Sombras do Passado

1625 Words
As semanas seguintes ao sequestro foram um turbilhão. A mansão Brin parecia respirar alívio novamente, e a rotina dos gêmeos trazia de volta risos e esperança. Mas, no coração de Veluma, a paz ainda era frágil — uma chama que tremia diante do menor vento. Fernando fazia o possível para protegê-la. Aumentou a segurança, colocou guardas nos portões, e não deixava ninguém se aproximar da família sem sua aprovação. Ainda assim, ele percebia o medo nos olhos dela todas as noites. Certa madrugada, quando o relógio marcava três da manhã, Veluma despertou assustada. Sonhara com Félix — o olhar dele, o riso c***l, a faca nas mãos. Ela se sentou na cama, ofegante, e encontrou Fernando acordado, observando o fogo da lareira. — Não consegue dormir? — perguntou ela, a voz baixa. — Não enquanto esse homem ainda respira — respondeu ele, firme. — Félix pode estar preso, mas sei que ainda não terminou. Veluma abaixou a cabeça, sentindo o peso das lembranças. — Às vezes acho que ele me persegue até nos sonhos. — Ele quer nos quebrar, Veluma. — Fernando se aproximou, segurando o rosto dela. — Mas não vai conseguir. Você é mais forte do que imagina. Ela tentou sorrir, mas o medo ainda pairava. Na prisão, Félix Moreau não demonstrava arrependimento. Durante os interrogatórios, manteve o mesmo sorriso sarcástico que sempre o acompanhara. — Acha mesmo que pode me manter aqui para sempre? — zombou ele, diante do delegado. — O dinheiro compra portas… e eu tenho amigos com chaves. E ele não mentia. Em pouco tempo, subornos, ameaças e manipulações começaram a circular entre guardas e autoridades locais. Até que, em uma noite chuvosa, um dos carcereiros deixou a cela aberta — “por engano”. Félix não precisou de mais do que isso. Sumiu como uma sombra, deixando para trás apenas o som de passos ecoando no corredor. Dias depois, Fernando recebeu a notícia no escritório. O mordomo Samuel entrou apressado, o rosto pálido. — Senhor… Félix fugiu da prisão. O copo nas mãos de Fernando se espatifou no chão. — Quando? — rugiu ele. — Ontem à noite. A polícia ainda o procura. Fernando respirou fundo, tentando conter a fúria que crescia dentro dele. — Maldito… — murmurou. — Ele vai atrás dela. Sem perder tempo, mandou reforçar a segurança e pediu que ninguém informasse Veluma da fuga. Mas o destino parecia gostar de testar corações cansados. Na manhã seguinte, Veluma foi ao jardim com os bebês e notou algo estranho. Uma rosa vermelha repousava sobre o banco de pedra. Ao lado dela, um bilhete, escrito à mão: “Nada termina até eu decidir. — F.” O papel tremia entre seus dedos. O medo voltou, frio e cortante. Ela olhou em volta — os guardas, o jardim, o portão distante. Tudo parecia normal. Mas no fundo, sabia: ele estava por perto. À noite, quando Fernando chegou, ela o esperava, pálida, segurando o bilhete. — Ele voltou, Fernando — sussurrou. — Eu senti. Fernando pegou o papel, o olhar endurecendo. — Esse homem está pedindo guerra. Ele foi até a janela, observando a escuridão do lado de fora. As luzes da propriedade refletiam nos vidros, mas além delas… havia apenas o breu. — Eu prometo, Veluma — disse, virando-se para ela. — Se ele ousar tocar em você de novo, não haverá lugar no mundo onde possa se esconder. Ela o abraçou com força, mas o medo ainda sussurrava em sua mente. Félix não queria apenas vingança. Ele queria destruir o amor que ela e Fernando construíram — e estava disposto a fazer isso lentamente, arrancando a paz deles, um pedaço de cada vez. Nas semanas seguintes, começaram os ataques sutis. As fazendas de Fernando foram sabotadas — gado envenenado, plantações queimadas. Os funcionários começaram a receber ameaças anônimas. Um dos carros da família foi sabotado, os freios cortados. Veluma vivia em sobressalto, e Fernando já m*l dormia. — Ele quer me ver cair — dizia Fernando, tenso. — Quer que eu perca tudo o que amo. Certa noite, um vulto foi visto perto do berçário. Quando os seguranças chegaram, não havia ninguém. Apenas outro bilhete, deixado no berço de Liam: “Dois anjinhos tão lindos… Seria uma pena se um deles desaparecesse de novo.” Veluma desabou em lágrimas, e Fernando sentiu a alma se partir. A guerra com Félix estava longe do fim — e agora, mais do que nunca, ele sabia que não bastava defender. Era preciso atacar. Enquanto o amanhecer pintava o céu de cinza, Fernando olhou para a mulher que amava e os filhos que jurara proteger. Havia apenas uma escolha: acabar com Félix antes que Félix acabasse com eles. Com o olhar decidido, chamou Samuel. — Prepare tudo. Vamos caçar esse demônio até o fim. E assim, com o vento frio cortando o horizonte, o