Depois de semanas de tormenta, a paz finalmente parecia se estabelecer na mansão Brin.
Félix estava preso, os gêmeos cresciam saudáveis, e Veluma, ainda que abalada, tentava reconstruir a serenidade que o medo havia arrancado dela.
Fernando a observava com ternura.
Havia noites em que ela acordava assustada, o suor frio escorrendo pela testa, mas ele estava sempre lá — abraçando-a, acalmando-a, prometendo que o pesadelo tinha acabado.
Mas a vida, como sempre, guardava novos golpes.
Numa manhã de céu cinzento, o portão principal da propriedade se abriu lentamente.
Uma carruagem elegante parou diante da entrada, e uma mulher de postura impecável desceu, usando um vestido azul-escuro e chapéu adornado com véu.
Os criados a olharam, confusos.
Ela caminhava como quem conhecia cada pedra daquele chão — e de fato, conhecia.
— Diga ao senhor Brin que Cenet Montrose deseja vê-lo — disse ela ao mordomo, com voz firme e fria.
Samuel, surpreso, hesitou.
— Senhora… o senhor Fernando está ocupado.
— Ele me receberá — respondeu ela, encarando-o com um meio sorriso. — Sempre me recebeu.
Quando Fernando desceu as escadas e a viu, ficou imóvel.
O passado se ergueu diante dele como um fantasma.
— Cenet? — murmurou, atônito. — Achei que nunca mais voltaria.
Ela sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos.
— Ah, Fernando… você deveria saber que certas histórias nunca acabam.
Veluma, que vinha do corredor com um dos gêmeos nos braços, parou ao ouvir aquela voz.
O olhar de Fernando e da estranha se cruzou por tempo demais, e o coração dela se apertou sem explicação.
— Quem é essa mulher? — perguntou, desconfiada.
Cenet virou-se lentamente, analisando-a dos pés à cabeça.
— Então é você — disse, com um leve tom de desdém. — A nova senhora Brin.
Fernando interveio, sentindo o ar pesar.
— Veluma, esta é Cenet Montrose. Fomos amigos… há muito tempo.
Veluma o encarou.
— Amigos? — repetiu, em voz baixa, mas carregada de ironia.
Cenet sorriu, caminhando pelo salão como se ainda fosse dona dele.
— Amigos de infância, vizinhos… e noivos, um dia, se bem me lembro — disse, olhando diretamente para Veluma. — Mas o destino é traiçoeiro, não é?
Fernando sentiu o sangue ferver.
— Isso acabou há muitos anos.
— Acabou pra você — rebateu ela, a voz firme. — Eu nunca deixei de amar você, Fernando. Nunca deixei de ser sua.
Veluma apertou o bebê nos braços, sentindo o coração disparar.
— Está enganada — respondeu, com calma. — O tempo passou, e o amor que você diz ter morreu com ele. Fernando tem uma família agora.
Cenet se aproximou, o olhar frio e elegante.
— Uma família construída sobre escândalo e tragédia. — Ela sorriu com ironia. — Soube que o seu ex a sequestrou… que espetáculo digno de novelas baratas.
Veluma cerrou os punhos.
— Saia da minha casa.
Fernando interveio rapidamente.
— Cenet, por favor, não veio até aqui pra criar confusão.
— Oh, querido, vim por muito mais do que isso. — Ela o olhou nos olhos, desafiadora. — Vim para retomar o que é meu.
O silêncio caiu pesado.
— Seu? — ele perguntou, incrédulo.
— Sim, Fernando. — Ela deu um passo à frente. — Você me prometeu amor, proteção… e um nome. Eu esperei por anos. E quando voltei, encontrei você casado com uma mulher qualquer.
— Chega, Cenet! — a voz dele soou firme, autoritária. — Eu era outro homem naquela época. O que tivemos… morreu.
Ela riu baixinho, com uma mistura de dor e raiva.
— Ah, não, meu querido. O amor verdadeiro não morre. E você vai perceber isso quando tudo que essa mulher toca começar a desmoronar.
Veluma respirou fundo, tentando manter a calma.
— Pode ameaçar o quanto quiser, Cenet. Eu já enfrentei o inferno e voltei. E ele tinha outro nome.
As duas se encararam — duas mulheres fortes, separadas por um homem e unidas pela fúria silenciosa do destino.
Mais tarde, quando Cenet finalmente saiu, Fernando ficou imóvel diante da janela.
Veluma se aproximou, ainda tremendo.
— Ela não veio por amor, não é? — perguntou.
— Não — respondeu ele, sombrio. — Veio por vingança… e pelo que o nome Brin representa.
Veluma olhou para o horizonte, preocupada.
— Acho que o inferno ainda não terminou, Fernando.
Ele a puxou para si e a abraçou.
— Então enfrentaremos juntos. Como sempre.
Mas do lado de fora, Cenet observava de longe, o véu balançando ao vento e os olhos cheios de promessas perigosas.
— Você vai se arrepender, Veluma Delarriva — murmurou, antes de entrar na carruagem. — Ninguém tira de mim o que é meu por direito.
E assim, uma nova sombra se ergueu sobre a mansão Brin.
Não era o passado… era apenas o começo de uma nova guerra.