Capítulo 04

1289 Words
– Respira fundo, por favor. Marion puxou o ar e o soltou. – Teve alguma crise, falta de ar, ou convulsão? – Não. - Ela encarava a parede branca. – Nem tonturas, ou tosses, ou palpitações. – Que bom. Seus exames estão ótimos. Continue acondicionando o corpo, não se esqueça de pegar leve. – Como meu bebê está? - Indagou. – Não sei se me acostumo com a sua forma de se referir a algo tão mortal. – Qual é, Alemão, se estamos a anos dividindo o mesmo espaço, porque não chama-lo de bebê? – Seu, bebê, está parado, não desenvolveu mais, mas também não diminuiu. - Fritzz se afastou dela e voltou a atenção ao notebook. – Não bebeu mais? – Não, mas eu quis, pelo menos socialmente. – Socialmente não existe para pessoas como nós, que afogam as mágoas em coisas erradas. - Fritzz disse. – Vamos manter a dosagem dos medicamentos, sabe que precisa atualizar o seu diário digital, não é? – Vou fazer, estava correndo com a mudança e tudo... Marion queria conversar sobre algo antigo e Fritzz percebeu, fechou a tampa do notebook e cruzou os braços na frente do corpo. – O que está acontecendo? – Encontrei com Murilo. – Scheibe¹ - Ele soltou o ar dos pulmões. – Qual a probabilidade de encontrar alguém assim? - Ela voltou a falar, ignorando o palavrão que o médico soltou. – Em uma cidade tão grande. – Não é raro, - Fritzz a respondeu. – Também vai depender do sentimento do momento. Não acredito em destino, Mari. Vocês podiam ser somente dois amigos, ou.. - Ele abanou a mão no ar. – Dois estranhos. O sentimento do momento é o que vai dizer. – Humilhada. - Marion desviou os olhos para a mesa de vidro. – Me senti humilhada o tempo todo, ele se esfregou na amante enquanto eu tive de aguentar um babaca querendo me levar para uma transa muito louca e estranha. Até quando ele colocou o maldito para correr, me senti humilhada. – Lembra que o emocional também conta. Até agora estava fazendo tudo certo, tirando aqueles episódios. Se o moleque seguiu com a vida, você também precisa seguir. Sei que é difícil, o amor é uma merda completa. – Tem razão, Alemão. - Marion sorriu, mesmo triste. – Pelo jeito você também não teve sucesso com a Nadine. - Ela tenta me enganar. Não sou louco, Marion. Nadina está sofrendo com aquele homem feio e burro, e eu vou provar isso. - Fritzz disse. – Se quer um conselho, use alguma viagem e a leve. Acho que a Nadine precisa sair um pouco. Eu sei que ela é casca dura por fora, e muito machucada por dentro. Conversaram por um tempo ainda. Fritzz tinha de voltar para Marília, tinha deixado Nadine apurada com as agendas dele e de José Carlos, e pensava seriamente em leva-la para alguma viagem longa. Marion saiu do hospital Smith e rumou para o novo emprego. Fazia parte do projeto de equoterapia, havia se formado em fisioterapia sonhando em atuar ao lado de Murilo, na cavalaria. Tudo deu errado. "Se não posso ser feliz no amor, serei feliz na profissão". Pensou ela enquanto vestia o jaleco de bichinhos. (***) – Vai sair assim? Murilo passou a camiseta preta pela cabeça. Fechou a corrente fina com o distintivo no pescoço, eram sete e meia da manhã. Marina levantou o tronco nu da cama, o cabelo n***o encobrindo o rosto. – Levanta, e vai para a sua casa. - Ele ergueu a cabeça enquanto passava o coldre na cintura larga. – Eu trabalho, Marina. – Quanto m*l humor. – Era para você ir para a sua casa... – Na madrugada. - Ela completou. – Eu sei, mas aí, você me trouxe para cá e me fodeu até se sentir bem o bastante, não foi? – Não. - Ele