O jantar seguia em um ritmo calmo, embalado pelo crepitar suave da lareira e o som distante da chuva fina caindo lá fora. As velas lançavam reflexos dourados sobre o rosto de Veluma, e Fernando não conseguia desviar os olhos dela.
Era como se cada palavra dita, cada sorriso discreto, o puxasse para fora de um abismo onde ele havia vivido por tempo demais.
— Fale-me de você, Veluma — pediu ele, com a voz baixa. — Não o que já me contou… mas o que esconde.
Ela pousou o talher, respirou fundo, e seu olhar se tornou distante.
— Eu não tenho muito o que esconder, senhor… — Ela corrigiu-se, sorrindo. — Fernando.
— Todos têm algo — respondeu ele. — Eu, por exemplo, escondi a mim mesmo por anos.
Veluma o olhou com doçura.
— Talvez porque alguém o feriu.
Ele não respondeu de imediato. Tomou um gole de vinho, como se precisasse de coragem.
— Perdi pessoas que amei. Fui traído por quem mais confiei. E… — fez uma pausa longa, o olhar perdido nas chamas da lareira — …me culpei por tudo.
Veluma baixou os olhos, sentindo o peso da confissão.
— Ninguém carrega sozinho uma tragédia, Fernando. Às vezes, a dor é apenas o preço que o destino cobra dos fortes.
Fernando esboçou um sorriso triste.
— E você acredita que sou forte?
— Acredito que está tentando ser. — Ela o olhou fundo nos olhos. — Isso já é força.
O silêncio voltou, mas era um silêncio cheio de significado. O fogo estalava na lareira, iluminando os rostos dos dois.
Fernando se inclinou levemente sobre a mesa.
— E quanto a você, Veluma? O que a trouxe até aqui… além da necessidade?
Ela hesitou. As lembranças voltaram com força — a casa simples, as dívidas, o medo de não ter para onde ir.
Mas também lembrou da coragem que a fizera aceitar aquele emprego.
— A vida me tirou muito cedo o direito de escolher — começou ela, a voz embargada. — Eu aprendi a sobreviver, mas nunca soube o que era viver de verdade. E quando entrei nesta casa… achei que seria mais um lugar frio, cheio de regras. Mas… — Ela sorriu de leve. — Encontrei alguém que entende o silêncio melhor do que ninguém.
Fernando prendeu o olhar nela, surpreso.
— Está dizendo que me entende?
— Mais do que imagina. — respondeu ela, baixando o olhar. — Porque também sei o que é se esconder atrás de uma muralha.
Por um momento, o tempo pareceu parar. As chamas dançavam em reflexos suaves sobre o rosto dela, e algo dentro de Fernando se quebrou — algo antigo, pesado, que o impedia de sentir.
— Veluma… — murmurou ele, a voz quase inaudível. — Você não faz ideia do que tem causado em mim.
Ela ergueu os olhos, e a intensidade no olhar dele fez o coração dela acelerar.
— Então me diga — sussurrou. — O que estou causando?
Fernando hesitou, mas depois se levantou. Caminhou lentamente até o lado dela.
Veluma o acompanhava com o olhar, sentindo o ar mudar.
Ele parou ao seu lado, e num gesto contido, mas cheio de emoção, tocou levemente o queixo dela, erguendo-lhe o rosto.
— Faz anos que não me permito sentir nada — confessou, num tom rouco. — Eu havia jurado que não me deixaria mais envolver. Que meu coração estava morto. Mas desde que você chegou…
A voz dele falhou. Veluma permaneceu imóvel, com os olhos marejados.
— Desde que eu cheguei? — perguntou, com suavidade.
— Desde que você chegou — repetiu ele, com firmeza. — Cada olhar seu, cada palavra, tem me feito lembrar que ainda existe algo bom aqui dentro.
Ela sentiu o peito se apertar.
— E isso o assusta?
— Muito. — Ele sorriu, triste. — Porque amar é perder o controle. E eu vivi tanto tempo tentando controlar tudo, que não sei mais como é confiar em alguém.
Veluma pousou a mão sobre a dele, com delicadeza.
— Então não confie em mim, Fernando… confie no que sente.
Ele fechou os olhos, respirando fundo. O toque dela era morno, real, e parecia curar um pedaço dele que o tempo havia esquecido.
— Você é uma mulher incomum, Veluma Delarriva — murmurou, abrindo os olhos. — E temo que já seja tarde demais para eu resistir a isso.
Ela sorriu, tímida, mas seus olhos brilhavam.
— Às vezes, o que mais precisamos é parar de resistir.
A distância entre eles se dissolveu.
Não houve pressa, nem palavras. Apenas o leve toque das mãos, o respirar entrecortado, e o entendimento silencioso de que, naquele instante, dois corações feridos haviam se encontrado — e nenhum deles era mais o mesmo.
Do lado de fora, o vento cessou, e a lua surgiu, redonda e luminosa, iluminando as janelas da velha mansão.
Fernando Brin, o homem que por tanto tempo se escondeu da vida, agora a olhava nos olhos.
E dentro daquele olhar ruivo e doce, ele encontrou a única verdade que o tempo jamais pôde apagar: a esperança de amar de novo.