Capítulo 39. A vida de Clarice

1110 Words
Corvo ajustou o microfone direcional, encostando mais o ombro contra o muro para ganhar estabilidade. O som chiou por meio segundo — depois abriu a conversa com clareza suficiente para fazer qualquer profissional experiente arregalar os olhos. A porta do elevador se abriu no terceiro andar. Passos. A voz de Henry veio primeiro, irritada, em tom abafado mas nitidamente agressivo: — Você está me evitando, Clarice. De novo. Silêncio de alguns segundos… depois a voz dela, baixa, cansada: — Porque não tenho mais nada pra te dizer, Henry. Corvo já estava com o maxilar travado. Ele inclinou levemente o microfone. A briga se intensificava. — Tem, sim. — Henry rebateu, aproximando-se; dava pra ouvir a mudança na reverberação das vozes. — Tem um prazo. Tem um acordo. E você tá fingindo que isso não existe. — Eu terminei com você. Não existe mais nada. Henry bufou — um som curto, irritado, que fez Corvo reconhecer imediatamente aquele tipo de homem. — Existe, sim. Você sabe que existe. Você me deve isso, Clarice. Depois de tudo que eu fiz pelo seu pai… Corvo franziu as sobrancelhas. Pelo pai? Clarice respondeu, a voz quebrada mas tentando se manter firme: — Você não fez nada por ele. Só controlou. Só ameaçou. E continua fazendo isso. Henry riu. Um riso frio. — Ameaça? Não. Isso é… incentivo. Se você não quiser terminar isso logo, com o casamento, aí sim seu pai vai precisar se preocupar. Clarice deu um passo — dava pra ouvir o ranger do piso. Henry deu outro, mais pesado. Corvo se aproximou da parede, calculando o trajeto interno do corredor. O corpo estava tenso, pronto para agir se necessário. Então Henry soltou: — Você acha mesmo que ele aguenta uma prisão, Clarice? Hein? Fraude fiscal não é pouca coisa. Eu já avisei que posso abrir o processo quando quiser. O silêncio que veio depois foi diferente. Não de medo — mas de raiva. A voz de Clarice veio mais forte, mesmo tremendo: — Você não tem esse direito. Você não vai destruir a vida dele por minha causa. — Então faça sua parte. — Henry murmurou, cada palavra escorrendo veneno. — Case comigo. Você tem três semanas. Corvo arregalou os olhos. — Filho da… Ele já estava prestes a invadir o prédio quando ouviu outra movimentação: Clarice recuando, a voz embargada: — Sai da minha casa, Henry. Agora. Henry não obedeceu. A respiração dele aumentou no microfone — ele estava encurralando ela contra a parede. — Não até você me ouvir direito. Foi aí que Corvo tomou sua decisão. Ele largou o microfone, guardou de forma automática e eficiente, e caminhou firme até a entrada do prédio, tirando o crachá falsificado que usava para certas infiltrações. — Segurança noturna, abrindo a porta. — disse ele ao porteiro, que olhou confuso, mas obedeceu pela postura dele. Corvo entrou no elevador. Quarto andar. As portas se abriram com um ding suave. Ele caminhou silencioso, como se não tocasse o chão — até ouvir novamente a voz de Henry, agora baixa, mais venenosa ainda: — Você sabe que, sem mim, você não passa de uma garota fraca que vive se enfiando em encrenca. Você precisa de mim. — Não preciso de você pra nada! — Clarice respondeu, a voz finalmente quebrando. Corvo encostou na parede ao lado da porta do apartamento e sacou o celular. Mensagem para Oliver, apenas duas palavras: “Situação grave.” Ele não tocou a porta. Não entrou abruptamente. Não ainda. Mas ficou ali, em posição, pronto para intervir se Henry colocasse um dedo nela. E, pela tensão crescendo dentro daquele apartamento, não demoraria muito. Corvo respirou fundo, frio e calculado, mas com uma raiva lenta começando a tomar forma. — Doutor… — murmurou para si mesmo — acho que você subestimou o tamanho da merda que ela vive. Henry percebeu que estava perdendo terreno. A postura de Clarice antes encolhida agora tinha um traço de firmeza que ele não reconhecia. E isso o desestabilizou. Corvo, do lado de fora, ouviu nitidamente a mudança de tom. Primeiro, um silêncio pesado… depois o teatral. Henry inspirou fundo e de repente sua voz surgiu quebrada, falsa, como um ator r**m: — Clarice… por favor… não faz isso comigo, meu amor. O barulho de joelhos tocando o piso ecoou, leve, mas inconfundível. Corvo cerrou os dentes. — Eu só… — Henry engasgou de um jeito artificial, exagerado — eu só agi daquele jeito porque eu te amo demais. Você é minha vida, Clarice. Clarice deu dois passos para o lado, incrédula. Era visível no timbre dela que não conseguia mais cair naquilo. — Henry, levanta. Mas ele insistiu, mais forte, mais dramático, a voz trêmula no limite do ridículo: — É real pra mim! Eu errei, eu sei que errei, mas eu só estava com medo de te perder. Você não entende o que é te amar tanto que… — ele bateu a mão no peito, teatral — que dói. Corvo revirou os olhos. Henry continuou: — Eu estava desesperado, Clarice. Você se afastou, você mudou… eu achei que tinha alguém. Eu estava enlouquecendo! É por isso que eu surtei desse jeito,é por isso que eu disse coisas horríveis, mas eu nunca… nunca faria m*l a você. Clarice o encarou, expressão dura, porém triste. — Henry… você tá me manipulando de novo. Os soluços falsos cessaram por meio segundo. Foi rápido. Mas Corvo percebeu. Henry retomou imediatamente o papel: — Eu não estou! Por favor… não me deixa assim… não me tira da sua vida. Eu faço qualquer coisa por você. Qualquer coisa! Só… só casa comigo. A gente resolve tudo juntos, eu prometo, vou ser o melhor pra você...eu mudo o que quiser em mim. Clarice fechou os olhos, respirando devagar e foi justamente essa pausa que Henry usou para se aproximar engatinhando, tentando segurar a barra da roupa dela. Corvo se endireitou contra a parede, o corpo totalmente alerta. — Clarice… eu te amo. — Henry repetiu, a voz um fio, mas controlada demais, ensaiada demais. Clarice recuou mais um passo, coração acelerado, a mão trêmula evitando que ele tocasse nela. — Henry, chega. Eu não acredito nisso. Não mais. No microfone, Corvo ouviu uma mudança pequena, quase imperceptível: um tic seco na voz de Henry. O ponto exato em que a máscara rachou. Mas Henry não explodiu, não ainda. O teatro precisava ir até o fim. — Então… o que eu preciso fazer pra você voltar? — ele perguntou, suavemente, a cabeça ainda inclinada, as mãos estendidas num pedido patético. Corvo passou a mão pelos cabelos, irritado. — Cara… se você virar a chave de novo, eu arrebento essa porta.
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