Capítulo 02

1279 Words
Anos Depois... – Sim, estou me alimentando bem. Treino regularmente e estou trabalhando feito uma cachorra velha. Não se preocupe, quando conseguir ajeitar tudo por aqui, prometo que viajo para ver meus amores. – Pensei que quisesse me ver. - Lillian inspirou fundo. – Você também, mas a Aurora e a Florzita são as minhas preferidas. - Marion relaxou as pernas. – Diz para o Carlito que não esqueci a nossa partida, dessa vez eu treinei, e vou vencê-lo. – Pode deixar, papagaia. Se ver o Marcelo por aí, dê um soco nele, e diz para ele lembrar dos pais. – Preciso ir. Te amo, Maria Machão. Marcelo não perde por esperar. Marion encerrou a ligação, levantou e encarou a terapeuta. Estava há mais tempo do que havia dito a irmã, no Brasil. Desde que chegou fora encaminhada para a terapia. – Não contou a sua irmã? – Não tive coragem. - Marion afundou no sofá. – Contar o quê? Que virei uma alcoólatra? E que tentei acabar com a minha vida? – Você passou por uma depressão forte, Marion, sem rede de apoio, é compreensível que ainda tenha medo. - A mulher ajeitou-se na poltrona. – Quanto tempo está limpa? – Desde que cheguei aqui. - Ela respirou fundo, encarou o teto. – Eu quero beber, todos os dias. – Você terá uma luta constante pela frente. Não pode cair outra vez, sabe das consequências. Marion desabafou pela próxima hora, ao se levantar estava cheia de esperanças sobre o rumo que a vida tomou. Estava indo tão bem que Fritzz retirou dois remédios, do coquitel que estabilizou o tumor. Bastava se manter longe do álcool e teria uma vida longa. Caminhou para fora da clínica com o capacete no braço, adorava a moto nova, subiu e girou a chave, essa era ainda melhor que a da Inglaterra. Pilotou a moto até o apartamento, gostava o silêncio da nova casa, e foi nesse silêncio que horas mais tarde se pegou outra vez fuçando as redes sociais de Murilo. Além de poucas fotos atuais, ele também mantinha duas antigas, da formatura e no dia em que se casou com Marion. – Que merda. - Ela apagou a tela do celular. Marion deitou no sofá, encarando o teto enquanto remoía aquele sentimento que a acometeu quando descobriu a traição. O celular bipou, ela o ergueu para ver notificação da amiga. Tinha prometido sair com ela naquele final de semana. Não estava afim. "Tudo certo para hoje, né?" "Não estou bem, Izis". "Oito e meia te pego aí. Pode ser?" – Merda, - Ela encarou a tela do celular. Não sabia sair sem beber, por isso fadou os dias ao trabalho. "Eu não bebo, se você não beber." Marion sorriu para aquela mensagem, Izis sabia o motivo de tamanha recusa, e também sabia ser amiga. Marion tinha de aprender a conviver com a bebida e não se fartar dela até cair. "Combinado." (***) Dois soldados pularam o muro, era cedo quando colocaram a missão em prática. Iam tentar levar um dos mandantes de uma chacina contra uma família. A casa de periferia tinha pelo menos quatro cachorros, e foi preciso alguns pedaços de pães com soníferos. – Delegado. - O rádio chiou dentro da viatura. – Os quatro cães estão dormindo. – Próximo passo. Do lado de fora os soldados desceram do muro e com cuidado abriram o portão. Uma enxurrada de policiais adentraram e invadiram o corredor longo e fétido. Era hora de entrar. Murilo posicionou as pistolas, prendeu o colete, destravou a carabina, antes de descer tirou a corrente com o distintivo e a aliança, e a beijou. Desceu da viatura e assim como a ex-cunhada, correu para os braços da morte. Foram recebidos com tiros, ele ia abaixado mirando a carabina para cima, de onde estava, acertou pelo menos um. – Crianças na casa? - Perguntou