A cozinha estava tranquila, iluminada apenas pela luz morna sobre a mesa. A chuva fina lá fora batia discretamente na janela, criando um clima íntimo e inesperadamente confortável. Clarice terminava o primeiro pedaço de pizza enquanto Oliver fingia escolher o próximo na verdade, observava a forma como ela relaxava mais a cada mordida.
Ele decide puxar assunto com naturalidade.
— Clarice… eu percebi que você estava vendo um filme que gosta — começou ele, leve. — Mas eu percebi também que não sei muito sobre você.
Fez uma pequena pausa calculada.
— Se você quiser conversar… eu gostaria de conhecer melhor quem está dividindo a casa comigo.
Clarice deu um sorriso tímido, mordiscando o lábio antes de responder.
— Ah… bem… não tem muito pra contar, eu acho. Minha vida não é tão interessante assim.
— Eu duvido — Oliver rebateu com um humor suave. —Conta um pouco.
Ela respirou fundo. Talvez pela primeira vez desde que chegara, sentia que podia falar sem ser julgada. E Oliver sabia disso e justamente por isso mantinha o tom mais brando possível.
— Eu… estava cursando enfermagem.
Os olhos dela baixaram um pouco.
— Tranquei no começo desse ano.As coisas ficaram muito confusas e… eu não estava bem o suficiente pra continuar.
— Enfermagem? — ele sorri, como se estivesse descobrindo algo novo e fascinante. — Isso combina com você. Você tem um jeito doce… cuidadosa.
Clarice corou levemente e desviou o olhar.
— Nem sempre — murmurou. — Mas eu gostava do curso. Ainda quero voltar, quando tudo… — ela faz um gesto vago, — quando tudo melhorar.
Oliver assente devagar, como se digerisse a informação pela primeira vez quando, na verdade, já sabia até as notas que ela tirava no primeiro semestre.
— E seus pais? — ele arrisca, com voz moderada. — Vocês são próximos?
A expressão dela muda. Não fecha totalmente, mas perde o brilho.
— Eles… são complicados. — Ela passa a mão pelo cabelo, tensa. — Minhas decisões nunca foram exatamente minhas, sabe? Tudo sempre foi sobre “o que é melhor para a família”, “como você deve agir”, “com quem deve se relacionar”.
Oliver permanece imóvel, atento a cada palavra.
— Inclusive… — ela hesita, como se aquele fosse um pedaço da sua vida que nunca falou em voz alta. — Meu namoro com o Henry começou assim.
Isso prende a respiração de Oliver por um instante.
Mas ele se controla.
— Como assim… “assim”? — pergunta ele, suave, sincero, encorajando.
Clarice força um sorriso sem graça.
— Eu tinha 16 anos. Ele era amigo da família, os dois brigavam muito, mas… — ela ergue os ombros em resignação. — Meus pais disseram que ele era “um bom menino e um ótimo futuro”. E eu… acabei cedendo. Achei que seria temporário.
Oliver morde a língua para não reagir de forma mais evidente.
Por dentro, um ódio frio subiu pela espinha.
— Então… — ele tenta manter o controle. — Você nunca realmente escolheu?
Ela baixa os olhos.
— Não. E… depois que começa, fica difícil sair. Henry não lida bem quando tento… quando me afasto.
Oliver segura o braço da cadeira com disfarçada força.
— Clarice… — ele diz, com a voz mais gentil que consegue reunir. — Isso não está certo. Você merece escolher tudo na sua vida.
Uma pausa curta.
— Inclusive com quem quer estar.
Ela ergue o olhar para ele, surpresa pela firmeza e pela suavidade ao mesmo tempo.
— Acho que ninguém nunca foi tão gentil comigo...talvez , na verdade eu nunca contei nada disso a ninguém de fora da minha família.
Oliver sente algo dentro de si se apertar um misto de proteção, afeto e uma obsessão que só cresce quanto mais ela fala.
— Eu estou dizendo agora — ele responde.
Clarice respira fundo, tocada.
E pela primeira vez, ela sorri com sinceridade um sorriso pequeno, mas real.
A pizza esfriava sobre a mesa, mas a conversa fluía com uma i********e crescente, cada vez mais profunda.
E Oliver, por dentro, repetia apenas uma coisa:
Agora ela está falando. Agora ela está confiando. E eu nunca mais vou deixar ninguém calar a voz dela.
Clarice terminou o último pedaço da pizza, limpou delicadamente os dedos no guardanapo e ficou mexendo distraidamente na borda do copo. Sua expressão ainda era suave, porém algo parecia inquietá-la. Oliver percebeu — ele percebia tudo — e esperou o momento certo.
Até que ela suspirou.
— Oliver… posso te perguntar uma coisa meio… estranha? — disse ela, num tom que misturava vergonha e hesitação.
Ele inclinou levemente o corpo para a frente, interessado.
— Claro. Pode falar.
Clarice mordeu o interior da bochecha antes de continuar:
— Desde o acidente… eu estou sentindo muito sono. Muito mesmo. — Ela passa a mão pelo rosto, como se tentasse afastar a sensação. — É um sono pesado… como se eu estivesse sendo puxada pra baixo, sabe? Eu durmo e é tão difícil acordar…
Ela hesitou. — Isso é… normal?
Oliver manteve a mesma expressão calma, mas por dentro um alarme frio soou.
Ele sabia,e jamais falaria que é pelos calmantes que ele coloca em eu café todo dia cedo.
Mas Clarice não podia saber.
Então ele respirou fundo, montando a resposta mais cuidadosa possível.
— Olha… cada corpo reage de um jeito. Um trauma físico misturado com estresse emocional pode causar isso mesmo — respondeu ele, com voz baixa, profissional… mas também acolhedora. — E você passou por muita coisa, Clarice. Seu corpo está tentando se recuperar.
Ela assentiu, mas ainda parecia desconfortável.
— É que… — ela encostou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos, perdida em seus próprios pensamentos. — Eu nunca fui assim. Sempre tive sono normal, mas agora… parece que não importa a hora… eu só quero deitar.
Outra pausa.
— Às vezes é como se eu apagasse. Tipo… do nada.
Oliver sentiu o estômago revirar, ela o odiaria se soubesse que ele faz isso com ela desde o hospital, mas a verdade é que ele só queria ela calma e..perto dele.
Ele suavizou o olhar e estendeu a mão lentamente, tocando o dorso da mão dela de maneira leve, como quem apenas oferece apoio.
— Eu vou cuidar de você até isso passar — disse, firme, mas com ternura. — Aqui você está segura. Você vai conseguir descansar de verdade, sem ninguém te pressionando.
Clarice levantou o olhar para ele, os olhos um pouco marejados, mas não de tristeza de alívio. Era a primeira vez em muito tempo que ela podia admitir seus medos sem medo de ser chamada de exagerada.
— Obrigada, Oliver… de verdade — disse ela, a voz quase um sussurro. — Eu não sabia onde mais podia me sentir… normal.
Ele sorriu, um sorriso pequeno, porém profundamente sincero e também perigosamente possessivo.
— É só confiar em mim — respondeu ele. — Eu não vou deixar nada te machucar de novo.
Clarice respirou fundo, relaxando aos poucos. A sonolência, como ela mesma havia dito, começou a pesar de novo sobre seus olhos.
E Oliver observou isso com um misto de preocupação e certeza:
Até onde isso vai antes que eu acabe com todos eles e garanta que você seja só minha?