A Partida

1076 Words
O céu ainda guardava as cores escuras da noite quando Catarina fechou a porta da sua casa pela última vez. Cada passo que dava pela calçada fria da madrugada era pesado, como se o passado, toda a dor e humilhação que carregava, fizessem seu corpo inteiro clamar para que ela não partisse. Mas era justamente isso que ela precisava fazer — fugir, sumir, renascer. Os primeiros minutos da caminhada pareciam um sonho estranho. Ela m*l podia acreditar que aquela decisão tinha chegado. Nos últimos meses, seu mundo havia se reduzido a um emaranhado de olhares tortos, cochichos, boatos e humilhações que feriam mais do que qualquer ferida física. Era como se sua identidade tivesse sido arrancada e pisoteada pelos mesmos que ela julgava amigos e vizinhos. Antes de sair, ela tinha passado horas encarando seu reflexo no espelho do quarto. A mesma garota tímida e apaixonada de antes agora olhava de volta para ela com olhos diferentes — olhos que já não se deixavam enganar, que carregavam uma determinação feroz e uma promessa silenciosa de vingança e renascimento. No fundo, ela sabia que não poderia mais se esconder atrás do medo. A única saída era enfrentar o desconhecido e ir embora. Na tarde anterior à sua partida, Catarina encontrou-se com Brany para uma conversa que parecia inevitável. Eles se encararam no escritório da empresa do pai dele — um local frio, elegante, onde o poder de Brany sempre tinha sido absoluto. — Por que você está fazendo isso? — ele perguntou, com aquele sorriso arrogante, que já não assustava tanto quanto antes. — Porque eu preciso — ela respondeu firme, sentindo a força da própria voz crescer. — Porque eu mereço mais do que essa humilhação diária. Porque não vou deixar que você controle minha vida. Brany cruzou os braços e se aproximou, seu rosto tão perto do dela que Catarina podia sentir o cheiro forte do perfume que ele usava. — Você sempre foi fraca, Catarina. Acha que sair daqui vai te salvar? Eu sou parte da sua história, queira ou não. — Talvez você tenha sido parte da minha história — ela admitiu, — mas não será o meu futuro. O silêncio tomou conta da sala. Aquele momento era o ponto de ruptura que ela precisava para finalmente se libertar. — Adeus, Brany — disse ela, antes de virar-se e sair sem olhar para trás. Ao sair da empresa, Catarina sentiu uma mistura de medo e alívio. Sabia que o caminho não seria fácil, mas pelo menos agora estava decidida. Foi então que ligou para a tia Isabel. Uma mulher forte, experiente, que tinha sido um dos poucos pilares de sua infância. Isabel morava em uma cidade distante, onde o anonimato seria sua maior arma. — Venha para cá — a tia respondeu, sem hesitar. — Aqui você vai poder recomeçar, longe dos olhares cruéis. Nos dias seguintes, Isabel fez tudo para ajudar a sobrinha a se reorganizar. Comprou passagens, ajudou a escolher uma nova faculdade, ofereceu o que podia para facilitar a transição. — Você vai ver, Catarina — dizia ela, segurando a mão da jovem em momentos de desespero —, essa é sua chance de virar a página. Mas tem que prometer que vai lutar por você. Na manhã da partida, Catarina acordou cedo, o coração disparado pela ansiedade e pela dor que sentia em deixar tudo para trás. Ela arrumou sua mala com calma, colocando dentro apenas o essencial e alguns objetos que tinham valor sentimental — um diário, fotos antigas, cartas de amigos que ainda confiavam nela. Antes de sair, deu uma última olhada no quarto que tinha sido seu refúgio e sua prisão. Cada móvel, cada detalhe, parecia contar uma história de uma menina que, naquele momento, se despedia de si mesma. Na cozinha, a mãe estava acordada, preparando o café da manhã. Elas trocaram um olhar cheio de amor e tristeza. — Vai ficar tudo bem, filha — disse a mãe, tentando sorrir, mas com os olhos marejados. — Eu sei, mãe. Eu preciso disso. As palavras foram sussurradas, mas tinham a força de um grito. Catarina sentia que aquela partida era um renascimento. O ônibus estava quase vazio quando Catarina embarcou. Sentou-se perto da janela e observou a cidade que deixava para trás. Cada bairro, cada esquina, parecia carregar um pedaço da sua história — boa e r**m. À medida que o veículo ganhava velocidade, as lágrimas começaram a escorrer. Não eram só de tristeza, mas também de esperança. Ela fechou os olhos e prometeu a si mesma que iria vencer. Que não deixaria que o passado a definisse. Que se tornaria a mulher que sempre quis ser — forte, livre, dona do próprio destino. O caminho à frente era longo, cheio de desafios. Mas Catarina sabia que estava pronta para enfrentá-los. Chegando na cidade da tia Isabel, Catarina sentiu um misto de alívio e insegurança. A casa dela era diferente — menor, simples, mas cheia de calor humano. Isabel a recebeu com um abraço que fez a jovem se sentir, pela primeira vez em muito tempo, verdadeiramente acolhida. — Aqui você está segura — disse Isabel. — E daqui pra frente, você vai construir sua vida do jeito que quiser. Naquela noite, deitada em uma cama que não era a sua, Catarina deixou as lágrimas caírem sem vergonha. As emoções acumuladas por anos explodiram em prantos silenciosos. Mas, ao amanhecer, ela acordou com um sorriso nos lábios. A jornada havia começado. Com o passar das semanas, Catarina começou a frequentar a nova faculdade. Fez amigos, mergulhou nos estudos e, aos poucos, sua confiança retornava. Mesmo com as cicatrizes emocionais, ela sentia que estava no caminho certo. Isabel sempre estava por perto, incentivando-a, lembrando que cada passo, mesmo pequeno, era uma vitória. E Brany? Para ele, Catarina era apenas uma lembrança distante — mas para ela, ele ainda representava o combustível para provar que podia ser muito mais do que um capítulo triste da sua vida. Em uma conversa franca com Isabel, Catarina revelou seu maior desejo: — Um dia, eu vou voltar. Não como a garota que eles destruíram, mas como uma mulher que conquistou tudo. Uma mulher que eles não vão conseguir ignorar. Isabel sorriu, orgulhosa. — E eu estarei aqui para te apoiar em cada passo. A promessa de recomeço, a vontade de vingança e o sonho de um amor verdadeiro eram as forças que moviam Catarina. E, com elas, nada poderia detê-la.
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