Capítulo 62. Clarice começa a se abrir.

1221 Words
A cozinha estava tranquila, iluminada apenas pela luz morna sobre a mesa. A chuva fina lá fora batia discretamente na janela, criando um clima íntimo e inesperadamente confortável. Clarice terminava o primeiro pedaço de pizza enquanto Oliver fingia escolher o próximo na verdade, observava a forma como ela relaxava mais a cada mordida. Ele decide puxar assunto com naturalidade. — Clarice… eu percebi que você estava vendo um filme que gosta — começou ele, leve. — Mas eu percebi também que não sei muito sobre você. Fez uma pequena pausa calculada. — Se você quiser conversar… eu gostaria de conhecer melhor quem está dividindo a casa comigo. Clarice deu um sorriso tímido, mordiscando o lábio antes de responder. — Ah… bem… não tem muito pra contar, eu acho. Minha vida não é tão interessante assim. — Eu duvido — Oliver rebateu com um humor suave. —Conta um pouco. Ela respirou fundo. Talvez pela primeira vez desde que chegara, sentia que podia falar sem ser julgada. E Oliver sabia disso e justamente por isso mantinha o tom mais brando possível. — Eu… estava cursando enfermagem. Os olhos dela baixaram um pouco. — Tranquei no começo desse ano.As coisas ficaram muito confusas e… eu não estava bem o suficiente pra continuar. — Enfermagem? — ele sorri, como se estivesse descobrindo algo novo e fascinante. — Isso combina com você. Você tem um jeito doce… cuidadosa. Clarice corou levemente e desviou o olhar. — Nem sempre — murmurou. — Mas eu gostava do curso. Ainda quero voltar, quando tudo… — ela faz um gesto vago, — quando tudo melhorar. Oliver assente devagar, como se digerisse a informação pela primeira vez quando, na verdade, já sabia até as notas que ela tirava no primeiro semestre. — E seus pais? — ele arrisca, com voz moderada. — Vocês são próximos? A expressão dela muda. Não fecha totalmente, mas perde o brilho. — Eles… são complicados. — Ela passa a mão pelo cabelo, tensa. — Minhas decisões nunca foram exatamente minhas, sabe? Tudo sempre foi sobre “o que é melhor para a família”, “como você deve agir”, “com quem deve se relacionar”. Oliver permanece imóvel, atento a cada palavra. — Inclusive… — ela hesita, como se aquele fosse um pedaço da sua vida que nunca falou em voz alta. — Meu namoro com o Henry começou assim. Isso prende a respiração de Oliver por um instante. Mas ele se controla. — Como assim… “assim”? — pergunta ele, suave, sincero, encorajando. Clarice força um sorriso sem graça. — Eu tinha 16 anos. Ele era amigo da família, os dois brigavam muito, mas… — ela ergue os ombros em resignação. — Meus pais disseram que ele era “um bom menino e um ótimo futuro”. E eu… acabei cedendo. Achei que seria temporário. Oliver morde a língua para não reagir de forma mais evidente. Por dentro, um ódio frio subiu pela espinha. — Então… — ele tenta manter o controle. — Você nunca realmente escolheu? Ela baixa os olhos. — Não. E… depois que começa, fica difícil sair. Henry não lida bem quando tento… quando me afasto. Oliver segura o braço da cadeira com disfarçada força. — Clarice… — ele diz, com a voz mais gentil que consegue reunir. — Isso não está certo. Você merece escolher tudo na sua vida. Uma pausa curta. — Inclusive com quem quer estar. Ela ergue o olhar para ele, surpresa pela firmeza e pela suavidade ao mesmo tempo. — Acho que ninguém nunca foi tão gentil comigo...talvez , na verdade eu nunca contei nada disso a ninguém de fora da minha família. Oliver sente algo dentro de si se apertar um misto de proteção, afeto e uma obsessão que só cresce quanto mais ela fala. — Eu estou dizendo agora — ele responde. Clarice respira fundo, tocada. E pela primeira vez, ela sorri com sinceridade um sorriso pequeno, mas real. A pizza esfriava sobre a mesa, mas a conversa fluía com uma i********e crescente, cada vez mais profunda. E Oliver, por dentro, repetia apenas uma coisa: Agora ela está falando. Agora ela está confiando. E eu nunca mais vou deixar ninguém calar a voz dela. Clarice terminou o último pedaço da pizza, limpou delicadamente os dedos no guardanapo e ficou mexendo distraidamente na borda do copo. Sua expressão ainda era suave, porém algo parecia inquietá-la. Oliver percebeu — ele percebia tudo — e esperou o momento certo. Até que ela suspirou. — Oliver… posso te perguntar uma coisa meio… estranha? — disse ela, num tom que misturava vergonha e hesitação. Ele inclinou levemente o corpo para a frente, interessado. — Claro. Pode falar. Clarice mordeu o interior da bochecha antes de continuar: — Desde o acidente… eu estou sentindo muito sono. Muito mesmo. — Ela passa a mão pelo rosto, como se tentasse afastar a sensação. — É um sono pesado… como se eu estivesse sendo puxada pra baixo, sabe? Eu durmo e é tão difícil acordar… Ela hesitou. — Isso é… normal? Oliver manteve a mesma expressão calma, mas por dentro um alarme frio soou. Ele sabia,e jamais falaria que é pelos calmantes que ele coloca em eu café todo dia cedo. Mas Clarice não podia saber. Então ele respirou fundo, montando a resposta mais cuidadosa possível. — Olha… cada corpo reage de um jeito. Um trauma físico misturado com estresse emocional pode causar isso mesmo — respondeu ele, com voz baixa, profissional… mas também acolhedora. — E você passou por muita coisa, Clarice. Seu corpo está tentando se recuperar. Ela assentiu, mas ainda parecia desconfortável. — É que… — ela encostou os cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos, perdida em seus próprios pensamentos. — Eu nunca fui assim. Sempre tive sono normal, mas agora… parece que não importa a hora… eu só quero deitar. Outra pausa. — Às vezes é como se eu apagasse. Tipo… do nada. Oliver sentiu o estômago revirar, ela o odiaria se soubesse que ele faz isso com ela desde o hospital, mas a verdade é que ele só queria ela calma e..perto dele. Ele suavizou o olhar e estendeu a mão lentamente, tocando o dorso da mão dela de maneira leve, como quem apenas oferece apoio. — Eu vou cuidar de você até isso passar — disse, firme, mas com ternura. — Aqui você está segura. Você vai conseguir descansar de verdade, sem ninguém te pressionando. Clarice levantou o olhar para ele, os olhos um pouco marejados, mas não de tristeza de alívio. Era a primeira vez em muito tempo que ela podia admitir seus medos sem medo de ser chamada de exagerada. — Obrigada, Oliver… de verdade — disse ela, a voz quase um sussurro. — Eu não sabia onde mais podia me sentir… normal. Ele sorriu, um sorriso pequeno, porém profundamente sincero e também perigosamente possessivo. — É só confiar em mim — respondeu ele. — Eu não vou deixar nada te machucar de novo. Clarice respirou fundo, relaxando aos poucos. A sonolência, como ela mesma havia dito, começou a pesar de novo sobre seus olhos. E Oliver observou isso com um misto de preocupação e certeza: Até onde isso vai antes que eu acabe com todos eles e garanta que você seja só minha?
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