— Tuli… — chamo baixo.
Ela não responde.
Seus dedos continuam presos entre os meus fios, mas já não se movem. O vapor da água passa pelo rosto dela, deixando suas feições embaçadas por alguns instantes. Mesmo assim, ainda consigo ver seus olhos fixos em mim.
— Você vai terminar de lavar meu cabelo ou pretende ficar me encarando até eu criar escamas?
Ela pisca várias vezes, como se despertasse de um sonho.
— O quê? Eu não estava encarando.
— Claro que não. Estava só estudando cada pedaço da minha cara por motivos científicos.
— Cala a boca — ela diz, ficando vermelha. — Inclina a cabeça.
Eu rio baixinho e obedeço. Tuli pega a concha, mergulha no balde e despeja a água sobre meu cabelo. A pasta de ervas escorre pelos fios em pequenas linhas claras. Fecho os olhos e sinto os dedos dela massagearem minha nuca mais uma vez.
Por alguns segundos, esqueço tudo.
Minha mãe gritando.
Meu pai dizendo que preciso ser uma donzela.
Alik me tratando como se eu fosse frágil demais para existir fora da vila.
Ali, dentro daquela banheira, cercada pelo cheiro de ervas, madeira molhada e fumaça, parece que o mundo inteiro está do lado de fora. Como se nada pudesse me alcançar.
Então o caldeirão começa a ferver.
Não de um jeito normal.
A água bate nas bordas de ferro com tanta força que parece que alguma coisa está tentando sair de dentro dela.
— Tuli… — abro os olhos. — Você disse que o fogo estava quase apagando.
Ela olha para o caldeirão e perde a cor do rosto.
As chamas embaixo dele já morreram completamente.
Mesmo assim, a água continua borbulhando.
Uma fumaça azulada começa a subir, grossa e brilhante, se enrolando no teto como uma serpente. Os frascos espalhados pelo chão tremem. Um deles cai de lado, mas, antes de tocar a pedra, fica suspenso no ar.
— Saia da banheira — Tuli ordena.
— O quê?
— Agora, Iara!
Ela pega um pano grande e me puxa pelo braço. Quase caio ao tentar levantar. Tuli me cobre depressa, enrolando o tecido em volta do meu corpo, e me empurra para trás dela.
— Desde quando você sabe dar ordens? — pergunto, segurando o pano contra o peito.
— Desde que uma coisa começou a tentar nascer dentro do caldeirão da minha mãe.
A fumaça se junta sobre a água.
Primeiro forma dedos.
Longos. Finos. Com unhas que brilham como lâminas.
Depois surge uma palma, um pulso e parte de um braço feito de pontos luminosos, como se alguém tivesse arrancado um pedaço do céu da madrugada e dado forma a ele.
Meu corpo inteiro esfria.
É a mesma mão.
A mão do meu sonho.
Ela se estende para fora do caldeirão, procurando alguma coisa no ar. As pequenas estrelas que formam sua pele piscam em ritmos diferentes. Algumas morrem e voltam a nascer no mesmo instante.
— Eu vi isso ontem — digo, quase sem voz.
Tuli vira para mim tão rápido que seus cabelos batem em seu rosto.
— O quê?
— No meu sonho. Eu estava afundando em um lugar escuro e essa mão apareceu. Ela tentou me alcançar.
— Não — Tuli sussurra.
— Você sabe o que é isso?
— Não chegue perto.
A mão se vira na nossa direção.
Mesmo sem olhos, sinto que ela está me olhando.
Então aponta para mim.
Uma dor atravessa minha palma direita.
— Ah! — grito, soltando o pano por um instante.
Uma linha fina se abre na minha pele, como um corte feito por uma unha invisível. O sangue escorre até meu pulso, mas, antes de cair no chão, uma gota sobe pelo ar.
Ela voa até a mão de estrelas.
No momento em que toca um dos dedos, todas as luzes se apagam.
A sala mergulha em silêncio.
A fumaça desaba dentro do caldeirão, e o frasco suspenso cai no chão, se partindo em vários pedaços.
Tuli corre até mim e segura minha mão.
— Deixe eu ver.
— Foi só um corte.
— Isso não foi só um corte!
Ela examina minha palma com desespero. A ferida já está se fechando, mas uma marca escura começa a surgir no lugar: três pontas compridas se entrelaçam como galhos, formando o desenho de uma pequena coroa.
— Que m***a é essa? — pergunto.
Tuli solta minha mão e dá um passo para trás.
— Aconteceu cedo demais.
— Cedo demais para quê?
Ela não responde.
— Tuli.
— Vista-se primeiro.
— Não vou vestir p***a nenhuma até você me explicar!
— Iara, por favor.
O jeito como ela diz meu nome me faz parar.
Não há vergonha em seu rosto agora, nem aquela doçura cuidadosa de antes. Só medo. Um medo tão profundo que parece mais velho do que nós duas.
— Você sabia que isso aconteceria? — pergunto.
Ela baixa os olhos.
Isso é resposta suficiente.
— Você sabia.
— Eu não sabia exatamente.
— Exatamente? Então sabia um pouco? Sabia metade? Sabia que uma mão de estrelas ia sair do caldeirão e beber meu sangue?
— Eu tive uma visão.
— Uma visão?
Tuli se agacha perto dos frascos espalhados. Suas mãos tremem enquanto recolhe alguns deles.
— Há sete noites eu sonho com você atravessando os portões de Obsidian. Em todas elas, você está usando uma coroa n***a. E, em todas elas, alguma coisa caminha atrás de você.