enquanto mirava para todos os lados. – Não, senhor. É uma casa bomba. – Ótimo. Mete chumbo em quem se atrever com a gente. A casa era um caos total. Havia móveis jogados pelo chão, comida estragada e papelotes de drogas, do lado de fora precisaram pular por cima dos dejetos deixado pelos cães. Murilo seguiu chutando as portas com a bota pesada e parou diante de uma, ao abrir deu de cara com o traficante. – Abaixa a arma. - Ordenou. – Nem fodendo. - O homem o respondeu, àquela hora da manhã já estava alterado. Murilo calculou o momento em que ele levantou a arma, e sem pensar muito disparou. O tiro foi o suficiente para desmaia-lo. – Doutor! - Ele escutou o rádio chiar outra vez. – Chamem o resgate, foi um tiro de contenção, posso muito bem acertar algum ponto vital, caso ele acorde. Junto de cebola, o traficante pego por ele, mais quatro homens foram pego. Dois abatidos no local, e toda uma papelada para Murilo preencher. Já era final de tarde quando ele conseguiu sair da delegacia, entrou no carro blindado e voltou para o apartamento. Cássio logo após a missão de sucesso o convidou para sair, levaria uma coleguinha consigo. E ele precisava descarregar aquela adrenalina acumulada, enviou uma mensagem para Marina e apagou a tela do celular. Tentou dormir um pouco, sem sucesso, levantou e tomou outro banho, procurou por uma roupa confortável. Entre as inúmeras camisetas pretas, encontrou uma de corte em V, evidenciando o braço totalmente tatuado, penteou o cabelo, hidratou a barba bem aparada e se olhou no espelho. – Vamos lá. Encontrou com Marina na saída do prédio, pouco falaram já que Murilo praticamente dormia em pé. O amigo, Cássio os aguardava na entrada da Boate, e como sempre, enrugou o nariz ao ver a acompanhante do delegado. – Tudo certo? - Cássio estendeu a mão de forma dura para a morena a sua frente. – Boa noite, Tenente. - Marina sorriu, não obteve o sorriso de volta. – Ela já deve estar chegando. Marina conseguia estragar todo e qualquer "rolê “entre os amigos. Era pegajosa, gostava de contar papo e tratava Murilo como um maldito cachorro pidão, quando, na verdade, ela era quem corria atrás de atenção. Uma hora depois Cássio se levantou, aliviado por não ter de ficar vendo a soldado se esfregar no amigo. Murilo logo prendeu a atenção na direção em que o amigo olhava, realmente a mulher era bonita. Uma loira de arrancar as cuecas. Ela se aproximou sorridente. – Pensei que não viria. - Cássio foi direto. – Se não se importa, trouxe uma amiga. - Izis sorriu abertamente. – Ela foi estacionar a moto. Acredita que o pneu do meu carro furou? Ainda bem que a Mari tem uma motona. - Completou, sorrindo. Murilo sentiu os ouvidos apurar. Engoliu em seco pensando em várias Maris por aí. Já que a dele havia ido para Londres, e estava até namorando um vermelhão de lá. Aguardou batucando os dedos impacientes, até que viu um monte de cabelos castanhos cor de mel, deslizou os olhos para encontrar os olhos bondosos e sorridentes. Não podia acreditar que Marion estava ali. Usava uma calça preta, botas e uma regata de seda, vermelho sangue, evidenciando a pele rosada com algumas tatuagens. Quando ela o viu, o sorriso morreu, o andar vacilou e ela deslizou os olhos lentamente para Marina. - Vem, Mari. - Izis mantinha o sorriso, alheia a tudo. Marion virou o rosto para a amiga, sentia as bochechas pegar fogo, não ouvia som algum a volta, era como se estivesse de volta ao quarto escuro com o celular nas mãos. Engoliu em seco, desviou os olhos de Murilo, virou nos calcanhares e caminhou sem rumo.
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