As semanas que seguiram

1485 Words
As semanas que se seguiram à tragédia em Brighton foram de silêncio e reconstrução. Fernando retomava aos poucos os negócios da propriedade, e Veluma, embora ainda abalada, encontrava paz ao cuidar dos gêmeos. A mansão Brin, antes cercada por dor, voltava a ter vida. Mas nem tudo era serenidade. Às vezes, Veluma acordava no meio da noite com a sensação de estar sendo observada. As janelas batiam sozinhas, o vento sussurrava entre as cortinas, e o som distante de passos ecoava pelos corredores. Fernando tentava tranquilizá-la: — São só ecos do passado, meu amor. A casa é antiga, faz barulhos. Mas, no fundo, ele também sentia algo — um peso invisível, uma presença que se recusava a partir. Numa tarde nublada, enquanto cuidava do jardim, Veluma encontrou uma carta deixada sobre o banco de pedra, envolta em uma fita vermelha. O coração dela disparou ao ler as primeiras linhas: "Achou mesmo que poderia se livrar de mim, minha querida Veluma? Alguns amores não morrem… apenas mudam de forma." — C. Veluma deixou o papel cair. Seu corpo inteiro tremeu. Ela correu até Fernando, o rosto pálido, a respiração descompassada. — Fernando… ela está viva! — gritou, mostrando a carta. Ele pegou o bilhete, leu, e o silêncio que se seguiu foi sufocante. — Isso… isso não é possível. Eu a vi… — ele gaguejou. — Eu vi o corpo sendo levado! — E se ela nunca morreu, Fernando? — Veluma insistiu, os olhos marejados. — E se tudo aquilo foi uma armadilha? Fernando se levantou, andou até a janela e fechou as cortinas. — Nesse caso… estamos em perigo. Nos dias seguintes, pequenos acontecimentos começaram a atormentar a rotina do casal. Documentos desapareceram do escritório de Fernando. As chaves mudavam de lugar. Veluma jurava ter visto uma mulher de vestido vermelho ao longe, perto da estufa. Uma noite, ao voltar de uma reunião em Londres, Fernando encontrou a porta principal entreaberta. Entrou devagar, chamando por Veluma. — Amor? Está tudo bem? O silêncio respondeu. De repente, uma risada ecoou do andar de cima — suave, feminina, arrepiante. Fernando subiu os degraus devagar, o coração acelerado. Quando chegou ao quarto, encontrou sobre a cama uma rosa vermelha… e um bilhete. "Senti falta do seu perfume, meu doce Fernando. Veluma pode ter seu corpo… mas minha sombra ainda tem seu coração." O papel caiu de suas mãos. Ele olhou ao redor, a respiração presa, mas não havia ninguém. Na manhã seguinte, Fernando tentou esconder o que vira, mas Veluma percebeu. — O que está acontecendo, Fernando? — perguntou, firme. — Está me escondendo algo? Ele hesitou, mas acabou entregando o bilhete. Ao ler, Veluma sentiu o sangue gelar. — Ela está brincando com a gente. Quer nos enlouquecer. — Não… — Fernando respondeu, sombrio. — Ela quer vingança. No mesmo dia, um funcionário da propriedade encontrou rastros de alguém que acampara perto do portão norte. Pés femininos, passos leves. Um lenço vermelho preso a um galho. Fernando fechou as mãos em punho. — Cenet está viva. E voltou para terminar o que começou. Veluma o olhou com lágrimas nos olhos, mas também com coragem. — Então, que venha. Desta vez, ela não vai nos pegar desprevenidos. Ele segurou o rosto dela, a voz baixa, mas firme: — Eu juro, Veluma… ela nunca mais vai te tocar. Do lado de fora, o vento soprou entre as árvores, e uma risada distante ecoou na neblina. Cenet observava de longe, o olhar frio e decidido. — Agora, sim… o jogo vai começar — murmurou, desaparecendo entre as sombras da floresta.A noite caiu sobre a propriedade Brin como um manto espesso. O vento soprava forte, e as velas da mansão tremulavam como se temessem algo que não se podia ver. Veluma mantinha os gêmeos no quarto, as portas trancadas, enquanto Fernando rondava os corredores com uma expressão dura e olhar vigilante. Desde o dia em que a carta fora encontrada, nada mais parecia normal. Os criados cochichavam, alguns pediram para ir embora, alegando “pressentimentos ruins”. E o som — aquele leve toque na janela, aquela risada distante — continuava todas as noites, como um lembrete c***l de que a paz havia terminado. Na terceira noite seguida de tormenta, Fernando encontrou um rastro de pegadas próximas ao jardim dos lírios. Pegadas