O tempo passou com uma suavidade que Veluma quase não acreditava ser real.
Os gêmeos, agora com alguns meses, enchiam a mansão Brin de risadas e barulhos alegres.
O som dos passos pequenos e o choro dos bebês ecoavam pelos corredores que antes guardavam apenas silêncio e dor.
Veluma caminhava pelo jardim com os filhos no colo, observando as flores desabrochando.
Desde o dia em que encontrou a carta de Cenet, não houve mais ameaças, nem rastros de sombra.
A mulher parecia ter realmente partido — e com ela, os fantasmas que atormentavam suas vidas.
Fernando, por sua vez, retomava lentamente o controle de seus negócios.
Ainda que o passado deixasse cicatrizes, ele parecia mais leve, mais humano.
A cada olhar trocado com Veluma, um sorriso novo nascia — o tipo de sorriso que cura sem precisar de palavras.
Numa manhã fria de outono, Fernando entrou na cozinha e a encontrou preparando o café.
O cheiro de pão recém-assado e chá quente preencheu o ambiente.
— Ainda me surpreende o quanto você se adaptou à vida aqui — disse ele, se aproximando e envolvendo-a pela cintura.
Veluma riu baixinho.
— Eu aprendi que amor também é isso… se adaptar.
Fernando encostou a testa na dela, sussurrando:
— Eu te amo, Veluma. Mais do que imaginei ser capaz de amar alguém.
Ela o olhou com ternura.
— Eu também, Fernando. Mesmo depois de tudo, é com você que quero envelhecer.
Ele beijou sua testa, mas antes que pudesse responder, ouviram o choro dos gêmeos vindo do quarto.
Ambos sorriram.
— Nossa dupla dinâmica acordou — disse ele, rindo. — Vou buscá-los.
Enquanto Fernando subia as escadas, Veluma olhou pela janela e notou algo diferente no portão.
Um carro preto estava estacionado do lado de fora.
Por um instante, seu coração acelerou — o instinto protetor materno falava mais alto.
Ela secou as mãos e saiu até o pátio, observando à distância.
Um homem de terno escuro desceu do veículo.
Tinha porte firme, olhar sério e um envelope nas mãos.
— Senhora Brin? — perguntou ele, com voz respeitosa.
— Sim — respondeu, desconfiada. — Em que posso ajudá-lo?
— Sou investigador particular. Fui contratado há meses para localizar Félix Montero.
O nome a fez estremecer.
— Félix? — repetiu, em tom quase inaudível. — Ele… ainda está foragido?
O homem assentiu, estendendo o envelope.
— Infelizmente, sim. E há indícios de que ele deixou o país. Mas achamos algo que talvez a senhora queira ver.
Veluma abriu o envelope com as mãos trêmulas. Dentro, havia uma fotografia: Félix, em uma cidade portuária, observando o mar — e atrás dele, uma mulher de cabelos escuros muito parecida com Cenet.
O chão pareceu fugir debaixo dos pés dela.
— Isso… não pode ser.
O detetive suspirou.
— Achamos que Cenet pode estar viva e com ele.
Fernando apareceu atrás de Veluma, segurando um dos bebês no colo.
Quando viu a foto, seu rosto empalideceu.
— Não… não é possível.
Veluma o olhou, desesperada.
— Eu achei que tudo tinha acabado, Fernando!
Ele respirou fundo, os olhos fixos na imagem.
— Talvez o destino ainda não tenha terminado o que começou.
Mais tarde, quando o detetive foi embora, Veluma ficou sentada na varanda com o olhar perdido no horizonte.
Fernando se aproximou e se ajoelhou diante dela.
— Eu prometi que te protegeria, e vou cumprir. — disse ele, firme. — Seja o que for, não deixarei mais ninguém tocar em vocês.
Ela segurou a mão dele, os olhos marejados.
— Eu sei. Mas, Fernando… e se essa história nunca tiver fim?
Ele a olhou com ternura e respondeu:
— Então vamos lutar juntos até o último capítulo.
Veluma sorriu, com o coração apertado, mas cheio de fé.
