O silêncio que engoliu a praça central de Guaranímia era mais asfixiante do que a fumaça de enxofre que ainda ardia nas minhas narinas. O peso da terra úmida grudada ao meu vestido emprestado misturava-se ao calor pegajoso do sangue n***o da Cuca que manchava meus braços. Cada respiração minha soava como um chiado rouco em meio ao vento estático que soprava do portal em ruínas. Ninguém ousava dar um passo à frente; até mesmo os espíritos travessos do Perê, sempre tão barulhentos nos telhados, haviam se calado, amontoados como sombras assustadas sob as copas dos pinheiros ancestrais.
Minha mãe quebrou o transe. Seus passos foram rápidos, desajeitados, quase caindo sobre as pedras pontiagudas. Ela se ajoelhou diante de mim, cravando as unhas em meus ombros com um desespero que não carregava mais raiva, apenas um pavor cru e desmedido. Seus olhos varreram os arranhões no meu colo, o vestido verde de linho rasgado nas pontas e a marca queimada na minha mão direita.
— Você quase morreu, garota... — a voz dela falhou, algo que eu nunca tinha presenciado em toda a minha vida. — Olhe para você! Olhe para esse veneno nas suas roupas! Eu avisei... eu disse a você que esse mundo devora carne humana!
— Mas ela não foi devorada — a voz suave e penetrante de Lady Vespera ecoou sobre todos nós, cortando os lamentos da minha mãe como uma lâmina de gelo. A vampira desceu com graça régia, os pés flutuando uma fração de polegada acima do chão empoeirado, as camadas de seda n***a do seu vestido sussurrando como asas de morcego fechadas.
Lady Vespera parou diante de mim e se inclinou. Suas feições aristocráticas, esculpidas em mármore alvo, exibiam um fascínio quase predatório. Ela estendeu a mão com unhas compridas e pintadas de escarlate, tocando suavemente a minha palma aberta. A marca da coroa agora ostentava quatro pontas perfeitamente delineadas, brilhando com um calor escuro sob a minha derme acobreada.
— Quatro pontas — murmurou a nobre de Obsidian. — A Titã aceitou seu tributo de coragem. Você não apenas resgatou o coração da guardiã, como encarou a sombra daquele que habita os confins do abismo sem curvar os joelhos.
— Aquela coisa com asas... — comecei a falar, a garganta seca como palha. — Quem era? O que queria de mim?
— Respostas são prêmios concedidos apenas aos que chegam vivos ao Castelo Obsidian — respondeu Vespera com um meio sorriso que revelou a ponta afiada de suas presas. — O tempo concedido para os rituais é implacável. A lua de sangue avança, e a segunda prova já aguarda nas águas do sul.
— Ela precisa de descanso! — interveio Tuli, dando um passo corajoso à frente, com os frascos de ervas chacoalhando em sua cintura. As bochechas da jovem bruxa estavam coradas de indignação, e seus olhos castanhos escuros fitavam a vampira sem hesitação. — Ela sangrou, enfrentou a podridão daquele pântano e m*l consegue se manter de pé! Nenhum ser vivo pode continuar assim sem sucumbir.
— Os humanos medem o destino em horas confortáveis; o reino de Mittér mede o destino em sangue derramado — retrucou Lady Vespera, fitando Tuli com um olhar avaliador. — Se ela deseja a coroa, não há leito de repouso no caminho.
Alik deu um passo pesado em direção ao centro da praça. Em suas mãos calejadas, ele sustentava a lança de caça, e na cintura repousava o mimbý restaurado que eu trouxera de volta das garras da Cuca. Havia uma tempestade contida em seu rosto, uma mistura de culpa corrosiva e determinação febril.
— Eu vou com ela — declarou Alik com a voz firme que ele usava para comandar as caçadas nas matas perigosas. — Não me importo com as proibições do seu castelo ou com os costumes dos seus monstros. Ela não vai atravessar essas terras desamparada.
Lady Vespera soltou um riso cristalino e cortante.
— Tanta arrogância para um mero caçador mortal... No entanto, as leis do Baile de Skotous previram a fraqueza da vossa espécie. A candidata escolhida tem o direito ancestral de nomear até dois Guardiões Jurados. Aqueles que dividem o sangue, a alma e o peso da travessia. Se ela morrer, as almas dos jurados alimentam os portões de Obsidian por toda a eternidade. Se ela for coroada, vocês caminharão ao lado da realeza.
Meu pai, que até então permanecia imóvel como uma estátua partida ao lado da cerca da vila, ergueu os olhos nublados de lágrimas.
— Iara... por favor. Renuncie agora. Volte para a nossa casa. Nós fecharemos as portas, esqueceremos tudo isso...
— Não existe porta no mundo que segure o que despertou lá dentro, pai — respondi em voz baixa, sentindo a queimação da quarta ponta na minha mão. Olhei para a minha mãe, que mantinha os lábios trêmulos e as mãos no peito, e depois virei-me para as duas únicas pessoas que verdadeiramente me enxergavam sem as amarras das tradições da vila.
— Alik. Tuli. Vocês aceitam o juramento? — perguntei, o coração martelando contra as costelas.
Tuli não hesitou por um único segundo. Seus dedos longos e quentes envolveram a minha mão esquerda, apertando com uma convicção que dissipou o frio que ainda me restava na espinha.
