Capítulo 63. Oliver criando confiança

1055 Words
Clarice se levantou devagar, ainda sonolenta, mas com aquele ar teimosamente gentil que começava a ser familiar para Oliver. Ela recolheu alguns pratos vazios da mesa e disse: — Eu vou lavar a louça, Oliver. Você já fez jantar… quer dizer, trouxe o jantar… então deixa comigo. Oliver riu baixinho, pousando os cotovelos na mesa enquanto observava ela juntar as coisas. — Clarice, não precisa. De verdade. Você é minha convidada. — Eu insisto — respondeu ela, já levando os pratos para a pia, como se fosse impossível deixar tudo ali parado. Oliver se levantou e a seguiu, parando ao lado dela. — Clarice… — chamou ele, com aquela voz firme que sempre fazia ela prestar atenção. — Eu tenho lava-louças. Ela piscou algumas vezes, surpresa. — Lava-louças? — repetiu, como se fosse algo distante da sua realidade. Ela olhou para o aparelho embutido na cozinha moderna, e riu baixinho, um riso espontâneo e doce. — Claro que você teria uma. — E por que esse tom? — Oliver perguntou, sorrindo agora, divertido. — O que isso quer dizer? Clarice deu de ombros, colocando um prato dentro da máquina cuidadosamente. — Que você é… sei lá… prático. — Ela olhou ao redor da cozinha impecável. — Organizado. Parece que pensa em tudo antes.—Ela riu de si mesma. — Eu não estou acostumada com isso. Oliver sentiu um calor estranho no peito, satisfação, talvez. Era novo pra ele ouvir aquele tipo de elogio vindo dela. Porque ela estava falando com genuíno encantamento, não com medo, expectativa ou obrigação… como fazia com Henry. — Prático — repetiu ele, pensativo. — Gosto disso. Clarice sorriu. E Oliver precisou desviar o olhar por um instante, porque aquele sorriso simples mexia com ele mais do que deveria. — Bom — ela continuou, colocando o último prato — se você tem isso, então… ok, eu aceito. Mas deixa eu pelo menos fechar a porta da máquina. Assim sinto que fiz alguma coisa. — Tudo bem — disse ele, ainda sorrindo. — Eu deixo. Clarice fechou a porta da lava-louças com um clique suave, depois apoiou as mãos na bancada, respirando fundo, um pouco cansada. Oliver observou cada detalhe o jeito que os ombros dela relaxavam, a respiração suave, a calma que começava a tomar lugar. E pensou: Ela está realmente começando a se sentir em casa. Mas não podia dizer isso em voz alta. — Quer assistir mais um pouco do filme? — Oliver perguntou, tentando soar casual enquanto a estudava com cuidado. Ela olhou para ele, pensou um instante, e sorriu de novo pequeno, tímido… mas sincero. — Quero. Aquilo bastou para o coração de Oliver acelerar. Como sempre em silêncio, escondido, controlado. — Então vamos — respondeu ele. E então ele a guiou de volta à sala de cinema, com a sensação crescente de que cada passo que Clarice dava dentro daquela casa… era mais um passo para dentro da sua vida. Eles voltaram juntos para a sala de cinema. Clarice foi na frente, andando devagar, ainda um pouco cansada; Oliver vinha logo atrás, acompanhando sem pressa, observando a delicadeza dos movimentos dela e o fato de que, pela primeira vez, ela não parecia com medo de estar ali. Quando entraram na sala, Clarice olhou o enorme sofá reclinável e sorriu, envergonhada: — Eu… acho que dormi aqui antes, né? — Um pouquinho — disse Oliver, divertido. — Mas eu não culpo você. O filme era realmente longo. — E ótimo — acrescentou ela, se acomodando novamente. — Eu nunca tinha assistido com alguém. É diferente… mais leve. Oliver sentou ao lado dela, não tão perto quanto gostaria, mas perto o suficiente para que ela não precisasse se sentir só. — Fico feliz — respondeu ele. — Você merece leveza. Clarice desviou o olhar, corando de um jeito suave. Ele percebeu na hora. Tudo nela era transparente a timidez, o cansaço, o medo… e aquela nascente confiança sendo construída aos poucos. Ela mexeu os dedos nervosamente no próprio colo. — Oliver… — começou, num tom mais baixo. — Desculpa se estou ocupando demais o seu espaço. Ele franziu o cenho, sério. — Clarice, você não está ocupando nada. Eu quero você aqui. Quero que se sinta segura — disse, com firmeza mas sem dureza. — Não há nada que você esteja fazendo de errado. Ela respirou fundo como se aquelas palavras aliviassem um peso antigo demais. — É que… com o Henry… com meus pais… eu sempre sinto que estou incomodando, que não devia… — Ela parou, apertando as mãos. — Não quero repetir isso aqui. Oliver sentiu o estômago prender. Ele inclinou levemente o corpo, tentando alcançar o olhar dela. — Comigo você nunca vai precisar pensar assim. Ela o olhou finalmente e o que havia nos olhos dela era uma mistura de fragilidade e esperança. Uma esperança tímida, quase inacreditável. — Obrigada — sussurrou ela. Oliver sentiu uma vontade quase incontrolável de pegar a mão dela. Mas respirou fundo, lembrando do que prometera a si mesmo autonomia, calma, espaço para ela escolher. Então apenas se encostou de leve no sofá. — Quer continuar o filme? Ou prefere outra coisa? Clarice pensou por alguns segundos, olhando a enorme tela. Depois, com um sorriso pequeno: — Posso escolher um… desenho? Oliver arqueou a sobrancelha. — Um desenho? Ela assentiu, ainda sorrindo. — Eu sempre quis… mas nunca podia. Meus pais diziam que era coisa de criança. A expressão de Oliver escureceu por dentro mas ele escondia bem. — Então hoje você pode ver quantos quiser — disse com convicção. — Escolha o que quiser. Os olhos de Clarice brilharam um pouco. Ela pegou o controle devagar, aparentemente receosa até de fazer isso, e começou a navegar pelos títulos. Oliver observava em silêncio, fascinado pela inocência e pela liberdade que ela experimentava talvez pela primeira vez. Ela finalmente escolheu um clássico antigo da Disney. — Esse — disse ela, quase feliz. — Ótima escolha — respondeu Oliver, sincero. — E… Clarice? — Hm? — Obrigado por deixar eu ficar aqui com você. Ela sorriu, agora mais confiante. — Eu gosto quando você fica. Oliver engoliu seco discretamente. E enquanto o filme começava, a luz suave da tela iluminava o rosto dela. Ele sabia que estava se apaixonando por Clarice Beck mais rápido e mais profundamente do que deveria
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