O vento soprou suave, balançando as folhas douradas do outono.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que, mesmo com o perigo rondando outra vez, o amor deles era mais forte do que qualquer ameaça.O resto do dia passou como um sopro gelado.
A imagem de Félix e Cenet juntos não saía da mente de Veluma.
Por mais que tentasse se convencer de que poderiam finalmente ter paz, algo dentro dela dizia que aquilo era apenas o começo de um novo pesadelo.
Fernando, por outro lado, tentava manter a calma.
Mas seus olhos denunciavam o medo — um medo que ele não queria admitir nem para si mesmo.
À noite, depois que os gêmeos adormeceram, eles ficaram sentados diante da lareira, o fogo lançando sombras dançantes nas paredes.
Veluma, com uma xícara de chá nas mãos, quebrou o silêncio:
— Eu nunca pensei que teria que reviver isso.
— Nem eu — respondeu ele, a voz rouca. — Mas se ela realmente está viva, e com Félix… então eles estão planejando algo.
— O que eles ainda podem querer, Fernando? Já tentaram tirar tudo de nós!
Fernando suspirou, esfregando as têmporas.
— Talvez vingança. Ou talvez… estejam atrás de algo maior.
Veluma o olhou, intrigada.
— Algo maior?
Ele hesitou por um momento, depois desviou o olhar para o fogo.
— Há coisas do meu passado, Veluma… negócios antigos, que envolvem pessoas perigosas. Coisas que deixei para trás quando decidi mudar.
Ela se aproximou, segurando sua mão.
— Você está dizendo que Cenet pode usar isso contra você?
— Sim — respondeu ele, com amargura. — E se ela está com Félix, pode estar juntando tudo o que sabe para destruir a gente por completo.
Veluma sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— Então precisamos agir antes que eles façam algo.
Fernando a olhou, admirando a força nos olhos dela.
— Não quero te envolver mais nisso, Veluma. Já te causei dor demais.
Ela sorriu, triste, mas firme.
— Você esquece que eu sou parte disso, Fernando. E não sou mais a mesma mulher assustada que entrou nessa mansão.
Fernando segurou o rosto dela com as duas mãos e sussurrou:
— Eu sei. E é por isso que te amo tanto.
Eles se beijaram, com a intensidade de quem sabe que o tempo pode ser curto.
O fogo estalava na lareira, e por um instante, o mundo parecia parar.
Mas, do lado de fora, na escuridão do campo, um carro preto passava lentamente pela estrada de terra.
Os faróis se apagaram, e duas silhuetas se moveram na penumbra.
Uma voz feminina ecoou, fria e amarga:
— Veja só, Félix… a mansão ainda está intacta.
— Por pouco tempo — respondeu ele, com um sorriso torto. — Eles acharam que podiam me tirar tudo, mas agora… é a nossa vez.
Cenet deu um passo à frente, observando as luzes da casa.
— Veluma roubou o lugar que devia ser meu. Mas eu vou fazer ela pagar por cada lágrima que me fez derramar.
Os dois se entreolharam, e o brilho vingativo em seus olhos era suficiente para congelar o sangue.
Dentro da casa, Veluma sentiu um arrepio estranho, como se algo ou alguém os observasse.
Ela se levantou e foi até a janela, olhando para o campo escuro.
— Fernando…
— O que foi? — perguntou ele, indo até ela.
— Eu… juro que vi algo lá fora. Um movimento perto da estrada.
Fernando olhou, mas não viu nada além de sombras e vento.
— Deve ser imaginação sua.
Mas, no fundo, ele sabia que não era.
O instinto o alertava — o mesmo que o havia mantido vivo em tempos sombrios.
Ele fechou as cortinas devagar, o olhar fixo no horizonte invisível.
— Está recomeçando, Veluma — disse ele em voz baixa. — E desta vez, eles não vão parar até nos destruir.
Veluma se aproximou, determinada:
— Então vamos lutar, Fernando. Juntos.
Ele a abraçou forte, sentindo o peso da promessa.
Do lado de fora, a noite continuava silenciosa…
Mas nas sombras, o m*l já havia despertado outra vez.