As semanas seguintes ao sequestro foram um turbilhão.
A mansão Brin parecia respirar alívio novamente, e a rotina dos gêmeos trazia de volta risos e esperança.
Mas, no coração de Veluma, a paz ainda era frágil — uma chama que tremia diante do menor vento.
Fernando fazia o possível para protegê-la.
Aumentou a segurança, colocou guardas nos portões, e não deixava ninguém se aproximar da família sem sua aprovação.
Ainda assim, ele percebia o medo nos olhos dela todas as noites.
Certa madrugada, quando o relógio marcava três da manhã, Veluma despertou assustada.
Sonhara com Félix — o olhar dele, o riso c***l, a faca nas mãos.
Ela se sentou na cama, ofegante, e encontrou Fernando acordado, observando o fogo da lareira.
— Não consegue dormir? — perguntou ela, a voz baixa.
— Não enquanto esse homem ainda respira — respondeu ele, firme. — Félix pode estar preso, mas sei que ainda não terminou.
Veluma abaixou a cabeça, sentindo o peso das lembranças.
— Às vezes acho que ele me persegue até nos sonhos.
— Ele quer nos quebrar, Veluma. — Fernando se aproximou, segurando o rosto dela. — Mas não vai conseguir. Você é mais forte do que imagina.
Ela tentou sorrir, mas o medo ainda pairava.
Na prisão, Félix Moreau não demonstrava arrependimento.
Durante os interrogatórios, manteve o mesmo sorriso sarcástico que sempre o acompanhara.
— Acha mesmo que pode me manter aqui para sempre? — zombou ele, diante do delegado. — O dinheiro compra portas… e eu tenho amigos com chaves.
E ele não mentia.
Em pouco tempo, subornos, ameaças e manipulações começaram a circular entre guardas e autoridades locais.
Até que, em uma noite chuvosa, um dos carcereiros deixou a cela aberta — “por engano”.
Félix não precisou de mais do que isso.
Sumiu como uma sombra, deixando para trás apenas o som de passos ecoando no corredor.
Dias depois, Fernando recebeu a notícia no escritório.
O mordomo Samuel entrou apressado, o rosto pálido.
— Senhor… Félix fugiu da prisão.
O copo nas mãos de Fernando se espatifou no chão.
— Quando? — rugiu ele.
— Ontem à noite. A polícia ainda o procura.
Fernando respirou fundo, tentando conter a fúria que crescia dentro dele.
— Maldito… — murmurou. — Ele vai atrás dela.
Sem perder tempo, mandou reforçar a segurança e pediu que ninguém informasse Veluma da fuga.
Mas o destino parecia gostar de testar corações cansados.
Na manhã seguinte, Veluma foi ao jardim com os bebês e notou algo estranho.
Uma rosa vermelha repousava sobre o banco de pedra.
Ao lado dela, um bilhete, escrito à mão:
“Nada termina até eu decidir.
— F.”
O papel tremia entre seus dedos.
O medo voltou, frio e cortante.
Ela olhou em volta — os guardas, o jardim, o portão distante. Tudo parecia normal.
Mas no fundo, sabia: ele estava por perto.
À noite, quando Fernando chegou, ela o esperava, pálida, segurando o bilhete.
— Ele voltou, Fernando — sussurrou. — Eu senti.
Fernando pegou o papel, o olhar endurecendo.
— Esse homem está pedindo guerra.
Ele foi até a janela, observando a escuridão do lado de fora.
As luzes da propriedade refletiam nos vidros, mas além delas… havia apenas o breu.
— Eu prometo, Veluma — disse, virando-se para ela. — Se ele ousar tocar em você de novo, não haverá lugar no mundo onde possa se esconder.
Ela o abraçou com força, mas o medo ainda sussurrava em sua mente.
Félix não queria apenas vingança.
Ele queria destruir o amor que ela e Fernando construíram — e estava disposto a fazer isso lentamente, arrancando a paz deles, um pedaço de cada vez.
Nas semanas seguintes, começaram os ataques sutis.
As fazendas de Fernando foram sabotadas — gado envenenado, plantações queimadas.
Os funcionários começaram a receber ameaças anônimas.
Um dos carros da família foi sabotado, os freios cortados.
Veluma vivia em sobressalto, e Fernando já m*l dormia.
— Ele quer me ver cair — dizia Fernando, tenso. — Quer que eu perca tudo o que amo.
Certa noite, um vulto foi visto perto do berçário.
Quando os seguranças chegaram, não havia ninguém.
Apenas outro bilhete, deixado no berço de Liam:
“Dois anjinhos tão lindos… Seria uma pena se um deles desaparecesse de novo.”
Veluma desabou em lágrimas, e Fernando sentiu a alma se partir.
A guerra com Félix estava longe do fim — e agora, mais do que nunca, ele sabia que não bastava defender.
Era preciso atacar.
Enquanto o amanhecer pintava o céu de cinza, Fernando olhou para a mulher que amava e os filhos que jurara proteger.
Havia apenas uma escolha: acabar com Félix antes que Félix acabasse com eles.
Com o olhar decidido, chamou Samuel.
— Prepare tudo. Vamos caçar esse demônio até o fim.
