As Verdades do Coração

853 Words
O jantar seguia em um ritmo calmo, embalado pelo crepitar suave da lareira e o som distante da chuva fina caindo lá fora. As velas lançavam reflexos dourados sobre o rosto de Veluma, e Fernando não conseguia desviar os olhos dela. Era como se cada palavra dita, cada sorriso discreto, o puxasse para fora de um abismo onde ele havia vivido por tempo demais. — Fale-me de você, Veluma — pediu ele, com a voz baixa. — Não o que já me contou… mas o que esconde. Ela pousou o talher, respirou fundo, e seu olhar se tornou distante. — Eu não tenho muito o que esconder, senhor… — Ela corrigiu-se, sorrindo. — Fernando. — Todos têm algo — respondeu ele. — Eu, por exemplo, escondi a mim mesmo por anos. Veluma o olhou com doçura. — Talvez porque alguém o feriu. Ele não respondeu de imediato. Tomou um gole de vinho, como se precisasse de coragem. — Perdi pessoas que amei. Fui traído por quem mais confiei. E… — fez uma pausa longa, o olhar perdido nas chamas da lareira — …me culpei por tudo. Veluma baixou os olhos, sentindo o peso da confissão. — Ninguém carrega sozinho uma tragédia, Fernando. Às vezes, a dor é apenas o preço que o destino cobra dos fortes. Fernando esboçou um sorriso triste. — E você acredita que sou forte? — Acredito que está tentando ser. — Ela o olhou fundo nos olhos. — Isso já é força. O silêncio voltou, mas era um silêncio cheio de significado. O fogo estalava na lareira, iluminando os rostos dos dois. Fernando se inclinou levemente sobre a mesa. — E quanto a você, Veluma? O que a trouxe até aqui… além da necessidade? Ela hesitou. As lembranças voltaram com força — a casa simples, as dívidas, o medo de não ter para onde ir. Mas também lembrou da coragem que a fizera aceitar aquele emprego. — A vida me tirou muito cedo o direito de escolher — começou ela, a voz embargada. — Eu aprendi a sobreviver, mas nunca soube o que era viver de verdade. E quando entrei nesta casa… achei que seria mais um lugar frio, cheio de regras. Mas… — Ela sorriu de leve. — Encontrei alguém que entende o silêncio melhor do que ninguém. Fernando prendeu o olhar nela, surpreso. — Está dizendo que me entende? — Mais do que imagina. — respondeu ela, baixando o olhar. — Porque também sei o que é se esconder atrás de uma muralha. Por um momento, o tempo pareceu parar. As chamas dançavam em reflexos suaves sobre o rosto dela, e algo dentro de Fernando se quebrou — algo antigo, pesado, que o impedia de sentir. — Veluma… — murmurou ele, a voz quase inaudível. — Você não faz ideia do que tem causado em mim. Ela ergueu os olhos, e a intensidade no olhar dele fez o coração dela acelerar. — Então me diga — sussurrou. — O que estou causando? Fernando hesitou, mas depois se levantou. Caminhou lentamente até o lado dela. Veluma o acompanhava com o olhar, sentindo o ar mudar. Ele parou ao seu lado, e num gesto contido, mas cheio de emoção, tocou levemente o queixo dela, erguendo-lhe o rosto. — Faz anos que não me permito sentir nada — confessou, num tom rouco. — Eu havia jurado que não me deixaria mais envolver. Que meu coração estava morto. Mas desde que você chegou… A voz dele falhou. Veluma permaneceu imóvel, com os olhos marejados. — Desde que eu cheguei? — perguntou, com suavidade. — Desde que você chegou — repetiu ele, com firmeza. — Cada olhar seu, cada palavra, tem me feito lembrar que ainda existe algo bom aqui dentro. Ela sentiu o peito se apertar. — E isso o assusta? — Muito. — Ele sorriu, triste. — Porque amar é perder o controle. E eu vivi tanto tempo tentando controlar tudo, que não sei mais como é confiar em alguém. Veluma pousou a mão sobre a dele, com delicadeza. — Então não confie em mim, Fernando… confie no que sente. Ele fechou os olhos, respirando fundo. O toque dela era morno, real, e parecia curar um pedaço dele que o tempo havia esquecido. — Você é uma mulher incomum, Veluma Delarriva — murmurou, abrindo os olhos. — E temo que já seja tarde demais para eu resistir a isso. Ela sorriu, tímida, mas seus olhos brilhavam. — Às vezes, o que mais precisamos é parar de resistir. A distância entre eles se dissolveu. Não houve pressa, nem palavras. Apenas o leve toque das mãos, o respirar entrecortado, e o entendimento silencioso de que, naquele instante, dois corações feridos haviam se encontrado — e nenhum deles era mais o mesmo. Do lado de fora, o vento cessou, e a lua surgiu, redonda e luminosa, iluminando as janelas da velha mansão. Fernando Brin, o homem que por tanto tempo se escondeu da vida, agora a olhava nos olhos. E dentro daquele olhar ruivo e doce, ele encontrou a única verdade que o tempo jamais pôde apagar: a esperança de amar de novo.
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