O Recomeço

1306 Words
O tempo passou com uma suavidade que Veluma quase não acreditava ser real. Os gêmeos, agora com alguns meses, enchiam a mansão Brin de risadas e barulhos alegres. O som dos passos pequenos e o choro dos bebês ecoavam pelos corredores que antes guardavam apenas silêncio e dor. Veluma caminhava pelo jardim com os filhos no colo, observando as flores desabrochando. Desde o dia em que encontrou a carta de Cenet, não houve mais ameaças, nem rastros de sombra. A mulher parecia ter realmente partido — e com ela, os fantasmas que atormentavam suas vidas. Fernando, por sua vez, retomava lentamente o controle de seus negócios. Ainda que o passado deixasse cicatrizes, ele parecia mais leve, mais humano. A cada olhar trocado com Veluma, um sorriso novo nascia — o tipo de sorriso que cura sem precisar de palavras. Numa manhã fria de outono, Fernando entrou na cozinha e a encontrou preparando o café. O cheiro de pão recém-assado e chá quente preencheu o ambiente. — Ainda me surpreende o quanto você se adaptou à vida aqui — disse ele, se aproximando e envolvendo-a pela cintura. Veluma riu baixinho. — Eu aprendi que amor também é isso… se adaptar. Fernando encostou a testa na dela, sussurrando: — Eu te amo, Veluma. Mais do que imaginei ser capaz de amar alguém. Ela o olhou com ternura. — Eu também, Fernando. Mesmo depois de tudo, é com você que quero envelhecer. Ele beijou sua testa, mas antes que pudesse responder, ouviram o choro dos gêmeos vindo do quarto. Ambos sorriram. — Nossa dupla dinâmica acordou — disse ele, rindo. — Vou buscá-los. Enquanto Fernando subia as escadas, Veluma olhou pela janela e notou algo diferente no portão. Um carro preto estava estacionado do lado de fora. Por um instante, seu coração acelerou — o instinto protetor materno falava mais alto. Ela secou as mãos e saiu até o pátio, observando à distância. Um homem de terno escuro desceu do veículo. Tinha porte firme, olhar sério e um envelope nas mãos. — Senhora Brin? — perguntou ele, com voz respeitosa. — Sim — respondeu, desconfiada. — Em que posso ajudá-lo? — Sou investigador particular. Fui contratado há meses para localizar Félix Montero. O nome a fez estremecer. — Félix? — repetiu, em tom quase inaudível. — Ele… ainda está foragido? O homem assentiu, estendendo o envelope. — Infelizmente, sim. E há indícios de que ele deixou o país. Mas achamos algo que talvez a senhora queira ver. Veluma abriu o envelope com as mãos trêmulas. Dentro, havia uma fotografia: Félix, em uma cidade portuária, observando o mar — e atrás dele, uma mulher de cabelos escuros muito parecida com Cenet. O chão pareceu fugir debaixo dos pés dela. — Isso… não pode ser. O detetive suspirou. — Achamos que Cenet pode estar viva e com ele. Fernando apareceu atrás de Veluma, segurando um dos bebês no colo. Quando viu a foto, seu rosto empalideceu. — Não… não é possível. Veluma o olhou, desesperada. — Eu achei que tudo tinha acabado, Fernando! Ele respirou fundo, os olhos fixos na imagem. — Talvez o destino ainda não tenha terminado o que começou. Mais tarde, quando o detetive foi embora, Veluma ficou sentada na varanda com o olhar perdido no horizonte. Fernando se aproximou e se ajoelhou diante dela. — Eu prometi que te protegeria, e vou cumprir. — disse ele, firme. — Seja o que for, não deixarei mais ninguém tocar em vocês. Ela segurou a mão dele, os olhos marejados. — Eu sei. Mas, Fernando… e se essa história nunca tiver fim? Ele a olhou com ternura e respondeu: — Então vamos lutar juntos até o último capítulo. Veluma sorriu, com o coração apertado, mas cheio de fé. O vento soprou suave, balançando as folhas douradas do outono. E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que, mesmo