Capítulo 60. Ainda no cinema

756 Words
Oliver estava prestes a se levantar precisava respirar, colocar a cabeça no lugar, qualquer coisa para conter o que estava sentindo. Mas a voz de Clarice o fez congelar a meio caminho da porta. — Você… não quer ficar? — ela perguntou, abraçando as pernas de leve, quase envergonhada.— Podemos assistir algo que você goste. Aquilo atravessou o peito dele como um golpe suave e certeiro. Pouca gente se interessava pelo que ele gostava. E Clarice… Clarice não devia nem estar confortável ali, numa casa nova, com um homem que ela conhecia há tão pouco tempo e, mesmo assim, pensava nele. Oliver voltou devagar, como se estivesse pisando em terreno delicado. — Tem certeza? — ele perguntou. — Tenho — ela respondeu com um sorrisinho pequeno. Foi absurdo o quanto isso mexeu com ele. Oliver sentou ao lado dela de novo, mas um pouco mais próximo desta vez sem invadir, apenas o suficiente para mostrar que estava ali com ela. — Então… o que você gosta de assistir? — Clarice perguntou. Oliver pensou. Ele tinha dezenas de filmes favoritos, mas escolher um parecia íntimo demais. Até que lembrou de um que sempre o acalmava quando adolescente, um filme que poucas pessoas sabiam que ele apreciava. — Posso escolher mesmo ? — Claro — ela disse, curiosa. Ele mexeu no controle e colocou um filme clássico antigo, pouco conhecido, de estética lenta, com diálogos profundos sobre cura e laços inesperados. Um filme que ninguém nunca quis ver com ele. Quando começou, Clarice inclinou a cabeça. — Nunca vi esse. — Ninguém viu — Oliver respondeu quase rindo. — Acho que é por isso que gosto. Os primeiros minutos correram tranquilos. Clarice se ajeitou no sofá e, sem perceber, acabou ficando mais perto. Não o suficiente para tocá-lo, mas quase. Oliver sentiu o calor dela se aproximando e cada músculo dele ficou tenso de um jeito… bom. Difícil. Perigoso. Ela olhou para ele. E ele olhou de volta. — Obrigada, Oliver — ela disse baixinho. — Por… tudo isso. Ele não respondeu de imediato. Respirou fundo, tentando manter a voz estável. — Eu fico feliz que você esteja aqui — disse, sincero demais, vulnerável demais para ele mesmo. Clarice sorriu daquele jeito suave que desmontava qualquer defesa. O filme corria devagar, um clássico antigo, o tipo de obra que Oliver já vira incontáveis vezes nas madrugadas solitárias. As luzes suaves da sala de cinema particular piscavam discretamente sobre eles, projetando sombras dançantes nas paredes. Clarice, ao lado dele, estava encolhida no sofá, os olhos azuis marejando um cansaço que ele já tinha notado desde o hospital. De vez em quando, ela sorria com alguma cena sutil, quase infantil e Oliver fingia não reparar, embora cada pequeno gesto dela o prendesse com força crescente. O filme seguia, e o silêncio entre eles se tornava uma companhia confortável, sem a necessidade de palavras. Quando a chuva começou a bater nas janelas da mansão, Clarice piscou mais lentamente, lutando contra o sono. O cobertor leve escorregou de seus ombros e Oliver, num gesto quase automático, o ajeitou de volta sobre ela. O toque em seus cabelos ruivos fez o tempo parar por um instante. Minutos depois, ele sentiu o peso leve da cabeça dela encostando em seu ombro. O coração de Oliver reagiu de imediato um disparo abafado, mas perceptível o bastante para que ele se endireitasse sem saber o que fazer. Por um momento, ficou imóvel, tentando se convencer de que devia levantar, cobri-la direito e deixá-la descansar sozinha. Mas não se moveu. O cheiro de sabonete e perfume suave dela se misturava ao som distante do filme e da chuva. Ele respirou fundo, tentando desacelerar o próprio pulso. A tensão que carregava aquela constante sensação de controle, de frieza começou a se desfazer lentamente. Havia algo de perturbador e, ao mesmo tempo, tranquilizador em tê-la ali, tão perto, tão vulnerável… e, de certa forma, confiando nele. Oliver fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso da própria consciência o médico, o homem racional, o que nunca cruzava limites lutar contra o instinto de simplesmente ficar assim. Mas ficou. O filme seguiu, e a noite pareceu se alongar, mergulhada naquele silêncio cúmplice. Quando a tela finalmente escureceu, Clarice já dormia profundamente. Oliver inclinou um pouco a cabeça, observando o rosto dela iluminado pelas últimas luzes do projetor as sardas, o ritmo calmo da respiração, a serenidade que ela raramente mostrava acordada. E, num sussurro que jamais admitiria em voz alta, ele murmurou: — Descansa carinho, eu te protejo
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