— Até onde as asas daquela abominação não puderem nos alcançar, peixinha. Eu vou com você.
Alik aproximou-se, cravando a base de madeira de sua lança no chão com um baque s***o. Ele olhou nos meus olhos com aquela intensidade que fazia minha respiração vacilar, antes de inclinar a cabeça em um gesto de lealdade solene.
— Minha lança e meu fôlego são seus, Iara. Até os portões de Obsidian.
— O pacto está selado — anunciou Lady Vespera, gesticulando em direção à carruagem flutuante. — Subam. As brumas do Lago dos Botos nos esperam antes do cair da meia-noite.
Subi o primeiro degrau da carruagem esculpida em ébano e ossos. O interior era forrado em veludo rubro profundo, com um aroma inebriante de rosas secas, sândalo e algo metálico que lembrava vinho antigo. Sentamo-nos lado a lado — eu no meio, Tuli à minha esquerda com sua bolsa de poções descansando no colo, e Alik à direita, mantendo a lança pronta entre os joelhos. Lady Vespera acomodou-se em frente a nós, os olhos escarlates brilhando como brasas na penumbra da cabine.
Com um solavanco silencioso, os quatro cervos de ossos galoparam no ar. As casas de pedra de Guaranímia, as videiras e os rostos atônitos dos meus pais desapareceram sob a cortina densa de névoa vermelha. A vila ficou para trás, e com ela, qualquer ilusão de infância que eu ainda pudesse nutrir.
Durante a viagem através dos vales proibidos de Mittér, Lady Vespera manteve o olhar fixo em nós, observando cada suspiro e cada tensão acumulada. O silêncio dentro da carruagem era espesso. Senti a mão de Tuli buscar a minha por baixo do manto; seus dedos acariciavam a pele do meu pulso com uma suavidade protetora, como se ainda pudesse sentir a água do banho matinal e o perfume de suas loções de ervas. Ao mesmo tempo, o braço forte de Alik encostava no meu ombro a cada oscilação do veículo, emanando um calor urgente e inquieto.
— A segunda prova será diferente da b***a da floresta — quebrou o silêncio a emissária de Obsidian, com sua voz melodiosa e fria. — A Cuca testou vossa coragem física e a vossa capacidade de enfrentar o horror primordial. O Lago dos Botos, no entanto, não ataca o corpo com presas... Ele devora a mente através do desejo.
— Encantamento de águas doces — murmurou Tuli, ajeitando a postura. — Minha mãe me falou sobre eles. Espíritos metamorfos que habitam os rios subterrâneos de Mittér. Eles assumem a forma daquilo que o coração humano mais anseia, atraindo viajantes para o fundo de seus leitos para roubar-lhes o sopro vital.
— Não são meros espíritos aquáticos — corrigiu Vespera. — No Reino de Mittér, eles compõem a corte do Grande Boto Encantado, senhor do espelho d’água e guardião da Coroa de Prata dos Rios. Para que a sua marca receba a quinta ponta, Iara, você deverá entrar nas águas negras do lago, resistir ao Baile da Ilusão e reivindicar a Pérola da Memória antes que a alvorada transforme o rio em veneno.
— E o que acontece se alguém sucumbir à dança deles? — perguntou Alik, com o cenho franzido.
— Você se torna parte da comitiva submersa. Dançará eternamente nas correntes frias, com os pulmões cheios de lodo e um sorriso no rosto, esquecendo até o próprio nome.
A carruagem começou a desacelerar suavemente. Pela janela de cristal escuro, vi as copas das árvores secas darem lugar a um pântano iluminado por milhares de pontos de luz azulada e fosforescente. Não eram estrelas: eram vitórias-régias gigantescas flutuando em um lago espelhado, tão calmo que refletia perfeitamente a abóbada celeste tingida de roxo e carmesim.
Um som distante começou a vibrar no ar. Não era o cântico soturno da Cuca, mas uma música envolvente, ritmada por tambores aquáticos e risadas aveludadas que pareciam sussurrar promessas de carinho, riqueza e segredos revelados. Cada nota fazia minha pele arrepiar, despertando uma sede insidiosa no fundo da minha alma.
As portas da carruagem se abriram sozinhas ao pousarmos na margem coberta por areia prateada. O ar ali era quente e perfumado com flores aquáticas que cheiravam a mel e pecado.
Lady Vespera apontou para o centro do lago, onde figuras elegantes vestidas de branco puro dançavam sobre a superfície da água sem afundar, seus rostos perfeitos cobertos por chapéus de palha fina e máscaras de escamas de madrepérola.
— A água aguarda a sua princesa, Iara de Guaranímia — sussurrou a vampira, com os olhos faiscando de expectativa. — Entre na dança, se tiver coragem... mas lembre-se: no Lago dos Botos, o maior perigo não é o monstro que te ataca, mas o amor que ele te promete.
Olhei para Alik, cujos olhos já pareciam ligeiramente vidrados pelo eco da melodia distante, e depois para Tuli, que retirava às pressas dois amuletos de sal e cânfora de sua bolsa para nos proteger. Apertei meus punhos, sentindo a quarta ponta da coroa pulsar na palma da minha mão. Respirei fundo o ar envenenado de doçura e dei o primeiro passo na direção da água n***a.