A voz atravessa o portal e entra em mim como água gelada.
— Venha buscar o coração, princesa.
Ninguém precisa mandar duas vezes. Dou um passo, mas minha mãe me puxa pelo vestido.
— Você não vai entrar sozinha nesse lugar.
— Se eu não for, aquilo entra aqui.
Aponto para as sombras que se movem atrás da superfície n***a. Uma delas bate contra o portal, fazendo o arco de pedra estremecer. Minha mãe aperta minha mão, e por um instante deixa de parecer furiosa. Parece apenas assustada.
— Eu não posso perder você.
— Então confie que vou voltar.
Ela abre a boca, mas nenhuma palavra sai. Solto seus dedos devagar e caminho até o mimbý quebrado. Alik se abaixa antes de mim e recolhe as duas partes.
— Eu vou com você.
— A prova é dela — Lady Vespera diz.
— Não perguntei.
Ele prende o instrumento na cintura. A vampira surge diante dele antes que consiga dar outro passo.
— Atravesse sem ser chamado e o portal arrancará aquilo que mais ama.
Alik olha para mim.
— Então já sei o que ele vai arrancar.
Meu peito aperta, porém a raiva fala primeiro.
— Não faça isso. Você não pode me tratar como uma criança e depois tentar morrer por mim.
— Iara…
— Depois conversamos.
Tuli se aproxima e coloca um pequeno frasco em minha mão. Dentro dele, uma fumaça dourada gira como um vaga-lume preso.
— Quebre se não conseguir distinguir verdade de ilusão.
— Isso é muito específico.
— Porque o pântano mente.
Ela fecha meus dedos sobre o frasco. Seu toque permanece por um segundo.
— Volte para mim.
Olho para ela. Depois para Alik. Os dois carregam o mesmo medo de formas diferentes. Alik o transforma em raiva. Tuli o transforma em silêncio.
Eu transformo em movimento.
Atravesso o portal.
A sensação é como mergulhar em água fria, mas meus pés encontram lama. O céu do outro lado está vermelho. Árvores retorcidas crescem tão próximas que seus galhos formam costelas sobre minha cabeça. O cheiro é de folhas apodrecidas, sangue e flores doces demais.
Quando olho para trás, o portal desapareceu.
— Ótimo.
Uma risada infantil ecoa entre as árvores.
— Hihihihi!
— Sici?
Um redemoinho passa diante de mim, levantando lama. A garota aparece sentada num galho, balançando sua única perna. Sua pele castanha brilha sob a luz vermelha, e o gorro rosa parece ainda mais vivo naquele lugar morto.
— Você demorou, peixinha.
— Sabia que isso aconteceria?
— Eu sei muitas coisas.
— Então diga onde está a Cuca.
Sici aponta para três caminhos. Um está coberto de flores brancas. Outro, de ossos. O terceiro desaparece dentro de uma água escura.
— Um leva até ela. Um leva até você. Um leva até aquilo que quer ser você.
— Isso não ajuda.
— Ajuda sim. Você só não entendeu.
Ela sopra na minha direção. O vento traz vozes.
Primeiro escuto minha mãe.
“Porca humana do mato.”
Depois meu pai.
“Você precisa ser uma donzela.”
Então Alik.
“Não quero que se machuque.”
As frases se misturam, cercando minha cabeça. Cubro os ouvidos, mas continuam dentro de mim.
Sici para de sorrir.
— O pântano encontrou suas feridas.
— Qual caminho?
— Escolha antes que elas encontrem seu coração.
Olho para as flores. São bonitas, limpas e delicadas. Parecem o caminho que minha mãe escolheria. Os ossos lembram ameaça, batalha e tudo que meu pai acredita que eu não consigo enfrentar.
A água não promete nada.
Entro nela.
A lama sobe até meus joelhos. Algo comprido passa entre minhas pernas, roçando minha pele. Seguro o grito e continuo. A água chega à cintura, depois ao peito. Quando alcança meu pescoço, o chão desaparece.
Afundo.
Tento nadar, mas mãos surgem na escuridão. Dezenas delas agarram meus tornozelos, meu vestido, meus cabelos. Abro a boca e engulo água.
Uma luz aparece abaixo de mim.
A mão feita de estrelas.
Ela se estende, exatamente como no sonho.
Desta vez consigo tocá-la.
Seus dedos fecham em torno do meu pulso e me puxam para baixo.
A escuridão se rompe.
Caio sobre um chão de pedra, tossindo água. Estou seca. O vestido está limpo e meu cabelo arrumado. Quando levanto a cabeça, vejo um salão enorme, iluminado por milhares de velas.
Obsidian.
Convidados mascarados dançam ao redor. Vampiros, górgonas, lobisomens, ogros e criaturas que não reconheço abrem caminho para mim. No fim do salão, uma coroa n***a repousa sobre um trono.
Caminho até ela.
A multidão se curva.
— Princesa Iara — todos dizem.
Meu coração se enche de uma alegria dolorosa. Consegui. Não precisei lutar. Não precisei provar nada. A coroa me escolheu.