pequenas, delicadas… e descalças. Ele se agachou, tocou o solo úmido e notou algo que o fez prender o fôlego: uma marca de batom em uma das pedras, como se alguém tivesse beijado o chão de propósito. — Cenet… — murmurou, cerrando o punho. Quando voltou para dentro, Veluma o esperava, ansiosa. — Encontrou algo? Ele hesitou, mas assentiu. — Ela esteve aqui, Veluma. Essa mulher quer que a gente saiba. Veluma se aproximou, a voz tremendo. — Por quê, Fernando? O que ela ganha com isso? — Controle — respondeu ele. — Ela sempre quis me dominar. E agora, quer te fazer duvidar de mim. Veluma se calou. Lá no fundo, o medo e a raiva se misturavam em sua alma. Ela lembrava-se dos olhos frios de Cenet na noite da tragédia, e sabia: alguém com aquele olhar não desistia tão facilmente. Na manhã seguinte, Fernando saiu cedo para resolver assuntos no vilarejo. Veluma ficou sozinha com os gêmeos e a criada mais antiga da casa, Dona Hilda. Mas quando foi ao quarto das crianças, algo a fez congelar. As janelas estavam abertas — e sobre os travesseiros, havia duas pequenas bonecas de porcelana… com cabelos ruivos e olhos azuis. Veluma sentiu o chão sumir sob seus pés. Pegou as bonecas com as mãos trêmulas, e um bilhete caiu delas: “Que lindos filhos vocês têm, Veluma. Me pergunto… se algum dia vão se parecer com o pai.” O bilhete cheirava a perfume de jasmim — o mesmo que Cenet usava. Veluma gritou. — Hilda! A criada correu até o quarto, assustada. — Pelo amor de Deus, senhora, o que foi isso?! Veluma mostrou o bilhete, a voz embargada. — Ela entrou aqui! Dentro da minha casa! Hilda levou a mão à boca, horrorizada. — Mas… as portas estavam trancadas! — Ela sempre soube entrar sem ser vista — respondeu Veluma, com os olhos marejados. — Ela quer me enlouquecer… Quando Fernando voltou, encontrou a esposa em prantos. Ela contou tudo, mostrou o bilhete e as bonecas. Ele, furioso, jogou o papel no fogo da lareira. — Isso acaba hoje — disse ele, com a voz firme e sombria. — Eu mesmo vou atrás dela. — Não! — gritou Veluma, segurando o braço dele. — É isso que ela quer! Que você vá sozinho, que caia na armadilha! Ele a olhou nos olhos, o semblante cansado, mas decidido. — Eu não posso ficar aqui parado enquanto ela nos cerca, Veluma. Ela mexeu com você, com nossos filhos… e eu não vou permitir. Veluma chorou, desesperada. — E se ela te fizer m*l? Fernando segurou o rosto dela com delicadeza. — Então me prometa que, aconteça o que acontecer, vai lutar. Que vai proteger nossos filhos. Ela balançou a cabeça, recusando-se a aceitar a ideia de perdê-lo. Mas ele apenas sorriu com tristeza, beijou-lhe a testa e saiu, desaparecendo na noite. Horas depois, a mansão estava mergulhada em silêncio. Veluma esperava na sala, o relógio marcando meia-noite. De repente, ouviu o som do portão se abrindo… passos lentos no corredor… Ela correu para a porta, esperançosa. — Fernando? Mas a figura que surgiu das sombras não era ele. Era Cenet. Viva. Bela. E mais sombria do que nunca. Usava um vestido preto, os cabelos soltos, e nos lábios — o mesmo batom vermelho que deixara sua marca nas pedras do jardim. Veluma deu um passo para trás, o coração disparado. — Como… como é possível? Cenet sorriu, um sorriso lento, c***l. — O amor é imortal, minha querida. E o ódio… também. Veluma recuou, a voz trêmula. — O que você quer? — O que sempre quis — respondeu ela, com um brilho frio no olhar. — Fernando. E o que é dele… é meu por direito. Veluma correu para a escada, mas Cenet a segurou pelo braço. — Não adianta fugir, Veluma. Já estive morta uma vez. E não há nada mais perigoso do que uma mulher que não tem mais nada a perder. Ela puxou um punhal escondido no corpete. — Mas não se preocupe… desta vez, a morte será só sua. Veluma olhou para os olhos dela, sem medo. — Se quiser me destruir, vai ter que olhar para mim nos olhos enquanto tenta — disse com firmeza. — Porque eu não vou cair sem lutar. As duas se encararam, o ar entre elas vibrando de ódio e coragem. Lá fora, a tempestade voltou a rugir, e o trovão iluminou os rostos das duas mulheres — uma movida pelo amor, outra pela obsessão. O destino, mais uma vez, estava prestes a escolher um lado.
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