O Passado de Fernando

803 Words
Depois de semanas de tormenta, a paz finalmente parecia se estabelecer na mansão Brin. Félix estava preso, os gêmeos cresciam saudáveis, e Veluma, ainda que abalada, tentava reconstruir a serenidade que o medo havia arrancado dela. Fernando a observava com ternura. Havia noites em que ela acordava assustada, o suor frio escorrendo pela testa, mas ele estava sempre lá — abraçando-a, acalmando-a, prometendo que o pesadelo tinha acabado. Mas a vida, como sempre, guardava novos golpes. Numa manhã de céu cinzento, o portão principal da propriedade se abriu lentamente. Uma carruagem elegante parou diante da entrada, e uma mulher de postura impecável desceu, usando um vestido azul-escuro e chapéu adornado com véu. Os criados a olharam, confusos. Ela caminhava como quem conhecia cada pedra daquele chão — e de fato, conhecia. — Diga ao senhor Brin que Cenet Montrose deseja vê-lo — disse ela ao mordomo, com voz firme e fria. Samuel, surpreso, hesitou. — Senhora… o senhor Fernando está ocupado. — Ele me receberá — respondeu ela, encarando-o com um meio sorriso. — Sempre me recebeu. Quando Fernando desceu as escadas e a viu, ficou imóvel. O passado se ergueu diante dele como um fantasma. — Cenet? — murmurou, atônito. — Achei que nunca mais voltaria. Ela sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos. — Ah, Fernando… você deveria saber que certas histórias nunca acabam. Veluma, que vinha do corredor com um dos gêmeos nos braços, parou ao ouvir aquela voz. O olhar de Fernando e da estranha se cruzou por tempo demais, e o coração dela se apertou sem explicação. — Quem é essa mulher? — perguntou, desconfiada. Cenet virou-se lentamente, analisando-a dos pés à cabeça. — Então é você — disse, com um leve tom de desdém. — A nova senhora Brin. Fernando interveio, sentindo o ar pesar. — Veluma, esta é Cenet Montrose. Fomos amigos… há muito tempo. Veluma o encarou. — Amigos? — repetiu, em voz baixa, mas carregada de ironia. Cenet sorriu, caminhando pelo salão como se ainda fosse dona dele. — Amigos de infância, vizinhos… e noivos, um dia, se bem me lembro — disse, olhando diretamente para Veluma. — Mas o destino é traiçoeiro, não é? Fernando sentiu o sangue ferver. — Isso acabou há muitos anos. — Acabou pra você — rebateu ela, a voz firme. — Eu nunca deixei de amar você, Fernando. Nunca deixei de ser sua. Veluma apertou o bebê nos braços, sentindo o coração disparar. — Está enganada — respondeu, com calma. — O tempo passou, e o amor que você diz ter morreu com ele. Fernando tem uma família agora. Cenet se aproximou, o olhar frio e elegante. — Uma família construída sobre escândalo e tragédia. — Ela sorriu com ironia. — Soube que o seu ex a sequestrou… que espetáculo digno de novelas baratas. Veluma cerrou os punhos. — Saia da minha casa. Fernando interveio rapidamente. — Cenet, por favor, não veio até aqui pra criar confusão. — Oh, querido, vim por muito mais do que isso. — Ela o olhou nos olhos, desafiadora. — Vim para retomar o que é meu. O silêncio caiu pesado. — Seu? — ele perguntou, incrédulo. — Sim, Fernando. — Ela deu um passo à frente. — Você me prometeu amor, proteção… e um nome. Eu esperei por anos. E quando voltei, encontrei você casado com uma mulher qualquer. — Chega, Cenet! — a voz dele soou firme, autoritária. — Eu era outro homem naquela época. O que tivemos… morreu. Ela riu baixinho, com uma mistura de dor e raiva. — Ah, não, meu querido. O amor verdadeiro não morre. E você vai perceber isso quando tudo que essa mulher toca começar a desmoronar. Veluma respirou fundo, tentando manter a calma. — Pode ameaçar o quanto quiser, Cenet. Eu já enfrentei o inferno e voltei. E ele tinha outro nome. As duas se encararam — duas mulheres fortes, separadas por um homem e unidas pela fúria silenciosa do destino. Mais tarde, quando Cenet finalmente saiu, Fernando ficou imóvel diante da janela. Veluma se aproximou, ainda tremendo. — Ela não veio por amor, não é? — perguntou. — Não — respondeu ele, sombrio. — Veio por vingança… e pelo que o nome Brin representa. Veluma olhou para o horizonte, preocupada. — Acho que o inferno ainda não terminou, Fernando. Ele a puxou para si e a abraçou. — Então enfrentaremos juntos. Como sempre. Mas do lado de fora, Cenet observava de longe, o véu balançando ao vento e os olhos cheios de promessas perigosas. — Você vai se arrepender, Veluma Delarriva — murmurou, antes de entrar na carruagem. — Ninguém tira de mim o que é meu por direito. E assim, uma nova sombra se ergueu sobre a mansão Brin. Não era o passado… era apenas o começo de uma nova guerra.
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