não deixo o Spencer em paz, eu sempre estou... - Pode até ser, mas era Spencer que tinha um compromisso comigo, era dele que eu esperava uma explicação. Eu não tenho interesse em saber mais nada, Pam – respondi seca – estou torcendo muito, de verdade, pela tua recuperação, e pela do Spencer, e apenas isso – encarei a garota novamente – eu preciso ir, apenas vim te dizer que torço que fique bem logo.         Sai do quarto após me despedir rapidamente. Caminhei até o hotel, peguei meu carro e dirigi até um posto de gasolina, onde parei para chorar um pouco e falar com Murray que me ligava insistentemente desde as seis da manhã. - Oi – disse assim que atendi. - Onde você está? – ele perguntou ofegante. - Posto de gasolina – suspirei – estou voltando para Boston... - Qual posto? Cheguei agora em NYC – ele diz. - Não... – eu murmuro. - Sim, qual posto? – ele insistiu. - Saída 43, no km 29, um posto Esso... – digo apressada. - Certo, me espera, em dez minutos estou ai – ele diz e logo desliga o telefone. 
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