negou enquanto travava a pistola, erguida no ar. – p***a, Murilo. Ela ainda mexe com você, eu vi pela forma que foi até ela! – Se você viu tanta coisa da onde estava, porque não foi até lá? - Ele enfiou a arma no coldre e se arremeteu contra Marina, pegando-a pelo braço. – Marion é marrenta, mas tem a capacidade pulmonar reduzida. Não pode ao menos berrar por muito tempo. Sabe-se Deus o que teria acontecido com ela, enquanto você admirava a cena toda. – Me solta. - Marina sibilou. – Ainda bem que foi até a esposinha. Murilo ergueu a mão livre, antes de esbofetear o rosto tenso de Marina a recolheu, com um tranco, soltou o pulso dela e se endireitou. – Eu não te obriguei a nada. – E eu me senti um lixo completo todas as vezes que saía com você. - Ele a cortou. – E sabe de uma coisa? A culpa era completamente minha. Eu era casado com ela. Nem consigo me lembrar daquela noite. Marina sentou na cama, os olhos estranhamente arregalados, engoliu em seco vendo o homem frio que Murilo havia se tornado, passar para o menino confuso de anos atrás. – Porque não vai até ela? – Porque não tem mais nada entre nós. - Ele passou a mão no cabelo. – Você viu, ela está... – Ela está magoada. Eu ficaria. Marina levantou-se tomou um banho rápido e quando saiu deu com Murilo parado no mesmo lugar. Passou por ele e rumou para fora, graças aos céus o carro que havia pedido estava lá, entrou e soltou o ar preso. Talvez, só talvez, o segredo que guardava a anos poderia vir à tona. Quando o carro que levava Marina se foi, Murilo também estava saindo pelo portão da garagem. Dirigiu até a delegacia sem ao menos prestar a mínima atenção no trânsito. Estacionou e se dirigiu até a sala. Fora um dia pesado, cheio de ocorrências que o manteve preso sob aquelas paredes. No fim da tarde recebeu uma mensagem de Cássio. Um dos policiais infiltrado no tráfico da favela de São Mateus tinha descoberto um carregamento de drogas. Chegaria pela madrugada. E se tivessem sorte, ele mais uma vez teria o nome da boca de todos. "Chame o Muniz aqui, vamos armar a emboscada." Antes de apagar a tela do celular, entrou no f*******: e num lapso de raiva, apagou as duas únicas fotos que tinha com Marion, adicionou fotos novas, ao lado de Marina e todo o pessoal da bagunça. Respirou fundo e se levantou, o corpo todo doía, ao sair pela porta notou uma movimentação estranha, rumou até a entrada e teve tempo de ver que de fato Muniz havia chegado à delegacia, estava acabando de subir a escada agarrado a cintura de alguma mulher. Essa, usava uma roupa de couro, n***o com linhas em vermelho, evidenciando as curvas do corpo. O capacete ainda estava a cabeça, e ela mancava ao lado dele. – O que aconteceu aqui? - Se aproximou dos dois. – Doutor, - Muniz deslizou a mão pela cintura fina da mulher e a ajudou a se sentar. – Ela foi assaltada, estava saindo da clínica de fisioterapia do hospital, foi abordada, acho que caiu de m*l jeito, tive tempo somente de coloca-la no carro, você sabe, não posso ficar moscando por aí. Toda sorte que fui até a cavalaria hoje. Murilo cravou os olhos na vítima, e no movimento lento que ela fez para tirar o capacete de última geração, viu a pulseira com os pingentes. Um livro, uma ferradura e patas de um cachorro. Engoliu em seco, sentindo até mesmo o ar travar nos pulmões. Quando acabou de tirar o capacete, os cabelos longos de Marion escorreram como cascata pelos ombros, em direção a cintura. – p**a que pariu - Ela sussurrou.
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