CAPÍTULO XVIII

1191 Words
O amanhecer no Castelo Obsidian sempre carregou uma melancolia ancestral, mas, naquela manhã específica, a luz que atravessava as vidraças góticas não era tingida de vermelho-sangue, mas de um dourado pálido e hesitante. O ar não cheirava mais a enxofre e pavor, mas a pedra lavada, cinzas frias e o doce aroma de mirra que os duendes queimavam nos longos corredores da fortaleza. A guerra contra Morvath havia terminado. O abismo fora selado. No entanto, enquanto eu abria os olhos sob o dossel de veludo verde do meu leito real, sentia que uma batalha ainda mais insidiosa estava apenas começando. A Coroa da Titã repousava sobre uma almofada de seda n***a ao lado da minha cama. Mesmo separada do meu corpo, ela parecia respirar. As estrelas aprisionadas em seus espinhos de metal escuro piscavam em um ritmo lento, sintonizado com as batidas do meu próprio coração. Minha mão direita, onde a marca de seis pontas estava gravada a fogo e magia, ainda formigava. A pele acobreada ostentava a cicatriz luminosa como um lembrete perpétuo de que eu não pertencia mais apenas a mim mesma; eu era Mittér-Skotous, e Mittér-Skotous era eu. — Você deveria estar dormindo. O veneno das gárgulas ainda está sendo expurgado do seu sangue — a voz suave, porém firme, cortou o silêncio do aposento. Virei o rosto e encontrei Tuli sentada em uma poltrona de couro escuro perto da lareira apagada. Ela usava um vestido simples de algodão que contrastava com a opulência do castelo, e seus cabelos castanhos estavam soltos, caindo como uma cascata suave sobre os ombros. Sobre os joelhos, ela equilibrava um grimório de capa de couro de escamas e um pilão de pedra, onde triturava folhas de arruda e lascas de casca de pinho de Guaranímia. — Se eu fechar os olhos, Tuli, ainda vejo as asas daquela coisa tentando devorar o coração da montanha — respondi, apoiando os cotovelos no colchão macio e me sentando com dificuldade. Meus músculos protestaram, doloridos de uma forma que poção alguma poderia curar de imediato. — Além disso, princesas… rainhas não dormem enquanto seus reinos estão em pedaços. Tuli deixou o pilão de lado e caminhou até mim, sentando-se na beirada da cama. Seus dedos quentes e com cheiro de ervas tocaram minha bochecha, afastando uma mecha do meu cabelo escuro. Havia uma devoção silenciosa em seus olhos amendoados, mas também uma preocupação que me partia o coração. — Você não é feita de ferro estelar, Iara. Você é de carne, sangue e magia, e os três precisam de repouso — ela murmurou. — O feitiço de cura que apliquei ontem fechou suas feridas externas, mas a magia de Morvath era antiga. Ela deixa ecos na alma. Se você não descansar, a coroa vai começar a se alimentar da sua própria vitalidade para manter o equilíbrio. — Eu descansarei quando o Conselho dos Clãs aceitar que o mundo mudou — suspirei, encostando a cabeça no ombro dela. O contato era reconfortante, um pedaço de casa em meio àquele castelo de monstros. — Onde está o Alik? Antes que Tuli pudesse responder, as pesadas portas duplas de ébano se abriram com um rangido arrastado. Alik entrou, parecendo que não dormia há dias. Seu colete de caçador estava coberto por uma fina camada de poeira e fuligem, e a lança que ele nunca abandonava pendia de suas costas. No entanto, seus olhos castanhos brilharam ao me ver sentada, e a tensão em seus ombros largos diminuiu uma fração. — Fico feliz em ver que a nossa soberana decidiu não morrer de exaustão durante a noite — ele disse, com um sorriso torto que mascarava sua exaustão. Ele se aproximou e fez uma reverência exagerada, apenas para me provocar. — Guarde a reverência para o salão, caçador — retruquei, jogando um travesseiro leve em sua direção. Ele o pegou no ar com facilidade, rindo baixinho. — Como estão as coisas lá fora, Alik? — Tuli perguntou, cruzando os braços e assumindo sua postura protetora de sempre. O sorriso de Alik desapareceu, substituído pela seriedade de um veterano de guerra. Ele arrastou uma cadeira de encosto alto e sentou-se diante de nós. — Uma bagunça, para ser eufêmico — ele começou, apoiando os cotovelos nos joelhos. — O salão principal está sendo limpo, mas os danos estruturais da ponte de ossos levarão meses para serem consertados. O verdadeiro problema, porém, não são as pedras. São os lordes. Kaelen e seus lobisomens estão furiosos. Fenrir ainda não acordou do golpe que você deu nele, e o patriarca está espalhando boatos de que o pacto que eles assinaram foi obtido sob coação mágica. Ele alega que uma humana não pode governar os instintos das feras. — E Malakar? — perguntei, sentindo o nó familiar de tensão se formar no meu estômago. — O grão-duque vampiro está sendo… Malakar — Alik suspirou, esfregando o rosto. — Ele sorri, concorda com os seus decretos, envia servos para oferecerem vinho e carne, mas eu vi os emissários dele saindo a cavalo durante a madrugada. Ele está se comunicando com os clãs reclusos das Montanhas de Gelo. Acredito que ele está esperando você demonstrar fraqueza para liderar um motim "civilizado". — Eles acham que eu sou apenas uma garota de sorte que tocou uma flauta no momento certo — murmurei, levantando-me da cama. O tecido leve da minha camisola de seda roçou no chão frio de mármore, mas eu não me importei. Caminhei até a janela e olhei para o abismo abaixo de Obsidian. — Eles precisam entender que a Titã não me escolheu por sorte. A guerra contra Morvath acabou, mas a guerra pela paz em Mittér começou hoje. — O que você vai fazer? — Tuli perguntou, levantando-se e caminhando até mim, parando ao meu lado. Alik fez o mesmo, e de repente, eu me vi cercada pelos meus Guardiões Jurados, a minha âncora e a minha bússola. — Vamos convocar o Conselho. Imediatamente — declarei, virando-me para eles. A exaustão ainda estava lá, mas foi suplantada pela determinação incandescente da minha marca. — Não vou esperar que eles conspirem nas sombras. Tragam minhas roupas. O veludo pesado e o estandarte. Vou mostrar a eles o peso de uma alvorada comandada por uma humana. Uma hora depois, eu caminhava pelos longos corredores do castelo, ladeada por Alik e Tuli. Eu usava um vestido estruturado de tecido grosso e n***o, adornado com sutis bordados em fio de cobre que lembravam raízes e espinhos. A Coroa da Titã pesava em minha cabeça, não como um fardo, mas como uma promessa letal. Lady Vespera juntou-se a nós perto do Salão das Tapeçarias, sua capa escarlate esvoaçando atrás dela como um rastro de sangue recém-derramado. — Eles estão murmurando, Vossa Alteza — Vespera alertou, sem olhar para trás. Seu tom era neutro, mas havia um brilho predatório em seus olhos. — Lobisomens são criaturas de hierarquia, não de diplomacia. E vampiros são criaturas de paciência. Ambos são mortais para uma rainha inexperiente. — Deixe que murmurem, Lady Vespera. O murmúrio é o som da dúvida. E eu estou aqui para lhes dar uma certeza absoluta — respondi friamente.
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