A Primeira Vez e a Humilhação

1435 Words
No quarto de Brany, o mundo parecia se reduzir àquela luz baixa, aos olhos brilhantes e ao toque da pele. Cada beijo, cada carícia era uma promessa silenciosa, e Catarina entregou-se inteira, confiante, acreditando que era amada. A inocência de sua primeira vez se misturava ao desejo e ao medo, em uma mistura que nunca esqueceria. A luz do abajur m*l iluminava os móveis modernos e as paredes com quadros minimalistas. Catarina sentia o calor do corpo dele próximo, misturado com o frio que subia do estômago. Era sua primeira vez, mas ela não sabia disso naquele momento. Só sabia que queria pertencer àquele instante. Brany a olhava como se estivesse descobrindo um segredo. Sua respiração era calma, quase paciente, enquanto ele segurava sua mão e a guiava pela cama. Catarina se sentia especial, como se fosse a única naquela festa, a única que importava. Cada toque parecia despertar sensações novas e confusas. O coração acelerado, a pele que arrepiava, a voz que tremia. Ele dizia palavras doces, quase sussurros, que embalavam seus medos e suas dúvidas. Ela se entregava com todo o amor que tinha guardado, esperando que aquele momento fosse o começo de algo eterno. Mas o que Catarina não sabia era que, para Brany, aquele era apenas mais um troféu. Um jogo que ele dominava com maestria. Aquele beijo, aquele toque, aquela entrega... para ele, não passavam de peças no tabuleiro. Na manhã seguinte, o sol invadiu o quarto vazio. Catarina acordou com o cheiro do perfume dele impregnado no travesseiro, mas o corpo ao seu lado não estava lá. Seu vestido azul, agora amarrotado, estava jogado no chão. Ela vestiu-se às pressas, tentando entender a sensação amarga que a invadia. O sorriso que tinha na noite anterior parecia uma mentira. Quando desceu as escadas, ouviu as risadas na varanda. Brany estava com os amigos, contando a história como se fosse uma piada. Ela ouviu seu nome, a maneira como ele a descrevia, como se fosse um objeto descartável. O mundo dela desmoronou. Ela correu para fora da mansão, lágrimas correndo pelo rosto, o coração partido e a alma em pedaços. A garota que sonhava com o amor virou uma mulher marcada pela dor. E ali nasceu a promessa silenciosa de vingança. O sol ainda não havia nascido quando Catarina voltou para casa naquela manhã. Seu corpo parecia pesar uma tonelada, e a cabeça girava como se estivesse presa em um turbilhão de pensamentos sombrios. O vestido azul, antes símbolo da esperança, agora estava amarrotado e manchado, carregando cada vestígio da noite que a transformara para sempre. No caminho, as vozes começaram. Primeiro, sussurros distantes, depois risadinhas abafadas, até que não havia mais como fugir: o bairro inteiro parecia saber o que aconteceu naquela festa dos Montez. As meninas da escola evitavam seus olhares, cochichavam pelas costas e lançavam palavras afiadas como facas. — A garota que o Brany usou e jogou fora. — Aposto que nem era virgem. — Ah, vai, todo mundo sabe como ele é. — Coitada, caiu direitinho na armadilha. Cada palavra era uma faca cravada no peito de Catarina. Ela tentava se manter firme, mas a humilhação corroía cada pedaço de sua alma. Na faculdade, os olhares mudaram. Professores que antes a tratavam com respeito agora a encaravam com desdém. Alguns alunos cochichavam em voz baixa, fazendo comentários maldosos. Ela sentia-se sozinha, invisível, um peso que todos evitavam carregar. Quando chegava em casa, sua mãe a recebia com olhos preocupados e palavras de conforto, mas Catarina sabia que nem mesmo o amor da mãe poderia apagar as cicatrizes que estavam sendo abertas a cada dia. As mensagens no celular não paravam. Números desconhecidos enviavam insultos e ameaças veladas. A garota que um dia sonhou com um futuro brilhante agora vivia um pesadelo constante. Em uma noite especialmente difícil, Catarina se trancou no quarto, olhando para o teto enquanto lágrimas silenciosas escorriam. Ela se perguntava como alguém podia ser tão c***l. Como um único erro podia destruir tudo. Mas, naquele momento de desespero, uma fagulha de determinação começou a nascer. Não seria assim que sua história terminaria. Ela ergueu o rosto, enxugou as lágrimas e sussurrou para si mesma: — Eu vou provar que eles estão errados. Eu vou ser mais forte do que essa