Estendo as mãos.
— Pegue — diz minha mãe, surgindo ao lado do trono. — Seja a filha que sempre preparei.
Meu pai aparece do outro lado.
— Não precisa mais lutar.
Alik se ajoelha diante de mim.
— Deixe que eu proteja você.
Tuli surge atrás dele, com lágrimas nos olhos.
— Fique. Nunca mais precisará voltar.
Olho para a coroa.
Tudo que desejo está ali.
Mesmo assim, alguma coisa está errada.
A marca em minha palma não queima.
O frasco de Tuli continua preso em minha mão. Jogo-o no chão.
A fumaça dourada explode.
As velas se apagam. Os convidados derretem como cera. O salão apodrece, revelando raízes, lama e corpos de animais pendurados entre cipós.
A coroa se transforma num coração enorme, n***o, atravessado por espinhos.
Ele pulsa sobre um altar.
Atrás dele está a Cuca.
É maior do que as histórias diziam. Sua pele azul-acinzentada é grossa e enrugada, coberta por placas que lembram couro de jacaré. Os cabelos verdes, longos e embolados, carregam folhas, ossos e pequenos olhos brilhantes. Garras curvas saem de seus dedos, e sua boca é larga demais para um rosto humano.
Há um buraco aberto em seu peito.
— Devolva meu coração — ela rosna.
— Eu não roubei.
— Mas trouxe o ladrão.
As raízes atrás de mim se abrem.
Alik surge entre elas.
Ou algo usando o rosto dele.
Seus olhos estão completamente brancos. Na mão, segura o mimbý inteiro.
— Iara — diz. — Afaste-se da criatura.
— Você não é Alik.
— Sou aquele que ele seria sem medo.
Ele ergue a flauta e toca uma nota. A Cuca grita. Espinhos apertam o coração, arrancando sangue n***o.
Corro até o altar, mas raízes prendem meus pés.
— Ela protege a vila cobrando obediência — o falso Alik diz. — Quebre o coração e você será livre.
— Livre para quê?
— Para ser coroada.
A mão de estrelas aparece sobre o ombro dele. Agora vejo que não pertence ao falso Alik. Ela nasce de uma figura escondida atrás das árvores: alta, coroada por chifres e coberta por asas.
A mesma criatura da visão de Tuli.
Ela fecha os dedos.
O coração da Cuca começa a rachar.
Puxo a raiz com força, rasgando a pele do tornozelo. Caio, mas consigo alcançar o mimbý quebrado preso à minha cintura. Não sei tocar como Alik. Mesmo assim, levo uma das metades aos lábios.
Sopro.
O som sai h******l, rouco e falhado.
A criatura ri.
Então canto:
— Cuca venha pegar, sua criança quer ficar. O coração que vão levar, com meu sangue vou guardar.
A marca em minha mão se abre.
Meu sangue escorre pelo bambu.
O mimbý responde.
Uma nota profunda atravessa o pântano. As árvores se curvam. O falso Alik grita enquanto sua pele se desfaz em penas negras. A mão de estrelas tenta alcançar o coração, mas a Cuca finca as garras no chão.
Eu me jogo sobre o altar e abraço o órgão pulsante.
Os espinhos atravessam meus braços.
A dor quase me faz soltar.
— Você quer uma princesa? — grito para a coisa alada. — Então venha lutar comigo!
Os chifres se inclinam.
Por trás das asas, dois olhos se abrem como luas mortas.
— Ainda não — a criatura responde.
Ela desaparece.
Os espinhos viram cinzas. O coração diminui entre meus braços até caber em minhas mãos. A Cuca se aproxima, cambaleando.
Coloco o coração dentro do buraco em seu peito.
As placas de sua pele se fecham sobre ele.
O pântano inteiro respira.
A Cuca segura meu rosto entre suas garras. Poderia esmagar meu crânio, mas apenas encosta a testa na minha.
— A coroa não chamou uma princesa — ela sussurra. — Chamou uma guerra.
Atrás de nós, o portal reaparece.
Antes que eu atravesse, ela coloca o mimbý restaurado em minhas mãos.
— Leve ao garoto. Diga que instrumentos abandonados aprendem canções perigosas.
Volto para Guaranímia.
Caio de joelhos na praça, coberta de lama e sangue. Minha mãe corre até mim. Tuli chora. Alik olha para a flauta.
Lady Vespera observa a marca em minha palma.
Agora ela possui uma quarta ponta.
— Primeira prova concluída — anuncia.
O céu volta a clarear.
O vento atravessa a praça, trazendo do portal um cheiro de cinzas e flores queimadas. Por um momento, ninguém comemora. Os anciãos se entreolham, os caçadores baixam as armas e até os espíritos do Perê permanecem escondidos. Eu aperto o mimbý contra o peito, sentindo nele uma pulsação fraca. Não parece madeira. Parece um aviso vivo, esperando que alguém volte a tocá-lo sob meus dedos.
Mas, bem longe, além das montanhas, alguma coisa enorme abre as asas.
E chama meu nome duas vezes.