– Eu juro, Mari. Não sabia que ele era seu ex.
– Como você poderia saber? Nunca o viu. - Marion levantou o rosto, estava agarrada a pia do banheiro tentando controlar a bile que teimava em subir.
– Se quiser... Podemos ir embora, depois eu converso com o Cássio.
– Eu deveria ir embora. - Marion puxou o ar dos pulmões fracos. – Você já tem carona, aliás, acho que nem volta para casa.
– Se você for, eu vou. - Izis se aproximou da amiga. – Se não te cabe aqui, também não me cabe.
Aquela era Marina, mais velha, mas era a mesma. Marion encarou-se no espelho, tinha vencido o câncer, ganhou alguns prêmios pelo livro escrito junto ao cunhado, era uma adulta. E, tinha um lance m*l resolvido com Tim.
– Sobe, eu vou daqui a pouco. - Marion fechou os olhos com força.
Enquanto as duas permaneciam no banheiro, Murilo havia permanecido em pé, nem escutava mais o que Marina falava, era como se estivesse diante de um fantasma. Marion era a imagem de Lillian, havia ganhado peso, o cabelo que com toda a certeza do mundo era dela, caía como uma cascata de cachos pesados até a cintura. Os olhos atentos de Murilo o fizeram ver algumas tatuagens em Marion. Uma assinatura logo abaixo da clavícula direita. Flores que desciam pelo ombro, e por fim, uma no pulso, em formato de laço. Tudo nela havia mudado.
– Está me ouvindo? - Marina passou a mão na frente do rosto dele.
– O que disse?
– Que eu quero dançar, não estou aqui a trabalho.
Murilo ia responder, contudo, viu outra vez a mulher pelo qual pedia sorte todos aqueles anos de missões voltar para junto deles. Trazendo consigo um garçon bem sorridente, aliás.
– Pode deixar aqui. - Marion apontou para a mesa alta. – Obrigada.
Pelo sorriso i****a do cara, Murilo teve vontade de voar na garganta dele. Engoliu o orgulho e permaneceu onde estava, afinal, tinha a amante de companhia.
– Trouxe bebida. - Ela sorriu, como se ele, não fosse nada mais que um estranho.
– Murilo, vou lá então.
– Vai. - Ele abanou a mão no ar. – Depois eu desço.
Ao se aproximar da mesa, escutou partes da conversa, viu também que Marion tomava água com gás. Manteve os braços cruzados, encarando-a com o olhar frio. Eles foram casados, ele esteve presente quando ela discursou sobre o livro, e até pensou que com o tempo seriam amigos. Ela ao menos lhe desejou boa noite.
– Então quer dizer que vieram em definitivo?
– Provavelmente, sim. - Marion girava a garrafinha na mesa, a leitura corporal mostrava que estava nervosa.
– Trouxe seu namorado? - Murilo se repreendeu por pensar alto.
– Não. - Ela olhou-o diretamente nos olhos. – Ele está advogando alguns famosos por lá, quando puder virá, para conhecer a minha família.
Izis e Cássio já não falavam mais nada. Cada um bebericava seu copo esperando pelo pior. Mas se Murilo era falso, Marion era uma atriz. Sorveu um gole da água e a deixou na mesinha.
– Vou deixar o casal, Izis, te encontro depois.
– Claro, Mari.
Outra vez ela desceu, e logo se misturou com a massa dançante. Marion tinha passado de uma menina assustada, para uma mulher desinibida. Enquanto dançava, tinha a atenção de alguns homens, um em especial praticamente transava com ela, de roupas. Era ridículo.
Murilo deu um passo atrás do outro. Desceu os degraus curtos com o pescoço rígido, não conseguia pensar direito, até que um par de mãos femininas lhe barrou.
– Veio correr atrás da ex?
– Quer saber? Não. Ela seguiu com a vida, e eu com a minha. - Ele abaixou os olhos para Marina.
Aqueles anos em São Paulo foram de libertinagem, e ele não voltaria a ser casto, por causa da ex. Pegou Marina pela mão e se enfiou no meio da pista. Dançou mais um pouco enquanto percorria o corpo da soldado. Bebeu de novo. Já não sabia mais quantos copos esvaziou. Com Marina era sempre assim, bebiam e depois de uma noite, transavam. Nenhum dos dois falava em relacionamento.