E assim, com o vento frio cortando o horizonte, o magnata da terra jurou que a próxima vez que encarasse Félix Moreau seria a última.A decisão de Fernando estava tomada: ele não esperaria que Félix atacasse novamente.
Naquela madrugada, enquanto Veluma dormia abraçada aos gêmeos, ele entrou no escritório, acendeu um cigarro — o primeiro em meses — e começou a traçar um plano.
Mapas, endereços, relatórios policiais… tudo espalhado sobre a mesa de carvalho.
Samuel, o mordomo fiel, entrou em silêncio.
— Senhor, a senhora Veluma vai perceber sua ausência se sair esta noite.
Fernando olhou para o retrato dela e respondeu, com voz baixa, porém firme:
— É por ela que estou indo. Eu prometi que ninguém mais tocaria na minha família.
A noite estava fria quando o carro partiu, os faróis cortando a neblina das colinas de Londres.
Fernando seguiu uma pista que o detetive particular havia conseguido — um galpão abandonado nos arredores da cidade, onde homens de Félix haviam sido vistos.
Ao chegar, o silêncio era quase sepulcral.
Somente o som distante da água pingando e o farfalhar das correntes ao vento.
Fernando entrou, arma em punho, o coração acelerado.
O cheiro de ferrugem e óleo queimado preenchia o ar.
De repente, uma risada ecoou pelas sombras.
— Sempre tão previsível, Brin — disse uma voz familiar.
Félix surgiu da escuridão, o mesmo sorriso frio no rosto, um brilho de loucura nos olhos.
— Está jogando com fogo — respondeu Fernando, apontando a arma.
— E você, com amor — zombou Félix. — O amor sempre foi sua fraqueza.
Fernando se aproximou lentamente, controlando a raiva que queimava no peito.
— Você roubou meus filhos. Machucou a mulher que eu amo. Isso não é vingança, é doença.
Félix riu.
— Ah, mas você ainda não entendeu, não é? — Ele deu um passo à frente. — Eu não quero matá-la… quero que ela lembre de mim toda vez que olhar pra você.
Fernando puxou o gatilho, mas o disparo atingiu apenas o metal atrás de Félix. O homem desapareceu na penumbra como um fantasma, deixando apenas o eco da risada.
Enquanto isso, na mansão, Veluma despertou assustada.
Um vento frio atravessava a janela aberta, e um pressentimento sombrio a fez se levantar.
Ela foi até o berço dos bebês e os encontrou dormindo tranquilos, mas sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Desceu as escadas, chamando por Fernando.
— Fernando?
O eco da própria voz foi a única resposta.
Ela avistou o escritório aberto, as luzes ainda acesas, e o mapa sobre a mesa.
Quando viu o nome “Félix Moreau” rabiscado, sentiu o coração apertar.
— Não… — sussurrou, levando a mão à boca. — Ele foi atrás dele… sozinho.
A lembrança do cativeiro voltou em flashes dolorosos — as correntes, o medo, o cheiro de mofo e sangue.
As mãos de Félix em seu rosto, a voz dele sussurrando promessas de destruição.
Ela caiu de joelhos, chorando silenciosamente.
O trauma que lutava para esquecer voltou com força brutal.
Enquanto isso, no galpão, Fernando caminhava entre sombras e ecos.
De repente, um som — o estalar de uma garrafa — e algo atingiu sua cabeça por trás.
Tudo girou.
Ele caiu de joelhos, atordoado, e antes de perder os sentidos, ouviu a voz de Félix sussurrando:
— Agora sim, Brin. Vamos ver o que é perder tudo… devagar.
Horas depois, Veluma recebeu uma ligação.
A voz do outro lado era suave e fria.
— Saudades, minha querida? — Félix.
Ela congelou.
— O que você quer, Félix? — gritou, o desespero em cada sílaba.
— Quero o mesmo que sempre quis: você. Mas agora, quero mais… quero vê-la implorar.
— Onde está o Fernando?! —
— Vivo. Por enquanto. — Ele riu, o som c***l ecoando no telefone. — Mas tudo depende do quanto você o ama.
Veluma caiu em prantos.
Os bebês começaram a chorar no quarto, e ela, tremendo, apertou o telefone contra o peito.
— Félix, por favor… — murmurou, quase sem ar. — Não machuque ele.
— Então venha até mim — respondeu ele, frio como gelo. — Sozinha.
A ligação caiu.
Veluma ficou imóvel, o coração descompassado, o medo dominando-a.
Mas no meio do pavor, uma força começou a despertar.
Ela enxugou as lágrimas, respirou fundo e olhou para o retrato da família sobre a lareira.
— Você quer guerra, Félix? Vai tê-la.
No fundo da noite, com a alma dividida entre medo e coragem, Veluma vestiu o casaco, beijou os filhos adormecidos e saiu sem ser vista.
A lua refletia em seus olhos — determinados, feridos, mas cheios de amor.
Ela sabia que poderia não voltar.
Mas também sabia que, se não lutasse agora, perderia tudo o que mais amava.
E enquanto os portões da mansão se fechavam atrás dela, o vento levou sua última prece:
“Que Deus me dê coragem para enfrentar o inferno… porque é lá que Félix me espera.”