A estrada estava deserta. O vento frio cortava o rosto de Veluma enquanto ela dirigia sem destino certo, seguindo apenas as instruções que a voz c***l de Félix deixara no bilhete.
A cada quilômetro, seu coração batia mais rápido.
O medo gritava dentro dela, mas o amor pelos gêmeos e por Fernando era maior.
“Galpão no fim da estrada de Ashdown. Sozinha. Ou os três morrem.”
Essas palavras ecoavam em sua mente como uma sentença.
Quando chegou, o local estava mergulhado na escuridão. O som distante de correntes e o cheiro de ferrugem pairavam no ar.
Ela saiu do carro, tremendo, mas ereta, o olhar decidido.
— Estou aqui, Félix! — gritou, a voz firme. — Agora cumpra sua promessa e solte o Fernando!
O som de passos ecoou entre as sombras.
Félix surgiu, com o mesmo sorriso que ela tanto temia — frio, calculado, doentio.
Nos olhos dele havia loucura e desejo misturados em algo perigoso.
— Ah… minha bela Veluma — disse ele, aproximando-se devagar. — Eu sabia que você viria. Sempre foi previsível quando o assunto é amor.
— Onde ele está? — exigiu ela, o olhar firme. — O que você fez com Fernando?
Félix riu, jogando um pequeno pingente ao chão — o relógio de bolso de Fernando.
— Ele ainda respira. Por enquanto.
Veluma sentiu o estômago gelar.
— Se você tocar nele, eu…
— Você o quê? — interrompeu Félix, se aproximando mais. — Vai me matar? Com o quê? — Ele levantou os braços, zombando. — Você é frágil, Veluma. Sempre foi.
Ela deu um passo atrás, mas não desviou o olhar.
— Eu não sou mais a mulher que você dominava com medo.
O sorriso dele se apagou por um instante.
Depois, puxou um revólver da cintura e apontou para ela.
— Então prove. Fique comigo… e eu deixo Fernando e os gêmeos viverem.
Veluma sentiu o coração parar.
As palavras dele cortaram como lâminas.
— Você é louco… — murmurou, quase sem voz. — Isso não é amor, Félix. É obsessão.
Ele avançou, segurando o rosto dela com força.
— Amor é o que eu sentia quando você olhava pra mim antes de conhecer aquele maldito Brin! — gritou, com raiva. — Eu te dei tudo! E você me trocou por ele!
Ela tentou se soltar, mas ele a puxou ainda mais.
— Eu nunca te amei, Félix — disse, encarando-o com os olhos marejados. — O que você chama de amor sempre foi prisão.
Por um segundo, ele pareceu hesitar.
Mas logo o olhar enlouquecido voltou.
— Então todos vão morrer. O Brin, os gêmeos… e depois, você.
Ele a empurrou contra a parede e tirou o celular do bolso, mostrando a câmera.
Na tela, Fernando estava amarrado, inconsciente, com sangue escorrendo pela testa.
Veluma sufocou um grito.
— Não! —
— Um movimento em falso, e eu atiro — disse ele, com frieza.
Ela respirou fundo, lutando contra o desespero.
O cérebro trabalhava rápido, tentando achar uma brecha.
— O que você quer, Félix? — perguntou, tentando ganhar tempo.
— Quero você. — Ele se aproximou, encostando o cano do revólver no queixo dela. — Quero olhar nos olhos de Fernando enquanto você me beija.
Veluma engoliu o choro. O medo queimava como fogo por dentro, mas ela não desviou o olhar.
— Você quer me ver destruída, não é?
— Exatamente. —
Ela fechou os olhos por um instante. E quando os abriu, havia algo novo neles — coragem e raiva misturadas.
— Então olhe bem, Félix — sussurrou. — Porque nunca mais vai me ver com medo.
Num movimento rápido, Veluma empurrou o braço dele para o lado e o revólver disparou — o som ecoou pelas paredes do galpão.
O tiro ricocheteou no ferro, e Félix cambaleou.
Ela correu em direção à escada que levava ao andar superior, tentando escapar, mas ele a alcançou e agarrou seu braço.
— Você vai morrer comigo! — gritou ele, tentando puxá-la.
— Não! — Ela o empurrou com força, e os dois se desequilibraram. Félix caiu contra uma pilha de caixas, o revólver escorregando para longe.
Veluma correu até ele, ofegante, e apontou a arma contra o peito dele.
— Acabou, Félix.
Ele riu, cuspindo sangue.
— Você… nunca teria coragem.
Ela chorava, as mãos trêmulas, mas não abaixou a arma.
— Eu teria… por eles.
Antes que ela decidisse o que fazer, uma voz atrás dela soou:
— Veluma! — Era Fernando, ensanguentado, mancando, mas vivo.
Ela se virou, e Félix aproveitou o descuido. Pegou um pedaço de ferro e tentou golpeá-lo pelas costas.
Mas Fernando foi mais rápido — o som do impacto ecoou, e Félix caiu, desmaiado.
Fernando segurou Veluma nos braços, o corpo dela tremendo.
— Eu pensei que nunca mais ia te ver… — ela soluçou.
— Eu também — disse ele, acariciando o rosto dela. — Mas você é mais forte do que todos nós juntos.
Ela olhou para o chão, onde Félix jazia inconsciente.
— Será que agora acabou?
Fernando respirou fundo.
— Acabou… por enquanto. Mas ele vai pagar por tudo.
Ele a abraçou com força, sentindo o coração dela bater contra o seu.
Naquele abraço, havia medo, dor e alívio — mas também uma certeza:
nenhum m*l poderia destruir um amor que nasceu para resistir até o fim.
Quando o sol começou a nascer, a polícia chegou.
Félix foi levado, algemado, mas com o mesmo olhar doentio.
Antes de entrar na viatura, olhou para Veluma e sussurrou:
— Isso ainda não acabou.
Ela o observou partir, com lágrimas e coragem misturadas no olhar.
Fernando segurou sua mão, apertando firme.
— Agora ele está onde merece.
— E nós… estamos vivos — respondeu ela, com um sorriso fraco.
O vento soprou entre as árvores, trazendo o primeiro raio de sol depois da noite mais longa de suas vidas.
E pela primeira vez em muito tempo, Veluma sentiu que o amor — o verdadeiro amor — era mais forte do que qualquer escuridão.