com o perigo rondando outra vez, o amor deles era mais forte do que qualquer ameaça.O resto do dia passou como um sopro gelado. A imagem de Félix e Cenet juntos não saía da mente de Veluma. Por mais que tentasse se convencer de que poderiam finalmente ter paz, algo dentro dela dizia que aquilo era apenas o começo de um novo pesadelo. Fernando, por outro lado, tentava manter a calma. Mas seus olhos denunciavam o medo — um medo que ele não queria admitir nem para si mesmo. À noite, depois que os gêmeos adormeceram, eles ficaram sentados diante da lareira, o fogo lançando sombras dançantes nas paredes. Veluma, com uma xícara de chá nas mãos, quebrou o silêncio: — Eu nunca pensei que teria que reviver isso. — Nem eu — respondeu ele, a voz rouca. — Mas se ela realmente está viva, e com Félix… então eles estão planejando algo. — O que eles ainda podem querer, Fernando? Já tentaram tirar tudo de nós! Fernando suspirou, esfregando as têmporas. — Talvez vingança. Ou talvez… estejam atrás de algo maior. Veluma o olhou, intrigada. — Algo maior? Ele hesitou por um momento, depois desviou o olhar para o fogo. — Há coisas do meu passado, Veluma… negócios antigos, que envolvem pessoas perigosas. Coisas que deixei para trás quando decidi mudar. Ela se aproximou, segurando sua mão. — Você está dizendo que Cenet pode usar isso contra você? — Sim — respondeu ele, com amargura. — E se ela está com Félix, pode estar juntando tudo o que sabe para destruir a gente por completo. Veluma sentiu um arrepio percorrer o corpo. — Então precisamos agir antes que eles façam algo. Fernando a olhou, admirando a força nos olhos dela. — Não quero te envolver mais nisso, Veluma. Já te causei dor demais. Ela sorriu, triste, mas firme. — Você esquece que eu sou parte disso, Fernando. E não sou mais a mesma mulher assustada que entrou nessa mansão. Fernando segurou o rosto dela com as duas mãos e sussurrou: — Eu sei. E é por isso que te amo tanto. Eles se beijaram, com a intensidade de quem sabe que o tempo pode ser curto. O fogo estalava na lareira, e por um instante, o mundo parecia parar. Mas, do lado de fora, na escuridão do campo, um carro preto passava lentamente pela estrada de terra. Os faróis se apagaram, e duas silhuetas se moveram na penumbra. Uma voz feminina ecoou, fria e amarga: — Veja só, Félix… a mansão ainda está intacta. — Por pouco tempo — respondeu ele, com um sorriso torto. — Eles acharam que podiam me tirar tudo, mas agora… é a nossa vez. Cenet deu um passo à frente, observando as luzes da casa. — Veluma roubou o lugar que devia ser meu. Mas eu vou fazer ela pagar por cada lágrima que me fez derramar. Os dois se entreolharam, e o brilho vingativo em seus olhos era suficiente para congelar o sangue. Dentro da casa, Veluma sentiu um arrepio estranho, como se algo ou alguém os observasse. Ela se levantou e foi até a janela, olhando para o campo escuro. — Fernando… — O que foi? — perguntou ele, indo até ela. — Eu… juro que vi algo lá fora. Um movimento perto da estrada. Fernando olhou, mas não viu nada além de sombras e vento. — Deve ser imaginação sua. Mas, no fundo, ele sabia que não era. O instinto o alertava — o mesmo que o havia mantido vivo em tempos sombrios. Ele fechou as cortinas devagar, o olhar fixo no horizonte invisível. — Está recomeçando, Veluma — disse ele em voz baixa. — E desta vez, eles não vão parar até nos destruir. Veluma se aproximou, determinada: — Então vamos lutar, Fernando. Juntos. Ele a abraçou forte, sentindo o peso da promessa. Do lado de fora, a noite continuava silenciosa… Mas nas sombras, o m*l já havia despertado outra vez.
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