Ao longo da semana, Oliver tentou de todas as formas possíveis recuperar sua rotina, mas cada tentativa falhou de maneiras quase grotescas.
No primeiro dia, tomou café amargo demais porque esqueceu de colocar açúcar.
No segundo, discutiu com um residente por um erro mínimo que normalmente não o irritaria.
No terceiro, esqueceu uma reunião administrativa importante do hospital, algo que nunca acontecia.
E em todos os dias…
todas as madrugadas…
todas as pausas entre um atendimento e outro…
Clarice ocupava espaço demais dentro dele.
Ele tentava afastar, racionalizar, transformar aquilo em uma preocupação médica exagerada, colocar barreiras.
Mas a verdade insistia em aparecer:
Ele sentia falta dela.
Não como médico.
Não como protetor.
Mas como homem.
E isso o desequilibrava.
Na noite de quinta-feira, durante um plantão pesado, Oliver percebeu que algo dentro dele estava começando a rachar.
Atendeu duas cirurgias seguidas sem pausa, salvou uma vida e perdeu outra, deu bronca em uma equipe que não merecia e, quando finalmente entrou na sala de descanso, jogou o jaleco em cima da mesa com uma frustração que quase estourou as costuras da calma.
Ramos o olhou com estranheza.
— Você tá… diferente, Oliver.
— Só cansado — ele respondeu rápido demais.
Mas o amigo não acreditou.
— Cansado você sempre esteve. Mas nunca… irritado assim. Você tá com o humor de um animal ferido.
Oliver não respondeu.
Porque era verdade.
E ele sabia a causa.
Ao chegar em casa naquela madrugada, sentiu o vazio da mansão como um murro.
Os passos ecoavam, o silêncio parecia zombar dele, e a lembrança de Clarice caminhando até o táxi, com aquele sorriso envergonhado, voltava como uma febre.
Ele tentou ler um relatório médico…
Não passou da primeira página.
Tentou dormir…
Permaneceu de olhos abertos por quase duas horas, pensando no som da voz dela quando o chamava de Dr. FrankWood.
E ainda pior quando o chamava só de Oliver.
Aquela voz, aquela suavidade, aquele jeito…
Era como se algo que deveria ter ficado morto dentro dele estivesse acordando devagar e pedindo mais.
Muito mais.
— Isso tá ficando fora de controle — ele murmurou para si mesmo, passando a mão pelos cabelos.
Mas a confissão não trouxe alívio.
Era a verdade, nua e crua.
E ainda assim…
ele não conseguia deixar de sentir.
E então, no final daquela semana, enquanto revisava prontuários no hospital, se pegou fazendo algo que o assustou:
pesquisando no sistema interno se algum exame novo tinha sido registrado no nome dela.
Nada.
Pesquisou se ela havia feito nova visita a algum hospital ou posto de saúde.
Nada.
Buscou o número dela na ficha clínica.
Parou.
Fechou a tela antes que pudesse anotar.
Isso era perigoso.
Isso era errado.
Isso era ele ultrapassando todas as linhas éticas que jurou proteger.
Oliver se recostou na cadeira, encarando o teto da sala de plantão.
E admitiu para si uma verdade que vinha tentando enterrar desde o dia em que ela o beijou:
Clarice Beck estava afetando sua mente, seu humor, sua rotina, sua lucidez e, se ele não tomasse cuidado, poderia afetar muito mais do que isso.
Ele fechou os olhos, respirou fundo, e uma última pergunta pulsou, incômoda e inevitável:
“O que eu vou fazer?"
Oliver terminou de tomar um gole de água, mas a tensão no maxilar continuava lá travada, pesada.
Ele não tinha conseguido descansar direito a semana inteira.
E agora, no silêncio do escritório de sua mansão, a única coisa viva dentro dele era a inquietação.
Clarice estava fora de sua vista.
Fora de seu alcance.
E ele não tinha nenhuma garantia de que estava segura.
Ele apertou o celular na mão, hesitando por meio segundo.
Mas, no fim, a decisão veio tão rápido quanto a batida de um coração ansioso.
Discou.
O telefone chamou duas vezes.
— Fala. — a voz de Corvo surgiu rouca, abafada por ruído de motor. Moto, como sempre.
— Preciso de você — Oliver foi direto. Não havia espaço para rodeios. — De novo.
Um riso seco veio do outro lado.
— Então é sobre a ruiva.
Oliver não confirmou. Não negou. Não precisava.
— Corvo — sua voz saiu baixa, grave, carregada de algo que nem ele sabia nomear — eu quero que você a siga.
Houve silêncio por um segundo.
Depois:
— Seguir, tipo… proteger? Ou seguir, tipo… você tá perdido nela?
Oliver fechou os olhos, irritado com a leitura precisa demais.
— Os dois.
Corvo deu uma assobiada curta.
— Tá ficando sério, doutor. E quando fica sério… fica perigoso.
— Eu sei. — Oliver passou a mão no rosto, respirando fundo. — Me consiga o endereço completo dela. Quero saber onde mora, com quem mora, se tem segurança, quem entra, quem sai.
Corvo anotou algo era possível ouvir a caneta batendo no painel da moto.
— Certo. E mais o quê?
Oliver apoiou os cotovelos na mesa, inclinando o corpo para frente como se estivesse prestes a confessar um crime.
— Quero a rotina dela. Horários. Trajetos. Onde compra comida. Se sai para trabalhar ou estudar. Quem a visita. Quem a observa. E… — ele engoliu seco — se Henry aparece na casa dela e por quanto tempo.
Corvo ficou quieto.
Longos segundos.
— Oliver… — sua voz veio menos zombeteira, mais séria. — Você tem certeza que quer saber tudo isso? Tem certeza que vai aguentar?
Oliver abriu os olhos.
Eles estavam escuros.
Firmes.
Determinados de um jeito quase perigoso.
— Eu preciso garantir que ela está segura — disse, a voz firme demais para ser apenas preocupação clínica. — E você sabe tão bem quanto eu que aquele homem não vai deixá-la em paz tão fácil.
— E você, vai deixá-la em paz ?
Silêncio.
Corvo respirou fundo do outro lado, como alguém preparando-se para um trabalho com consequências.
— Vou começar hoje à noite. Me manda o que você tem do hospital pra cruzar com o sistema. Vou rastrear ela até pelo cheiro, se você quiser.
— Não deixa que ela perceba — Oliver advertiu, tenso.
— Eu nunca deixo, doutor.
Antes de desligar, Corvo fez uma última pergunta, baixa:
— E… quando você for lá? Porque tá na cara que não vai conseguir ficar longe muito tempo.
Oliver demorou para responder. A verdade se formou dentro dele como uma sombra inevitável.
— Assim que eu souber onde ela realmente está.
E desligou.
Ficou encarando o próprio reflexo no vidro do escritório por longos segundos.
O homem que olhava de volta não parecia somente preocupado com uma paciente.
Parecia um predador calmo, calculando território, movimentos, ameaças.
Parecia alguém que já tinha escolhido proteger Clarice
mesmo que isso custasse tudo o mais.
E, pela primeira vez desde que ela partiu, Oliver sentiu algo perigoso, quente, invadindo o peito:
Determinação.
Clarice estava lá fora.
Fragilizada.
Cercada por pessoas que ele não confiava.
E isso significava apenas uma coisa:
Ela seria dele e de ninguém mais.