Já não via Marion por lá, aliás estava bêbado de mais para concentrar a atenção em alguém. Viu que o amigo se pegava com a loira na parte de cima. Pensou que talvez Marion teria ido embora.
– Vou no banheiro, enquanto isso vá para o carro.
– Tão cedo?
– Amanhã tenho alguns assuntos para resolver. - Mentiu.
Passou os olhos pelo salão, não a viu, e nem próximo aos banheiros. Entrou no lugar abarrotado e saiu, só queria mesmo vê-la mais uma vez. Já estava do lado de fora quando percebeu uma pequena briga.
Marion tentava colocar o capacete, o mesmo grandão safado que se esfregou nela, tomou o objeto, nervoso. Enquanto se aproximava, Murilo notou que ela parecia recuar cada vez mais. Não era para menos. Estava sozinha ali, o carro dele estava praticamente do outro lado do estacionamento, e ninguém parecia lhes dar atenção. E marina com a cara enfiada no celular não veria nada.
– Hei! - Murilo apressou o passo.
– Sai fora, cara. - O grandão lhe encarou com um olhar desafiador. – Eu só quero dar uma carona a ela.
– Se ela quer o capacete, é porque não quer a sua carona. - Ele disse.
– Mas ela quer ir embora comigo.
Instintivamente, ou talvez por ciúmes reprimido mesmo, Murilo sacou a arma da cintura e mirou, bem no meio do nariz do outro. Destravou a peça e o encarou, com o mesmo olhar frio. Não tinha munição na arma, estavam no carro. O máximo que ele faria era dar uma coronhada bem dada no infeliz.
– Eu disse para deixar a moça.
– Você pensa que é quem?
– O marido dela. - Murilo respondeu por fim.
– Nâo é, não. - Marion recuperou o fôlego. – Quer mesmo ir embora comigo? Vem!
– Sou seu marido, sim! - Murilo mantinha os olhos no homem. – E se ele subir na moto, atiro, e acredite, ele morre antes de cair no chão.
Toda a pose dele se foi quando levou um soco na cabeça, a visão até escureceu. Marion tinha punhos de pedra. Murilo abaixou a arma e rápido a pegou pelo pulso, antes de levar outro soco.
– Me solta. - Ela bradou.
– Não! Você não pensa? Como sai sozinha, seguida de um estranho? E ainda por cima quer leva-lo? Não assiste jornais?
– Não se mete na minha vida. Não somos nada há muito tempo. O que faço ou deixo de fazer não é da sua conta. - Marion tentou puxar o braço de volta.
– Ele pode ser um psicopata.
– Não tenho medo. - Ela disse.
Enquanto se esforçava para se livrar do aperto de Murilo, Marion acabou por virar o pulso, a tatuagem de uma fita feito um laço, como um presente ficou evidente. Murilo deslizou os olhos para a tatuagem e engoliu em seco.
– Sua concubina está vindo aí. - Ela conseguiu puxar o braço de volta. – Nunca mais volte a se meter na minha vida. Por sua causa perdi uma noite, ótima.
– Não voltarei. - Ele a respondeu. – Aliás, tenho uma coisa aqui.
Marina havia parado um tanto longe, viu o momento em que Murilo puxou a corrente e abriu, tirou a aliança em ouro branco, puxou a mão de Marion com brusquidão e depositou a aliança na palma da mão dela.
– Agora sim, demos um fim ao nosso... Ao que tivemos. Boa sorte na sua vida.
Marion mantinha os olhos na aliança, a dela estava guardada junto dos pertences da mãe. Se negou a chorar, guardou a aliança sem saber porque diabos não a jogou no chão. Subiu na moto, girou a chave e colocou o capacete. Passou por Murilo que mantinha a arma na mão frouxa, e ganhou a rua.
Não choraria mais. Pensou que todos aqueles anos poderiam ter mudado o ex-marido. Ele havia se tornado um homem frio, um presente que alguns militares ganhavam com o tempo. Como Barbara ganhou.
Rumou para o apartamento, nem se deu o trabalho de acender a luz, no completo escuro encontrou a caixinha e jogou a aliança ali. Tomou um banho demorado e deitou, e só então se permitiu chorar.