Um Olhar que Queima

1082 Words
O saguão da Montez Corporation era imenso, de mármore polido e espelhos emoldurados por colunas douradas. Tudo ali gritava poder e tradição. Homens engravatados caminhavam apressados, mulheres elegantes digitavam nos tablets e telefones tocavam a todo instante. Mas quando Catarina cruzou as portas principais, o ambiente pareceu desacelerar. Não foi pela roupa impecável — calça de alfaiataria preta, camisa branca com botões dourados e salto fino. Nem pelo coque baixo e os brincos discretos de pérola. Foi pela presença. Pela segurança. Pela aura que cercava uma mulher que sabia exatamente quem era... e quem não seria mais. — Bom dia — ela disse à recepcionista, com voz firme. — Tenho reunião com o senhor Fernando Montez. Diretoria administrativa. A moça a observou com certo deslumbramento, assentiu e imediatamente ligou para o andar superior. Em menos de dois minutos, Catarina já era conduzida por um assistente até o elevador de vidro que dava acesso ao último andar da empresa. Enquanto subia, observou a cidade pelas paredes transparentes. A avenida movimentada, os carros pequenos como formigas. Não era mais a menina que assistia à vida pela janela do quarto. Agora ela era parte do mundo. Uma peça decisiva do jogo. O andar da presidência era silencioso, sofisticado. Tapetes longos, quadros minimalistas, luzes suaves. O assistente a deixou diante de uma porta dupla. — Ele está esperando. Pode entrar. Ela respirou fundo. Não por nervosismo, mas por ironia. Quantas vezes havia sonhado em ser alguém naquele mundo? Quantas noites havia chorado por se sentir pequena demais para pertencer a qualquer coisa que envolvesse o sobrenome Montez? Agora, ela estava ali. De igual para igual. A porta se abriu com um rangido discreto. — Catarina Vasconcelos — disse uma voz grave e acolhedora. — Que prazer finalmente conhecê-la pessoalmente. O senhor Fernando Montez se levantou. Alto, cabelos grisalhos bem cortados, terno azul-marinho impecável. Estendeu a mão com respeito e um sorriso cordial. — O prazer é meu, senhor Montez. — Por favor, me chame de Fernando. Aqui tratamos todos como parceiros. E você, Catarina... chegou com ótimas recomendações da diretoria do grupo investidor. Sua formação é impressionante para alguém tão jovem. Ela sorriu, sem falsa modéstia. — Eu me preparei para isso. — Gosto de ouvir isso. Precisamos de mentes estratégicas e firmes na coordenação das áreas de inovação. E, sinceramente, a empresa precisa de sangue novo. Meus filhos são ótimos, mas... — ele riu, com um leve suspiro — têm seus pontos cegos. Catarina sabia exatamente de quais pontos cegos ele falava. Especialmente um deles. — Quero que se sinta livre para tomar decisões com autonomia. Você responderá diretamente a mim, mas terá acesso a todos os departamentos. E hoje à tarde já haverá uma reunião com os gestores da área para que possa se apresentar. — Perfeito — ela respondeu. — A propósito... você já conheceu meus filhos? Brany, Alex e o caçula, Samuel? Catarina manteve a compostura. — Ainda não pessoalmente, mas... os conheço de nome. E de vista. Fernando não pareceu notar a tensão escondida nas entrelinhas. Ofereceu um café, conversaram mais alguns minutos sobre estratégia de expansão e, antes de encerrar, ele fez questão de acompanhá-la até o andar executivo, onde ficava a equipe da qual ela assumiria o comando. Enquanto desciam pelo elevador, ela sentiu o coração bater um pouco mais forte. Sabia que era questão de tempo até encontrá-lo. E queria estar pronta quando acontecesse. O andar da diretoria era movimentado, com divisórias de vidro e salas com portas abertas. Catarina foi apresentada a alguns coordenadores e, por fim, foi conduzida à sua nova sala: ampla, com vista para a cidade e uma mesa elegante de madeira escura. Havia um computador novo, uma cadeira giratória de couro e uma parede com quadros e prêmios. Ela passou os dedos pela mesa, como quem marca território. Era real. Aquilo era dela agora. Poucos minutos depois, ouviu vozes se aproximando. — Então ela é a nova gerente? — a voz era masculina, debochada. — Ou a nova modelo da recepção? — Brany... — alguém repreendeu em tom baixo. — Ela é sênior, foi enviada pela holding. Melhor maneirar. Catarina se virou lentamente. Seus olhos encontraram os dele. Brany Montez. Os cinco anos haviam passado com crueldade e charme. Ele estava ainda mais atraente. Os traços masculinos acentuados, a barba por fazer, a camisa social dobrada até os cotovelos. Tinha um ar preguiçoso de quem não precisava se esforçar para conseguir o que queria. Mas ao vê-la, congelou por um segundo. — Catarina? O nome saiu como um sussurro, confuso, quase desacreditado. Ela sorriu. Um sorriso elegante, frio e seguro. — Brany Montez. Quanto tempo. Ele a encarou como quem via um fantasma. Os olhos correram por seu corpo, sua postura, seu rosto — como se procurasse a menina de antes e não a encontrasse mais. — Você está... diferente. — As pessoas mudam — ela respondeu, com tranquilidade. — Algumas evoluem. Outras apenas envelhecem. Alex, o irmão mais velho, aproximou-se e estendeu a mão. — Catarina Vasconcelos? Seja bem-vinda. Sou Alex, diretor financeiro. Um prazer tê-la conosco. Ela apertou a mão dele com firmeza. — O prazer é meu. — Esse aqui é o Samuel — Alex apontou para o rapaz de olhos curiosos e sorriso tímido. — Nosso irmão caçula. Ele está estagiando no setor de comunicação. — Muito prazer, Samuel — Catarina disse, gentil. Samuel sorriu de volta, um pouco desconcertado. Brany ainda a observava como se não conseguisse acreditar. — Você... trabalha aqui? — Sou a nova gerente da área de inovação e projetos estratégicos. Respondo diretamente ao seu pai. Talvez a gente se cruze pelos corredores — ela respondeu, caminhando até a porta da sala. — Mas espero que não cometa o erro de me subestimar de novo, Brany. Ele piscou, confuso. — De novo? Ela parou, virou-se devagar, mantendo o olhar firme. — Ah, é verdade. Você não lembra. Afinal... tantas garotas, não é? E então entrou na sala, fechando a porta com leveza, deixando-o parado ali, queimando de dúvida, surpresa e desconforto. Dentro da sala, Catarina soltou o ar com força. Ela havia vencido o primeiro round. E Brany? Brany estava em choque. Aquela mulher... era Catarina? A garota da janela? A que ele havia usado e descartado como uma brincadeira tola? A mesma que ele zombou na frente dos amigos como se fosse apenas mais uma? Não. Ela não era a mesma. E alguma coisa nele dizia que agora era ela quem mandava no jogo.
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