Sob a Luz da Lua

1179 Words
A noite havia caído serena sobre a mansão Brin. Do lado de fora, o vento balançava suavemente as cortinas, e a lua cheia iluminava o jardim com um brilho prateado. Dentro da casa, o silêncio era quase sagrado. Veluma caminhava pelo corredor, o coração acelerado. O jantar havia terminado, mas algo ficara suspenso no ar — uma promessa silenciosa entre ela e Fernando. Quando chegou à porta do salão de música, o viu de costas, diante do piano, o mesmo instrumento que tantas vezes testemunhara sua solidão. — Ainda acordado? — perguntou, com um sorriso tímido. Fernando se virou devagar. O olhar dele encontrou o dela, e nenhuma palavra foi necessária. — Não consegui dormir — confessou. — Há coisas que… não me deixam em paz. Veluma se aproximou, os passos leves sobre o tapete. — Às vezes, o coração fala mais alto do que o descanso. Ele riu de leve. — E o que o seu coração está dizendo agora? Ela hesitou, mas depois respondeu num sussurro: — Que está batendo mais rápido do que deveria. Fernando deu um passo à frente, e a distância entre os dois diminuiu. O ar pareceu mudar — mais quente, mais denso. — O meu também — admitiu ele. — E não sei se devo lutar contra isso. — Talvez não precise — respondeu ela, baixinho. O silêncio que se seguiu foi carregado de tudo o que ainda não haviam dito. Fernando levantou a mão e, com um gesto cuidadoso, afastou uma mecha dos cabelos ruivos que caíam sobre o rosto dela. Seu toque era leve, quase um sopro, mas fez o corpo de Veluma estremecer. — Você é como o fogo — murmurou ele. — Me aquece… e me assusta ao mesmo tempo. — Então não tenha medo — respondeu ela, segurando a mão dele. — Às vezes o fogo também cura. Fernando aproximou-se mais, até que o perfume suave de jasmim a envolveu. Os olhos dele desciam para os lábios dela, e o coração dos dois batia no mesmo ritmo. Quando seus rostos se encontraram, o primeiro beijo foi lento, incerto — mas cheio de verdade. Foi um toque terno, um encontro de almas cansadas que, por um instante, se permitiram respirar juntas. Veluma fechou os olhos, sentindo o calor da pele dele, a força contida nos gestos, o respeito e o desejo misturados como uma mesma emoção. Fernando a envolveu nos braços, e o mundo pareceu desaparecer. O beijo se aprofundou, e com ele, o medo se dissolveu. Não havia pressa, apenas a descoberta — o toque das mãos, o calor das respirações entrecortadas, os sussurros que não precisavam de palavras. A lareira ainda queimava ao fundo, e sua luz dourada envolvia os dois em um abraço suave. Quando ele encostou a testa na dela, murmurou: — Há anos eu não me sentia vivo assim. Veluma sorriu, com os olhos marejados. — Então viva, Fernando. Viva comigo, mesmo que seja só por esta noite. Ele a olhou com ternura, e naquele instante, não havia passado, culpa ou medo — apenas dois corações que se encontraram no tempo certo, depois de tanto se esconder. A noite os envolveu em silêncio. O piano permaneceu em repouso, e a casa, antes fria, parecia agora pulsar com um novo som: o do amor renascendo, suave e verdadeiro. E quando o amanhecer chegou, o primeiro raio de sol atravessou o vitral, encontrando-os juntos — não apenas como patrão e empregada, mas como duas almas que, finalmente, se permitiram sentir.A chuva havia parado. Lá fora, o vento apenas sussurrava entre as árvores antigas. Dentro da mansão, o mundo parecia adormecido — exceto por eles. Fernando e Veluma ainda estavam próximos, o ar ao redor impregnado de calor e emoção. Ele olhava para ela como quem tenta decorar cada traço, como se temesse que tudo fosse apenas um sonho prestes a desaparecer. — Eu não sei o que dizer — murmurou ele, a voz rouca. — Sinto como se estivesse quebrando uma promessa que fiz a mim mesmo. Veluma o fitou com ternura. — Às vezes é preciso quebrar promessas antigas para cumprir as que o coração pede agora. Ele sorriu de leve, um sorriso triste, porém sincero. — Você fala com uma coragem que eu perdi há muito tempo. — Então permita que eu compartilhe a minha — respondeu ela, estendendo a mão. — Eu não quero substituir ninguém do seu passado, Fernando. Só quero ser alguém que o lembre de que ainda há beleza no presente. Fernando segurou a mão dela, e o toque foi como um pacto silencioso. — E você conseguiu. — Ele respirou fundo. — Desde que entrou nesta casa, nada mais é o mesmo. Ela sorriu, com os olhos marejados. — Eu também mudei. Um raio de luar atravessou o vidro da janela, iluminando os dois. Veluma levantou a cabeça e pousou-a sobre o ombro dele. Fernando passou o braço por sua cintura, e o gesto, simples e terno, carregava mais sentimento do que mil palavras. — Faz tanto tempo que não me deixo sentir isso — confessou ele, baixinho. — E o que sente agora? — perguntou ela, sem se mover. Ele demorou para responder. Quando o fez, a voz saiu baixa, quase um sussurro: — Paz… e medo. Veluma sorriu contra o peito dele. — A paz é o que o coração encontra quando o medo perde importância. Fernando acariciou os cabelos dela, o toque leve, reverente. — Você fala como alguém que já viveu mil vidas. — Talvez porque aprendi a olhar além da dor. — Ela levantou o rosto e o fitou nos olhos. — E o senhor me ensinou que até as feridas podem florescer outra vez. Por um instante, ele a olhou em silêncio. Depois, aproximou-se e a beijou de novo — um beijo mais profundo, carregado de emoção contida e desejo sincero. Não havia pressa. Era um reencontro com a vida. Ela sentiu as mãos dele percorrerem-lhe os ombros num toque leve, respeitoso, como se pedisse permissão a cada movimento. O corpo de Veluma respondeu com naturalidade, e, no meio daquela troca silenciosa, havia algo puro — o desejo de pertencer, não de possuir. O tempo pareceu se dissolver. O piano, a lareira, o perfume das flores do jardim… tudo se misturava num só instante de entrega e calma. Quando finalmente se afastaram, Fernando manteve o rosto junto ao dela. — Veluma… — murmurou. — Você é a única coisa verdadeira que já entrou nesta casa. Ela sorriu, tocando-lhe o rosto com carinho. — E você, Fernando Brin, é o homem que o destino quis me mostrar quando eu já não acreditava em milagres. Ele encostou a testa na dela e fechou os olhos. Ali, entre o som suave da chuva que voltava a cair e o calor das chamas que se apagavam aos poucos, ambos entenderam que nada seria igual depois daquela noite. A distância, a dor e o medo haviam se rendido à força mais antiga do mundo: o amor — nascido em silêncio, amadurecido na dor, e consumado na ternura.
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