O Preço do Medo

1004 Words
A estrada estava deserta. O vento frio cortava o rosto de Veluma enquanto ela dirigia sem destino certo, seguindo apenas as instruções que a voz c***l de Félix deixara no bilhete. A cada quilômetro, seu coração batia mais rápido. O medo gritava dentro dela, mas o amor pelos gêmeos e por Fernando era maior. “Galpão no fim da estrada de Ashdown. Sozinha. Ou os três morrem.” Essas palavras ecoavam em sua mente como uma sentença. Quando chegou, o local estava mergulhado na escuridão. O som distante de correntes e o cheiro de ferrugem pairavam no ar. Ela saiu do carro, tremendo, mas ereta, o olhar decidido. — Estou aqui, Félix! — gritou, a voz firme. — Agora cumpra sua promessa e solte o Fernando! O som de passos ecoou entre as sombras. Félix surgiu, com o mesmo sorriso que ela tanto temia — frio, calculado, doentio. Nos olhos dele havia loucura e desejo misturados em algo perigoso. — Ah… minha bela Veluma — disse ele, aproximando-se devagar. — Eu sabia que você viria. Sempre foi previsível quando o assunto é amor. — Onde ele está? — exigiu ela, o olhar firme. — O que você fez com Fernando? Félix riu, jogando um pequeno pingente ao chão — o relógio de bolso de Fernando. — Ele ainda respira. Por enquanto. Veluma sentiu o estômago gelar. — Se você tocar nele, eu… — Você o quê? — interrompeu Félix, se aproximando mais. — Vai me matar? Com o quê? — Ele levantou os braços, zombando. — Você é frágil, Veluma. Sempre foi. Ela deu um passo atrás, mas não desviou o olhar. — Eu não sou mais a mulher que você dominava com medo. O sorriso dele se apagou por um instante. Depois, puxou um revólver da cintura e apontou para ela. — Então prove. Fique comigo… e eu deixo Fernando e os gêmeos viverem. Veluma sentiu o coração parar. As palavras dele cortaram como lâminas. — Você é louco… — murmurou, quase sem voz. — Isso não é amor, Félix. É obsessão. Ele avançou, segurando o rosto dela com força. — Amor é o que eu sentia quando você olhava pra mim antes de conhecer aquele maldito Brin! — gritou, com raiva. — Eu te dei tudo! E você me trocou por ele! Ela tentou se soltar, mas ele a puxou ainda mais. — Eu nunca te amei, Félix — disse, encarando-o com os olhos marejados. — O que você chama de amor sempre foi prisão. Por um segundo, ele pareceu hesitar. Mas logo o olhar enlouquecido voltou. — Então todos vão morrer. O Brin, os gêmeos… e depois, você. Ele a empurrou contra a parede e tirou o celular do bolso, mostrando a câmera. Na tela, Fernando estava amarrado, inconsciente, com sangue escorrendo pela testa. Veluma sufocou um grito. — Não! — — Um movimento em falso, e eu atiro — disse ele, com frieza. Ela respirou fundo, lutando contra o desespero. O cérebro trabalhava rápido, tentando achar uma brecha. — O que você quer, Félix? — perguntou, tentando ganhar tempo. — Quero você. — Ele se aproximou, encostando o cano do revólver no queixo dela. — Quero olhar nos olhos de Fernando enquanto você me beija. Veluma engoliu o choro. O medo queimava como fogo por dentro, mas ela não desviou o olhar. — Você quer me ver destruída, não é? — Exatamente. — Ela fechou os olhos por um instante. E quando os abriu, havia algo novo neles — coragem e raiva misturadas. — Então olhe bem, Félix — sussurrou. — Porque nunca mais vai me ver com medo. Num movimento rápido, Veluma empurrou o braço dele para o lado e o revólver disparou — o som ecoou pelas paredes do galpão. O tiro ricocheteou no ferro, e Félix cambaleou. Ela correu em direção à escada que levava ao andar superior, tentando escapar, mas ele a alcançou e agarrou seu braço. — Você vai morrer comigo! — gritou ele, tentando puxá-la. — Não! — Ela o empurrou com força, e os dois se desequilibraram. Félix caiu contra uma pilha de caixas, o revólver escorregando para longe. Veluma correu até ele, ofegante, e apontou a arma contra o peito dele. — Acabou, Félix. Ele riu, cuspindo sangue. — Você… nunca teria coragem. Ela chorava, as mãos trêmulas, mas não abaixou a arma. — Eu teria… por eles. Antes que ela decidisse o que fazer, uma voz atrás dela soou: — Veluma! — Era Fernando, ensanguentado, mancando, mas vivo. Ela se virou, e Félix aproveitou o descuido. Pegou um pedaço de ferro e tentou golpeá-lo pelas costas. Mas Fernando foi mais rápido — o som do impacto ecoou, e Félix caiu, desmaiado. Fernando segurou Veluma nos braços, o corpo dela tremendo. — Eu pensei que nunca mais ia te ver… — ela soluçou. — Eu também — disse ele, acariciando o rosto dela. — Mas você é mais forte do que todos nós juntos. Ela olhou para o chão, onde Félix jazia inconsciente. — Será que agora acabou? Fernando respirou fundo. — Acabou… por enquanto. Mas ele vai pagar por tudo. Ele a abraçou com força, sentindo o coração dela bater contra o seu. Naquele abraço, havia medo, dor e alívio — mas também uma certeza: nenhum m*l poderia destruir um amor que nasceu para resistir até o fim. Quando o sol começou a nascer, a polícia chegou. Félix foi levado, algemado, mas com o mesmo olhar doentio. Antes de entrar na viatura, olhou para Veluma e sussurrou: — Isso ainda não acabou. Ela o observou partir, com lágrimas e coragem misturadas no olhar. Fernando segurou sua mão, apertando firme. — Agora ele está onde merece. — E nós… estamos vivos — respondeu ela, com um sorriso fraco. O vento soprou entre as árvores, trazendo o primeiro raio de sol depois da noite mais longa de suas vidas. E pela primeira vez em muito tempo, Veluma sentiu que o amor — o verdadeiro amor — era mais forte do que qualquer escuridão.
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