Entre o Amor e a Loucura

1206 Words
O trovão estremeceu o teto, e as janelas da mansão se abriram com o vento furioso. As cortinas tremulavam como fantasmas, e a chuva batia contra o vidro, como se o próprio céu quisesse testemunhar o fim daquela guerra. Veluma e Cenet se encaravam, as duas presas em um duelo silencioso. De um lado, o amor verdadeiro; do outro, a obsessão. O punhal brilhava na mão de Cenet, refletindo o lampejo dos relâmpagos. — Você destruiu tudo o que eu amava — disse ela, com a voz embargada, os olhos cheios de ódio e dor. — Ele era meu, Veluma! Eu o amei antes de você sonhar em existir! Veluma respirava com dificuldade, o coração acelerado, mas manteve o olhar firme. — Se o tivesse amado de verdade, não teria tentado possuí-lo. Amor não é prisão, Cenet. É liberdade. Cenet riu, amarga. — Liberdade? Você fala como uma tola. A liberdade só existe para quem não tem nada a perder. Eu perdi tudo… e agora você vai perder também. Ela avançou, mas Veluma desviou, derrubando uma cadeira. O punhal cortou o ar, rasgando o vestido dela, sem atingir a pele. As duas caíram sobre o tapete, lutando com todas as forças — o som da tempestade se misturava aos gritos e ao estalar de móveis sendo quebrados. — Você não entende, Veluma! — gritou Cenet, tentando dominar a luta. — Ele prometeu que seria meu para sempre! — E ele cresceu, Cenet! — retrucou Veluma, segurando-lhe o braço. — O que vocês tiveram morreu com o passado! Cenet conseguiu empurrá-la, levantando-se rapidamente. Apontou o punhal para ela, os olhos marejados e descontrolados. — Então que o passado venha te buscar também! Mas antes que pudesse atacar, uma voz ecoou pela escada: — Cenet, pare! Fernando estava ali — encharcado da chuva, os cabelos desgrenhados, o olhar furioso e chocado. Ele desceu correndo, e por um segundo, Cenet congelou. — Fernando… — sussurrou ela, com um brilho de esperança. — Eu sabia que viria por mim. — Não, Cenet — respondeu ele, firme. — Eu vim por Veluma. E pra pôr um fim nisso. As palavras atingiram Cenet como uma lâmina. A expressão dela se desfez, o brilho de loucura tomou conta de vez. Ela ergueu o punhal, gritando: — Então vai morrer com ela! O relâmpago iluminou o salão no exato momento em que ela avançou. Fernando correu e agarrou o braço dela, tentando afastá-la. O punhal caiu no chão, mas Cenet lutava, gritando, chorando, completamente fora de si. — Eu te amei, Fernando! — berrou ela. — E você me jogou na escuridão! Ele a segurou pelos ombros, firme. — E foi lá que você escolheu ficar! Cenet o empurrou, e por um instante pareceu que tudo voltaria ao caos. Mas Veluma se aproximou lentamente, com voz calma, quase um sussurro: — Cenet… olhe pra mim. A mulher virou o rosto, as lágrimas escorrendo. — O que você quer de mim? Piedade? — Não — respondeu Veluma. — Quero que pare de sofrer. Que liberte o que restou de bom em você. Cenet ficou imóvel. O punhal aos seus pés parecia pulsar, como se ainda chamasse por vingança. Por fim, ela deu um passo para trás, respirando com dificuldade. — Eu não sei… se ainda existe algo bom em mim. — Sempre existe — disse Veluma. — Mas precisa deixar o ódio ir embora. Cenet olhou para os dois — Fernando e Veluma juntos, unidos, fortes — e compreendeu que jamais poderia destruir aquilo. Uma lágrima solitária caiu, e ela sorriu, triste. — Talvez… vocês tenham vencido. Ela virou-se, caminhando até a porta principal. A tempestade ainda rugia, mas ela não hesitou. Abriu a porta, olhou para trás uma última vez, e disse: — Adeus, Fernando. — Adeus, Cenet — respondeu ele, com pesar. A mulher desapareceu na escuridão da noite, como uma sombra levada pelo vento. O silêncio voltou à mansão. Veluma caiu nos braços de Fernando, exausta, chorando de alívio. Ele a abraçou com força, o corpo ainda trêmulo. — Acabou, meu amor — sussurrou ele. — Acabou de verdade. Ela olhou para ele, o rosto molhado de lágrimas. — Será que acabou mesmo, Fernando? Ele respirou fundo, olhando para a janela onde o raio iluminava o céu distante. — Talvez não para sempre… mas por hoje, sim. E isso já é o bastante. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, os dois dormiram abraçados, ouvindo apenas o som suave da chuva que agora caía mansa. O passado ainda deixava cicatrizes — mas o amor deles era mais forte do que qualquer sombra. E, do lado de fora, o vento finalmente cessou.A madrugada se arrastava, lenta e silenciosa. Veluma ainda tremia nos braços de Fernando, o coração batendo descompassado depois de tudo o que tinham vivido. A casa, agora em silêncio, parecia respirar junto com eles — como se também estivesse exausta daquela guerra. Fernando acariciava os cabelos dela, sussurrando palavras que soavam como promessas. — Eu não vou deixar mais ninguém te machucar, Veluma. Nem Cenet, nem Félix, ninguém. Ela levantou o rosto, os olhos marejados, e o olhou por alguns segundos. — Eu também juro, Fernando… nunca mais vou deixar o medo dominar a gente. Do lado de fora, o primeiro raio de sol começou a aparecer entre as nuvens que se dissipavam. Era o amanhecer depois da tempestade — o tipo de manhã que parecia um recomeço. Fernando se levantou e estendeu a mão para ela. — Vem. Quero te mostrar uma coisa. Ele a levou até o jardim, ainda úmido da chuva. As flores estavam cobertas de gotas reluzentes, e o ar tinha cheiro de terra molhada. Veluma sorriu, sentindo o frescor da brisa no rosto. — Faz tempo que não vejo o jardim assim — disse ela, emocionada. — É como se tudo tivesse voltado a respirar. Fernando se aproximou, segurando as mãos dela. — É o que acontece quando a gente sobrevive à dor. Tudo volta a florescer… até o amor. Ela sorriu, com os olhos marejados. — Depois de tudo o que aconteceu, ainda acredita nisso? — Agora mais do que nunca — respondeu ele, firme. — Porque mesmo cercado de mentiras, perdições e ameaças… o que ficou de pé foi a gente. Veluma o abraçou com força, sentindo o coração dele bater contra o seu. Por um instante, todo o medo se dissolveu, e só restou a certeza de que estavam juntos — e isso bastava. Mais tarde, dentro da casa, Fernando acendeu a lareira. O fogo refletia nos olhos dos dois enquanto conversavam em silêncio, apenas trocando olhares. De repente, o som de passos leves ecoou pelo corredor. Era a babá, trazendo os gêmeos, que acordaram chorando. Veluma sorriu, aliviada, e pegou os dois no colo. — Meus amores… — sussurrou, abraçando-os com ternura. — Mamãe tá aqui, e nada mais vai nos separar. Fernando se aproximou, passando a mão nas cabecinhas pequenas. — A gente passou pelo inferno, mas conseguimos voltar. Veluma olhou para ele, com os olhos brilhando de emoção. — É o nosso recomeço, Fernando. A nossa nova história. Ele assentiu, e os quatro ficaram ali, juntos, diante do fogo que aquecia o coração e apagava o frio do medo.
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