Brany Montez sempre foi um homem de controle. Ele sabia o efeito que causava nas mulheres. Sabia quando sorrir, quando tocar, quando se calar para que o silêncio fizesse o resto. Mas naquela manhã, após encarar Catarina pela primeira vez depois de cinco anos, não sabia nem por onde começar.
Ela estava... absurda.
Não só fisicamente — embora seu corpo agora tivesse curvas maduras e postura de mulher feita —, mas havia algo em seu olhar. Um tipo de frieza calculada, misturada com uma dor enterrada tão fundo que parecia ter virado pedra.
E aquilo o desequilibrava.
Desde que ela fechara a porta de sua nova sala com aquele ar triunfante, ele não conseguiu se concentrar em mais nada. A mente girava como um disco riscado: Catarina? A menina da janela? Aquela Catarina?.
No fim do expediente, Brany não resistiu.
Foi até a sala dela.
Bateu duas vezes. Ela o viu pela fresta de vidro, e demorou alguns segundos para permitir sua entrada.
— Precisa de algo? — ela perguntou, sem se levantar.
— A gente precisa conversar.
— Se for sobre o projeto de integração das unidades, eu já encaminhei meu parecer ao seu pai. Ele está analisando.
— Não é sobre isso, Catarina.
Ela suspirou e cruzou as pernas. O gesto foi elegante, mas carregado de poder.
— Então vá direto ao ponto, Brany. Meu tempo, agora, é valioso.
Ele se aproximou, ainda de pé, e colocou as mãos nos bolsos. A arrogância habitual estava lá, mas misturada com algo novo: uma inquietação desconfortável.
— Você mudou.
— Graças a Deus — ela respondeu, seca.
— Não é só aparência. É... tudo. Você fala diferente. Anda diferente. Está diferente.
— Isso se chama amadurecimento. Você devia tentar também.
Brany soltou uma risada abafada.
— Ainda está com raiva de mim, é isso?
Ela se levantou. Caminhou até ele com passos lentos, parando a poucos centímetros do seu rosto. Seus olhos azuis cravaram nos dele como lâminas afiadas.
— Raiva? Brany, você me destruiu. Me usou. Me jogou para os seus amigos como piada. Me fez acreditar em algo bonito para depois me reduzir a... nada. Então não. Eu não estou com raiva. Estou em paz. Comigo mesma. Porque, ao contrário de você, eu evoluí. Eu transformei a dor em força.
Ele engoliu em seco. O olhar dela queimava.
— Eu era um i****a — ele admitiu, com voz baixa.
— Ainda é.
O silêncio pesou.
Então, Brany deu um passo à frente. Os olhos percorreram o rosto dela com intensidade.
— Mas ainda assim... você está aqui. Trabalhando com a minha família. Se vingando. Me encarando com esse fogo nos olhos. Sabe o que isso me diz?
Ela não respondeu.
— Que, no fundo, você nunca esqueceu.
— Não. Eu só aprendi a conviver com o passado.
— Jura? — ele provocou. — Porque o jeito como você me olha diz outra coisa. O jeito como sua respiração muda quando eu me aproximo... ainda é a mesma.
Catarina sentiu o corpo reagir. Ele estava perto demais, quente demais. E ela odiava que, apesar de tudo, seu coração ainda reconhecesse aquele cheiro. Aquele olhar. Aquele maldito toque de voz que invadia poros e lembranças.
— Você não me conhece mais, Brany — sussurrou.
Ele se inclinou levemente, como se quisesse testá-la.
— Talvez eu queira conhecer.
Ela mordeu o lábio sem perceber. E foi ali que ele soube que havia vencido aquele pequeno round.
Seus lábios se aproximaram devagar, esperando o protesto que não veio. Quando seus rostos se tocaram, o mundo desabou em silêncio.
Foi um beijo lento, pesado, cheio de raiva e desejo m*l curado. As mãos dele tocaram sua cintura. As dela ficaram tensas nos ombros dele, como se não soubessem se empurravam ou puxavam. O beijo evoluiu rápido demais, como se o passado estivesse sendo rasgado a cada movimento.
Quando os lábios se separaram, ambos estavam ofegantes.
— Isso não devia ter acontecido — Catarina disse, afastando-se.
— Por quê?
— Porque você não merece esse beijo.
Ela limpou os lábios com a mão, respirando fundo, e caminhou até a porta.
— Se quiser discutir projetos, estou à disposição. Se quiser brincar com meus sentimentos, não perca seu tempo. A Catarina de antes... morreu.
— Não parece — ele retrucou, ainda tentando controlar a pulsação. — A de antes também tremia quando eu a beijava.
Ela se virou com um olhar gélido.
— A de antes teria implorado para que você ficasse. A de agora só quer que você saia.
Ele não se moveu.
— Vai mesmo fingir que não sentiu nada?
— Não preciso fingir, Brany. Eu só... decidi não alimentar mais o que me destrói.
E, com isso, ela abriu a porta. Ele saiu. E naquele instante, pela primeira vez na vida, Brany Montez sentiu o gosto da rejeição.
Nos dias seguintes, o clima na empresa ficou tenso.
Catarina manteve sua postura profissional. Evitava os olhares dele, cortava qualquer tentativa de conversa pessoal e, diante de todos, era a chefe impecável que colocava metas e resultados acima de tudo.
Mas por dentro, ela queimava.
Porque aquele beijo, por mais que tivesse sido um erro, a despertou. Não para o amor — mas para a ferida que nunca cicatrizou por completo. E agora, além da dor, havia um novo sentimento crescendo em silêncio: controle.
Ela finalmente tinha o poder.
E Brany?
Brany estava obcecado.
Passava noites lembrando do beijo, das palavras dela, da forma como ela o olhou — como se ele não fosse mais nada. E, pela primeira vez, sentiu medo de ter perdido algo que só agora entendia ser real.
Talvez tivesse errado com a garota errada.
Talvez estivesse apaixonado pela mulher certa.
Mas o que ele não sabia era que Catarina tinha planos.
E esse beijo... foi só o primeiro passo.
A noite estava quente e cheia de promessas. Catarina, com 18 anos, vestia seu vestido azul favorito — o mesmo que usara na festa dos Montez, onde tudo mudaria para sempre. Seu coração pulsava acelerado, misto de ansiedade e esperança, enquanto ela seguia ao lado de Brany, seu vizinho e objeto de desejo desde a adolescência.
O brilho da mansão, as luzes da festa e a música vibrante criavam um cenário surreal, quase mágico, que parecia confirmar que aquela seria a noite em que seu sonho se realizaria. Ele sorriu para ela, aquela mistura perfeita de arrogância e charme, e com um gesto sutil, puxou-a para mais perto.