Quando os guardas de prata abriram as portas do Salão das Tapeçarias, o burburinho denso que enchia o recinto cortou-se abruptamente. Todos os lordes, duques e matriarcas das linhagens mais antigas de Mittér estavam reunidos ao redor da enorme mesa de basalto. Kaelen estava de pé, apoiando suas mãos peludas sobre a mesa; Malakar estava recostado, girando uma taça de vinho entre os dedos pálidos.
Caminhei até a cabeceira da mesa, meus passos ecoando com autoridade. Não hesitei, não vacilei. Quando cheguei ao trono de espaldar alto, permaneci de pé, encarando cada um deles nos olhos.
— Fui informada de que há insatisfação com a nova ordem imposta por meu decreto — comecei, minha voz soando clara, amplificada magicamente pelas propriedades do próprio salão. — Alguns de vocês acreditam que a derrota de Morvath foi o fim dos seus problemas, e que agora podem voltar a se despedaçar uns aos outros, ignorando a coroa que lhes garantiu a sobrevivência.
Kaelen bateu o punho na mesa com estrondo.
— A derrota da abominação foi necessária, mortal! — ele rosnou, a voz áspera como pedra triturada. — Mas nós somos feras. Nossos ancestrais correram sob a luz da lua enquanto os seus se escondiam em cavernas com medo do fogo! Você exige que nossos guerreiros patrulhem ao lado de caçadores humanos? Caçadores como esse aí — ele apontou um dedo desdenhoso para Alik — que até ontem perfuravam nossos irmãos por esporte?
Alik não se moveu, não piscou, mas eu senti a fúria emanando dele.
— Esses mesmos caçadores lutaram na Garganta de Camazotz para que seu clã não fosse varrido da face de Mittér! — minha voz elevou-se, ressoando com o poder das seis pontas. A marca na minha mão brilhou, iluminando a sala com um fulgor prateado e púrpuro. Kaelen recuou instintivamente meio passo. — A aliança não é um pedido, Grão-Lobo. É a lei da Titã. A sobrevivência das nossas espécies depende dessa união. O sangue derramado nas raízes do Coração de Mittér não distingue se quem morreu foi um humano, um vampiro ou um lobo. Todos apodrecem igual.
Lorde Malakar pousou sua taça com suavidade proposital, sorrindo de forma sutil.
— Palavras nobres, princesa. Verdadeiramente inspiradoras — ele murmurou, a voz aveludada pingando sarcasmo. — Mas Kaelen tem um ponto válido sobre confiança. Exércitos não lutam bem ao lado de seus algozes históricos. A integração que você propõe parece bela no pergaminho, mas será um banho de sangue nas fronteiras.
— Então nós vamos construir a confiança no fogo — respondi imediatamente, já esperando o argumento. Olhei para Tuli, que tirou de sua bolsa um pergaminho com o selo real recém-forjado de Obsidian. Ela o estendeu sobre a mesa.
— Pelo poder da Coroa da Titã, eu instituo hoje a Guarda de Ébano — declarei, apontando para o pergaminho. — Um batalhão de elite independente das linhagens e dos feudos. Ele será composto igualmente por humanos de Guaranímia e por voluntários de cada clã de Mittér. Eles não responderão aos seus lordes; responderão diretamente ao Trono de Obsidian.
O salão explodiu em protestos. Uma força militar leal apenas à coroa, composta por uma mistura de raças, era uma afronta direta ao poder absolutista dos lordes.
— Você não pode tirar nossos melhores soldados! — protestou a Matriarca Medusa, suas serpentes sibilando de indignação.
— Não estou tirando. Estou aceitando voluntários. E aquele clã que não puder apresentar guerreiros dignos para a Guarda de Ébano demonstrará a todos que seu sangue enfraqueceu e que sua relevância no novo mundo de Mittér é obsoleta — ataquei a vaidade deles, o calcanhar de Aquiles de qualquer monstro nobre.
O silêncio que se seguiu foi deliciosamente tenso. Eu os havia encurralado usando suas próprias regras de orgulho e prestígio. Malakar parou de sorrir; seus olhos rubros me analisaram com uma nova camada de respeito cauteloso. Kaelen rosnou baixinho, mas não contestou.
— O Comandante da Guarda de Ébano será Alik de Guaranímia — anunciei, virando-me para o caçador. Ele arregalou os olhos levemente, surpreso, mas recompôs sua postura rapidamente, empunhando sua lança com ainda mais firmeza. — Ele provou seu valor e sua lealdade nas colinas e no santuário. Quem duvidar da capacidade dele de liderar feras, que o desafie no Círculo da Contenda, assim como Fenrir o fez.
Nenhum lorde se moveu. A memória da humilhação do príncipe lobisomem ainda estava fresca demais nas mentes de todos.
Sentei-me no trono e apoiei as mãos marcadas sobre os braços de basalto.
— O decreto está selado. Tuli servirá como minha Grã-Maga e principal conselheira de assuntos místicos. A alvorada que se inicia hoje será dolorosa para muitos de vocês, acostumados às sombras da divisão. Mas enquanto esta coroa estiver sobre a minha cabeça, Mittér não será despedaçada pelo ódio interno. Estão dispensados.
Um por um, com reverências relutantes e passos pesados, os senhores de Mittér deixaram o salão. Lady Vespera foi a última a sair, mas antes de cruzar a porta, ela parou e olhou para mim por cima do ombro.
— Você joga o jogo dos monstros perigosamente bem, humana — ela murmurou, com o mais leve dos sorrisos genuínos. — Mas lembre-se: uma lâmina afiada corta quem a segura se não houver firmeza no cabo.
Quando a porta finalmente se fechou, deixei meu corpo relaxar, soltando um longo suspiro. Alik caminhou até mim, cruzando os braços, um sorriso incrédulo nos lábios.
— Comandante da Guarda de Ébano? — ele ergueu uma sobrancelha. — Você me jogou aos lobos, literalmente.
— Você é o único em quem eu confio para não deixar que eles me apunhalem pelas costas — eu disse, levantando-me e caminhando até ele. Toquei seu braço, sentindo o calor através do couro. — Você consegue fazer isso, Alik. Eu sei que consegue.
Tuli aproximou-se pelo outro lado, guardando seus frascos e sorrindo docemente.
— A tempestade política foi domada por hoje, Iara. Mas a próxima prova não será aqui no castelo — a bruxa disse, olhando para as montanhas além das janelas. — Nós fizemos promessas. Precisamos voltar a Guaranímia. Precisamos mostrar a eles que a filha da vila e os monstros que eles tanto temiam podem coexistir.
Olhei para as colinas distantes. Guaranímia, meu lar, o lugar de onde eu havia fugido para provar meu valor, agora me aguardava como uma rainha. O peso da coroa nunca pareceu tão real, mas pela primeira vez, eu não sentia medo. Sentia-me pronta.