magnata da terra jurou que a próxima vez que encarasse Félix Moreau seria a última.A decisão de Fernando estava tomada: ele não esperaria que Félix atacasse novamente. Naquela madrugada, enquanto Veluma dormia abraçada aos gêmeos, ele entrou no escritório, acendeu um cigarro — o primeiro em meses — e começou a traçar um plano. Mapas, endereços, relatórios policiais… tudo espalhado sobre a mesa de carvalho. Samuel, o mordomo fiel, entrou em silêncio. — Senhor, a senhora Veluma vai perceber sua ausência se sair esta noite. Fernando olhou para o retrato dela e respondeu, com voz baixa, porém firme: — É por ela que estou indo. Eu prometi que ninguém mais tocaria na minha família. A noite estava fria quando o carro partiu, os faróis cortando a neblina das colinas de Londres. Fernando seguiu uma pista que o detetive particular havia conseguido — um galpão abandonado nos arredores da cidade, onde homens de Félix haviam sido vistos. Ao chegar, o silêncio era quase sepulcral. Somente o som distante da água pingando e o farfalhar das correntes ao vento. Fernando entrou, arma em punho, o coração acelerado. O cheiro de ferrugem e óleo queimado preenchia o ar. De repente, uma risada ecoou pelas sombras. — Sempre tão previsível, Brin — disse uma voz familiar. Félix surgiu da escuridão, o mesmo sorriso frio no rosto, um brilho de loucura nos olhos. — Está jogando com fogo — respondeu Fernando, apontando a arma. — E você, com amor — zombou Félix. — O amor sempre foi sua fraqueza. Fernando se aproximou lentamente, controlando a raiva que queimava no peito. — Você roubou meus filhos. Machucou a mulher que eu amo. Isso não é vingança, é doença. Félix riu. — Ah, mas você ainda não entendeu, não é? — Ele deu um passo à frente. — Eu não quero matá-la… quero que ela lembre de mim toda vez que olhar pra você. Fernando puxou o gatilho, mas o disparo atingiu apenas o metal atrás de Félix. O homem desapareceu na penumbra como um fantasma, deixando apenas o eco da risada. Enquanto isso, na mansão, Veluma despertou assustada. Um vento frio atravessava a janela aberta, e um pressentimento sombrio a fez se levantar. Ela foi até o berço dos bebês e os encontrou dormindo tranquilos, mas sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Desceu as escadas, chamando por Fernando. — Fernando? O eco da própria voz foi a única resposta. Ela avistou o escritório aberto, as luzes ainda acesas, e o mapa sobre a mesa. Quando viu o nome “Félix Moreau” rabiscado, sentiu o coração apertar. — Não… — sussurrou, levando a mão à boca. — Ele foi atrás dele… sozinho. A lembrança do cativeiro voltou em flashes dolorosos — as correntes, o medo, o cheiro de mofo e sangue. As mãos de Félix em seu rosto, a voz dele sussurrando promessas de destruição. Ela caiu de joelhos, chorando silenciosamente. O trauma que lutava para esquecer voltou com força brutal. Enquanto isso, no galpão, Fernando caminhava entre sombras e ecos. De repente, um som — o estalar de uma garrafa — e algo atingiu sua cabeça por trás. Tudo girou. Ele caiu de joelhos, atordoado, e antes de perder os sentidos, ouviu a voz de Félix sussurrando: — Agora sim, Brin. Vamos ver o que é perder tudo… devagar. Horas depois, Veluma recebeu uma ligação. A voz do outro lado era suave e fria. — Saudades, minha querida? — Félix. Ela congelou. — O que você quer, Félix? — gritou, o desespero em cada sílaba. — Quero o mesmo que sempre quis: você. Mas agora, quero mais… quero vê-la implorar. — Onde está o Fernando?! — — Vivo. Por enquanto. — Ele riu, o som c***l ecoando no telefone. — Mas tudo depende do quanto você o ama. Veluma caiu em prantos. Os bebês começaram a chorar no quarto, e ela, tremendo, apertou o telefone contra o peito. — Félix, por favor… — murmurou, quase sem ar. — Não machuque ele. — Então venha até mim — respondeu ele, frio como gelo. — Sozinha. A ligação caiu. Veluma ficou imóvel, o coração descompassado, o medo dominando-a. Mas no meio do pavor, uma força começou a despertar. Ela enxugou as lágrimas, respirou fundo e olhou para o retrato da família sobre a lareira. — Você quer guerra, Félix? Vai tê-la. No fundo da noite, com a alma dividida entre medo e coragem, Veluma vestiu o casaco, beijou os filhos adormecidos e saiu sem ser vista. A lua refletia em seus olhos — determinados, feridos, mas cheios de amor. Ela sabia que poderia não voltar. Mas também sabia que, se não lutasse agora, perderia tudo o que mais amava. E enquanto os portões da mansão se fechavam atrás dela, o vento levou sua última prece: “Que Deus me dê coragem para enfrentar o inferno… porque é lá que Félix me espera.”
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