O Disfarce da Arrependida

1406 Words
Os dias seguintes à visita de Cenet foram um turbilhão de sentimentos. Fernando tentava retomar a normalidade, mas as lembranças do passado o assombravam — a juventude perdida, os erros cometidos, e aquela mulher que agora surgia como um fantasma vestido de seda. Veluma notava o quanto ele andava distante. Os olhos dele, outrora cheios de ternura, agora pareciam presos em outro tempo, em outro rosto. Ela tentava disfarçar a insegurança, mas o coração apertava — não era medo de perder Fernando, era o medo de vê-lo enfraquecer diante de quem o ferira. Certa tarde, a chuva caía fina sobre os jardins da mansão. Fernando se recolhera à biblioteca, lendo um antigo livro de negócios, quando ouviu batidas leves na porta. — Posso entrar? — a voz era suave, quase um sussurro. Ele ergueu o olhar e a viu: Cenet, envolta num manto cor-de-vinho, com o rosto pálido e os olhos marejados. Fernando se levantou, surpreso. — Cenet… o que faz aqui? Eu pedi que não voltasse. Ela respirou fundo, os dedos trêmulos. — Eu sei. Mas precisava ver você. — Fez uma pausa dramática. — Preciso me desculpar, Fernando. Ele franziu o cenho, desconfiado. — Desculpar-se? Depois de tudo que disse? Cenet se aproximou lentamente, deixando o manto cair sobre a poltrona. — Eu fui c***l. Disse coisas que não devia… — Sua voz vacilava, doce e estudada. — Quando te vi com aquela mulher… com Veluma… perdi o controle. Lágrimas se formaram em seus olhos, e ela sussurrou: — Eu te amei demais, Fernando. E o amor, quando ferido, enlouquece. Fernando suspirou, desviando o olhar. — O amor também sabe perdoar. Mas o seu virou outra coisa. Ela sorriu com tristeza. — Talvez eu tenha esquecido como se ama… — Disse, aproximando-se dele. — Mas ver você de novo… me fez lembrar do homem bom que conheci. Estendeu a mão, roçando de leve a dele. — Ainda posso ver esse homem aqui. Fernando ficou imóvel. Havia verdade na voz dela, ou talvez ele apenas quisesse acreditar. O passado tinha o poder de confundir até o coração mais firme. No corredor, Veluma observava a cena pela fresta da porta entreaberta. O coração dela disparou ao ver Cenet tão próxima de Fernando. As lágrimas que escorriam do rosto da mulher pareciam sinceras — mas algo em seus gestos a incomodava. Era calculado demais. Aquela mulher não pedia perdão… ela representava. Mais tarde, quando Cenet se despediu, Fernando a acompanhou até o jardim. Ela se virou, segurando a mão dele por alguns segundos a mais do que devia. — Não quero que me veja como inimiga, Fernando. — sussurrou. — Eu só quero paz. Ele assentiu, contido. — Espero que fale a verdade. Ela sorriu, e naquele sorriso havia uma faísca de vitória. — Sempre falo a verdade… ao meu modo. Quando ele voltou para dentro, encontrou Veluma parada à frente da lareira. Ela o olhou sem disfarçar a angústia. — Por que a deixou entrar, Fernando? Ele passou a mão pelos cabelos, cansado. — Ela disse que queria se desculpar. Achei que seria melhor encerrar tudo de forma pacífica. — Pacífica? — Veluma riu, amarga. — Essa mulher não sabe o que é paz. Você não percebe? Ela está fingindo! Fernando se aproximou, tentando acalmá-la. — Veluma, não há motivo para se preocupar. Eu não sinto mais nada por ela. — Mas ela sente por você — respondeu Veluma, com a voz embargada. — E isso é o suficiente para me preocupar. O silêncio caiu entre os dois. Do lado de fora, a chuva engrossava, batendo contra as janelas como dedos impacientes. Naquela noite, Cenet observava a mansão da colina oposta, abrigada sob um guarda-chuva n***o. Ao lado dela, um homem encapuzado entregava-lhe um envelope. — Os empregados já estão divididos — disse o homem. — Alguns acreditam que ela não é digna dele. Cenet sorriu, satisfeita. — Excelente. — Apertou o envelope nas mãos. — A primeira fase é o arrependimento… a segunda é a ruína. Ela olhou para a mansão, os olhos cintilando no escuro. — Veluma pode ter o amor dele agora… mas logo, muito logo, ela vai implorar para perdê-lo. E assim, sob o manto da noite, o arrependimento de Cenet se revelou por completo — uma