Camille
O som dos passos apressados ecoava pelas vielas da Rocinha enquanto eu caminhava com um sorriso discreto nos lábios. Sabia que estavam me observando. Sabia que desde que entrei no território de Draco e seus irmãos, nada do que eu fazia passava despercebido. Mas o que eles não sabiam é que eu contava com isso.
A Rocinha era um labirinto de histórias, alianças e segredos. Cada esquina trazia uma nova camada de informações que eu absorvia como se fossem parte de um quebra-cabeça maior. E eu, sendo a peça nova, atraía olhares curiosos e, claro, perigosos. O jogo de poder entre os irmãos Draco, Damon e Dante não era sutil. Eles eram conhecidos pela força, pela liderança implacável. Mas havia algo de fascinante na maneira como eles subestimavam uma mulher. Mais especificamente, como subestimavam **essa** mulher.
Eu já tinha passado por situações semelhantes antes, em lugares diferentes. O truque era sempre o mesmo: não ser óbvia, mas também nunca ser completamente invisível. Uma presença que fosse notada o suficiente para instigar curiosidade, mas não o bastante para despertar alarmes imediatos. Draco pensava que estava no controle, que suas investigações e suspeitas seriam suficientes para me intimidar. m*l sabia ele que eu já tinha passado por testes muito piores do que aquele.
O dia estava quente, e o sol escaldante fazia com que o suor escorresse pelas testas dos moradores que seguiam sua rotina. Eu observei, como sempre fazia, cada expressão, cada gesto. Estava ficando claro para mim quem tinha poder e quem vivia à margem, quem respeitava os irmãos e quem apenas os temia. Cada detalhe era importante, e eu arquivava essas observações para momentos futuros.
De repente, senti a mudança no ar. Não era um som específico, nem um movimento brusco. Era apenas aquela sensação inata que me dizia que algo estava errado. Meus passos diminuíram ligeiramente enquanto eu ajustava meu olhar. E então eu os vi. Três homens, musculosos e com expressões que não deixavam margem para dúvida. Eles estavam ali por minha causa.
Um sorriso lento surgiu em meus lábios. Aquele era o primeiro movimento do jogo.
Continuei andando, sem mudar o ritmo, sem olhar para trás, como se não tivesse notado a presença deles. Sabia que me seguiriam, esperando pelo momento certo para agir. Mas também sabia que precisaria ser cuidadosa com meu próximo passo. Uma coisa era ter confiança, outra era ser imprudente.
O som de passos aumentou, e eu me esgueirei por uma viela estreita, ladeada por paredes de concreto que m*l permitiam a passagem de duas pessoas. Lá embaixo, o burburinho da comunidade continuava. Mas naquele beco, o silêncio era pesado, quase sufocante.
— Camille — uma voz rouca e grave me chamou.
Eu me virei lentamente, como se estivesse surpreendida. Os três homens já haviam bloqueado a saída, suas expressões predatórias. Não havia dúvida do que queriam. Isso era uma intimidação clara, um recado de Draco ou de Damon. Eles queriam me testar, ver até onde podiam me empurrar antes que eu recuasse.
— O que vocês querem? — perguntei com uma leve inclinação da cabeça, deixando a voz carregada de uma falsa inocência.
O homem mais alto deu um passo à frente, estalando os dedos. Ele era grande, do tipo que intimida apenas pela presença, mas seus olhos revelavam mais do que ele gostaria. Eram cheios de arrogância. Ele achava que já tinha vencido, que era só questão de tempo até eu ceder ao medo.
— Draco mandou um recado — ele disse, sem perder tempo.
Eu suspirei, fingindo cansaço. — E precisava de três de vocês pra isso?
Eles se entreolharam, surpresos pela minha resposta. Esperavam medo, submissão. Em vez disso, eu os desafiava com um toque de sarcasmo. A verdade é que aquilo me divertia. Eles não faziam ideia do tipo de pessoa com quem estavam lidando.
— Acho que vocês vão ter que fazer melhor do que isso — completei, cruzando os braços.
O segundo homem, menor e mais ágil, começou a se aproximar, o olhar cheio de malícia. — Ouvi dizer que você é esperta, Camille. Mas sabe como é... todo mundo tem um ponto fraco.
Ele estava tentando me desestabilizar, usar insinuações para me fazer hesitar. Era previsível. Em vez de recuar, dei um passo à frente. Fiquei tão perto que podia sentir a tensão nos músculos dele.
— E qual é o seu ponto fraco? — perguntei, em tom suave. A pergunta o pegou desprevenido.
O terceiro homem, que até então estava quieto, deu uma risada baixa, quebrando o momento. — Estamos perdendo tempo com isso — ele disse, puxando algo do bolso. Uma lâmina pequena, afiada, brilhou à luz fraca do beco.
Ah, então era assim que seria.
Eu poderia ter recuado. Poderia ter me defendido. Mas em vez disso, deixei que a adrenalina assumisse o controle, guiando meus instintos. Já estive em situações semelhantes antes, e sabia que a confiança, muitas vezes, era a maior arma.
— Vocês têm duas opções — disse, com a voz firme. — Ou me deixam ir, ou vão explicar para Draco por que falharam.
Eles hesitaram. Era apenas por um momento, mas aquele segundo de incerteza foi o suficiente. Eu me movi com precisão. Dei um passo rápido para o lado, desviando da lâmina e empurrando o homem menor contra a parede com o cotovelo. O barulho ecoou pelo beco, e antes que eles pudessem reagir, eu já estava atrás do homem com a faca, usando sua própria arma contra ele.
— Agora, agora... — eu sussurrei no ouvido dele, enquanto o segurava firmemente. — Vamos ser civilizados, sim?
O primeiro homem, o maior, parecia dividido entre agir e recuar. Eu podia ver a indecisão em seus olhos. Ele não esperava que as coisas tomassem esse rumo. E essa era a minha vantagem. Não era só uma questão de força ou habilidade, mas de manipular a situação a meu favor. Eles não estavam prontos para lidar com alguém que sabia jogar com o medo deles.
Soltei o homem com a lâmina, que cambaleou para frente, ainda surpreso. Dei um passo atrás, observando-os. Estavam derrotados, e eles sabiam disso. E, o mais importante, Draco saberia disso também.
— Acho que a mensagem foi entregue — disse, sorrindo.
Sem dizer mais nada, caminhei lentamente para fora do beco, deixando-os ali, perplexos e humilhados. O calor da adrenalina ainda pulsava no meu corpo, mas eu sabia que não havia tempo para comemorar. Aquilo tinha sido apenas o primeiro movimento. Draco não pararia por ali. Ele me testaria de novo, talvez de forma mais inteligente da próxima vez.
Enquanto me misturava à multidão nas ruas movimentadas, uma coisa ficou clara. Aquele jogo de xadrez que eu havia iniciado estava apenas começando. E cada movimento que eu fizesse teria que ser meticulosamente calculado. Mas uma coisa era certa: eu não seria intimidada. Eu conhecia os riscos e estava pronta para enfrentá-los.
Porque no final das contas, não importa quão poderoso Draco pense que é, ele está lidando com alguém que sempre tem um trunfo escondido.
O jogo estava em andamento, e eu pretendia jogar até o fim.