dor. E foi com essa promessa que Catarina decidiu que era hora de partir. Deixar para trás a cidade, os olhares cruéis, e aquele passado que insistia em assombrá-la. O recomeço seria doloroso, mas necessário. Os dias que se seguiram à festa foram um tormento silencioso para Catarina. A notícia se espalhara como fogo na palha seca, e não havia canto da pequena cidade onde sua história não tivesse sido sussurrada, sutilmente deformada, transformada em motivo de riso ou desprezo. Ela caminhava pelas ruas com o olhar baixo, evitando os olhares de todos. Sentia na pele o peso do julgamento — não só dos jovens que frequentavam a mesma faculdade, mas até mesmo dos vizinhos que antes cumprimentavam sua mãe com respeito. A cada passo, uma sombra a perseguia: o sussurro, o olhar que a julgava, o dedo que a apontava. Até mesmo suas amigas, que um dia a cercavam com risadas e confidências, agora mantinham distância. Algumas evitavam responder suas mensagens, outras simplesmente sumiram sem explicação. Catarina tentou se apoiar na mãe, mas também via a preocupação e a impotência estampadas naquele rosto cansado. Sua mãe, que sempre fora seu porto seguro, agora parecia desesperada para encontrar uma saída para aquela tempestade que ameaçava afundá-las. Em uma tarde chuvosa, após mais um dia insuportável na faculdade, Catarina chegou em casa e sentou-se à mesa da cozinha. A mãe trouxe chá quente, mas não falou. O silêncio entre elas pesava mais do que qualquer palavra. — Mãe... — Catarina finalmente quebrou o silêncio, com a voz trêmula — Eu não aguento mais. Todo mundo me olhando como se eu fosse uma aberração. Eu não sou essa pessoa. Eu não sou... aquela garota que eles pintam. A mãe a abraçou forte, com lágrimas nos olhos. — Eu sei, filha. Eu sei. Mas o mundo é c***l com as que amam demais e se entregam demais. Eles não sabem o que você sofreu. Nem o que você é. Catarina se encolheu naquele abraço, buscando forças. Mas a dor não passava. No dia seguinte, na faculdade, os comentários ficaram ainda mais escancarados. Ela ouviu nomes sendo sussurrados, histórias sendo contadas de forma distorcida, olhares que a perfuravam. Em uma aula, um grupo de garotas a cercou perto da saída. — Ei, Catarina... ouvi dizer que você ainda fica chorando no banheiro depois das aulas. Que fraca, hein? — Você devia agradecer ao Brany. Ele te colocou no seu lugar — outra zombou, mostrando um sorriso c***l. Catarina não respondeu. Apenas desviou o olhar e saiu rapidamente, com o coração batendo tão forte que parecia explodir. A humilhação, que antes era silenciosa, agora era pública, impiedosa. Nas redes sociais, a história ganhou vida própria. Fotos antigas de Catarina foram compartilhadas com comentários maldosos, memes cruéis circularam entre os alunos. Ela se sentiu exposta, violentada, como se tivesse perdido não só sua reputação, mas também sua identidade. Em casa, a situação não melhorava. A mãe, mesmo tentando ser forte, mostrava sinais de cansaço e preocupação. As contas da casa apertavam, e a possibilidade de mudar de cidade parecia cada vez mais distante. Mas para Catarina, era a única saída. Durante noites insones, ela planejou sua fuga. Guardava em uma pequena caixa o pouco que tinha de valor — fotos antigas, cartas de amigos que ainda confiavam nela, o diário onde escrevia seus sonhos. No fundo, sabia que partiria sozinha, sem avisar a ninguém. Não porque não amasse sua mãe, mas porque sentia que, naquela cidade, nunca mais poderia ser a garota que sonhava. Cada passo que dava em direção à decisão era um misto de medo e esperança. O medo do desconhecido, da solidão, da incerteza. A esperança de um futuro onde poderia recomeçar, longe das vozes que a diminuíam, longe das lembranças que a machucavam. Na última noite antes da partida, Catarina sentou-se na janela do seu quarto. Olhou para o céu estrelado e fez uma promessa silenciosa: — Eu vou voltar. Mais forte. Mais linda. E eles vão se arrepender de terem me destruído. Naquela noite, adormeceu com o coração pesado, mas com uma determinação que até então não conhecia. Na manhã seguinte, antes do sol nascer, ela fechou a porta da casa pela última vez. Sem olhar para trás, caminhou pela rua deserta, levando apenas a sua coragem e a promessa de uma nova vida.
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