máscara perfeita para um coração cheio de veneno.Os dias seguintes àquela conversa foram estranhamente tranquilos. Cenet começou a frequentar a mansão com uma frequência cada vez maior, sempre sob o pretexto de visitar “velhos conhecidos” ou “oferecer ajuda”. Fernando, embora desconfiado, via nisso uma chance de encerrar o passado com dignidade. Veluma, porém, sentia o perigo crescendo em silêncio — como erva daninha que se espalha devagar, até sufocar as flores. Uma manhã fria, o orvalho ainda preso nas folhas das roseiras, Veluma descia a escada principal quando ouviu risadas vindas do salão. Aquela voz — doce, melodiosa — era inconfundível. Ao chegar à porta, viu Cenet sentada no sofá, servindo chá a Fernando. Ela falava animadamente sobre lembranças da juventude, e ele ouvia em silêncio, meio desconfortável. — Você ainda se lembra do lago de Brinfield? — perguntou Cenet, sorrindo. — Aquele dia em que prometeu me ensinar a remar, e acabamos caindo na água? Fernando riu de leve, tentando manter a cordialidade. — Foi uma confusão… eu devia ter previsto que você não ficaria parada dentro do barco. — Ah, mas eu nunca soube ficar parada — respondeu ela, lançando um olhar significativo. Veluma sentiu o estômago revirar. Aquela mulher não apenas fingia arrependimento — estava testando limites. Ela entrou, decidida. — Bom dia. — A voz de Veluma soou firme, cortando o ar como lâmina. — Que agradável surpresa encontrar a senhorita Montrose… de novo. Cenet levantou-se com um sorriso gracioso. — Senhora Brin, eu só vim trazer os livros que Fernando me pediu. Veluma ergueu as sobrancelhas. — Livros? — olhou para Fernando, que hesitou. — Desde quando você precisa de alguém de fora para isso? Fernando pigarreou, visivelmente tenso. — Pedi a Cenet um livro de registros antigos da família Montrose. Pode ser útil na pesquisa sobre as propriedades antigas de Londres. — Ah, claro — respondeu Veluma, o tom neutro. — Pesquisas históricas… sempre tão convenientes. Cenet se aproximou dela com delicadeza ensaiada. — Não quero causar discórdia, minha cara. — Tocou levemente o braço de Veluma. — Sei que minha presença pode incomodar, mas eu só desejo paz. Veluma manteve o olhar firme. — Paz não se oferece… se prova com atitudes. O silêncio que se seguiu foi sufocante. Fernando interveio, sentindo o clima se fechar. — Acho melhor encerrarmos por hoje. Cenet, agradeço por ter vindo. Ela assentiu, mas antes de sair, inclinou-se para ele e sussurrou, de modo que Veluma m*l pôde ouvir: — Você ainda é o mesmo homem bom que eu amei. Espero que não mude. Veluma cerrou o punho, controlando-se para não responder. Mais tarde, no quarto, ela caminhava de um lado para o outro, o coração acelerado. Fernando entrou, fechando a porta atrás de si. — Veluma… precisamos conversar. Ela se virou, com os olhos marejados. — Conversar? Ou me convencer de que aquela mulher é inofensiva? — Ela me procurou com arrependimento sincero — respondeu ele, tentando manter a calma. — Não quero mais guerras dentro desta casa. Veluma riu, amarga. — E desde quando o veneno avisa antes de matar? Fernando se aproximou e segurou o rosto dela com delicadeza. — Confie em mim. Eu sei me proteger. Ela abaixou o olhar, sentindo o medo apertar o peito. — Eu confio, Fernando… só não confio nela. Ele a abraçou, tentando acalmar as tempestades invisíveis que já se formavam entre eles. Mas do lado de fora, na escuridão do jardim, Cenet observava o quarto iluminado, o vulto dos dois se abraçando atrás da cortina. Em sua mão, uma pequena caixinha dourada reluzia sob a luz da lua. Ela abriu o estojo e retirou um anel — o antigo anel de noivado que Fernando lhe dera anos atrás. — Você pode achar que esqueceu, meu amor — murmurou, passando o dedo sobre a joia — mas esse anel ainda carrega sua promessa. E com um sorriso frio, ela o colocou de volta no dedo. — Logo, Veluma Delarriva… logo ele lembrará quem sou eu. A chuva começou a cair, lenta e constante, como o prenúncio de um novo caos prestes a se abater sobre a mansão Brin.
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