— Alguma coisa o quê?
— Eu nunca consigo ver o rosto. Só vejo os chifres… e muitas asas.
Meu estômago se aperta.
— Por que não me contou?
— Porque sonhos não são sempre profecias. Às vezes são só medos usando imagens bonitas para assustar a gente.
— E a mão?
Ela olha para o caldeirão.
A água, antes transparente, está completamente n***a. No centro dela, alguma coisa flutua.
— A mão apareceu na última noite — Tuli continua. — Ela tocava seu peito e arrancava uma luz de dentro de você. Eu acordei antes de descobrir se estava salvando sua vida… ou roubando.
Vou até o caldeirão, ignorando quando ela tenta me impedir.
O objeto na água se aproxima sozinho da borda.
É um envelope.
Feito de um papel grosso, n***o e brilhante como pele de besouro. Não está molhado, mesmo boiando dentro da água. Um selo de cera vermelha mantém sua aba fechada. Nele, reconheço a figura de um morcego de asas abertas sobre uma coroa.
— Obsidian — murmuro.
— Não toque.
— Já bebi água do pântano, fui atacada por coco de c***a e jogada num riacho por uma Perê. Acho que consigo sobreviver a uma carta.
— Iara, isso apareceu dentro de uma visão de sangue!
— Então deve ser importante.
Estendo a mão marcada.
Antes que meus dedos encostem no envelope, o selo se parte sozinho.
A carta se abre.
Letras prateadas surgem sobre o papel, uma por uma, como pequenos vermes de luz rastejando até formar palavras.
À filha do rio escondido,
àquela que carrega sangue humano e o chamado da noite,
a Coroa da Titã reconheceu sua presença.
Iara de Guaranímia está convocada.
Meu coração para por um segundo.
Depois bate tão forte que quase machuca.
— Ela me escolheu — digo.
— Não — Tuli responde. — Os líderes escolhem os candidatos. Sempre foram eles.
Continuo lendo.
Apresente-se diante do emissário de Obsidian antes que o sol alcance o centro do céu.
Recusar o chamado é recusar a p******o do pacto.
Aceitá-lo é oferecer nome, sangue e destino à prova.
A primeira porta será aberta em Guaranímia.
A carta se desfaz em pequenas cinzas prateadas e desaparece entre meus dedos.
No mesmo instante, um sino toca do lado de fora.
Uma vez.
Duas.
Três.
O som atravessa as paredes e faz as pedras da casa vibrarem.
Tuli arregala os olhos.
— O sino da entrada.
— O que significa?
— Que alguém atravessou o portal sem usar o cântico da Cuca.
O sino toca pela quarta vez.
Então ouvimos gritos na rua.
Corro para pegar minhas roupas, mas Tuli segura minha blusa suja com dois dedos e faz uma careta.
— Nem pense nisso.
— Não tenho outra roupa!
Ela abre um baú e joga um vestido em mim. É verde-escuro, com mangas largas e uma faixa dourada na cintura.
— Isso parece roupa de cerimônia.
— É roupa de cerimônia.
— Sua mãe vai me m***r.
— Se o emissário de Obsidian não fizer isso primeiro, eu explico para ela.
Visto o vestido depressa, ainda com a pele úmida. Tuli amarra a faixa com tanta força que quase espreme meu estômago para fora.
— Quer me apresentar ou me sufocar?
— Fique quieta.
Ela pega um óleo, passa nas pontas do meu cabelo e começa a separar os fios com os dedos.
— Não temos tempo para isso.
— Sua mãe me amaldiçoaria por deixar você aparecer diante de um emissário parecendo que acabou de lutar com um ninho de pássaros.
— Minha mãe me amaldiçoaria por respirar errado.
— Verdade.
Saímos correndo.
A vila inteira parece ter acordado de uma vez. Pessoas deixam as casas, algumas ainda com roupas de dormir. Crianças sobem nas cercas. Os espíritos do Perê giram em pequenos redemoinhos sobre os telhados, rindo e repetindo que “os morcegos chegaram”.
No centro de Guaranímia, diante da árvore mais antiga da vila, há uma carruagem que não estava ali antes.
Ela é comprida, feita de madeira n***a e coberta por entalhes de animais mortos. Não possui rodas. Flutua alguns dedos acima do chão, envolta por uma névoa vermelha. Quatro criaturas a puxam: cervos enormes, sem pele, com os ossos cobertos por símbolos dourados. Apesar de não terem olhos, viram suas cabeças quando me aproximo.
— Acho que eles gostaram de você — Tuli sussurra.
— Espero que não estejam com fome.
Minha mãe está na frente da multidão, com o cabelo preso e um vestido vermelho que eu nunca vi. Ao lado dela está meu pai, pálido como se tivesse passado a manhã inteira conversando com um fantasma.
Alik também está ali.
Ele segura uma lança e permanece junto dos caçadores. Quando me vê, olha primeiro para o vestido, depois para meu cabelo e, por fim, para Tuli ao meu lado.
Seu maxilar endurece.
Ótimo.
Agora ele decide sentir alguma coisa.
— Iara! — minha mãe abre caminho entre as pessoas. — Onde você estava?
— Tomando banho.
— Na casa da Tuli? — Ela olha para o vestido. — Isso não é seu.
— Depois você briga comigo. Uma carta saiu de um caldeirão, uma mão cortou minha pele e parece que fui convocada por uma coroa mágica. Minha manhã está um pouco cheia.
— Uma mão fez o quê?
Antes que eu possa mostrar a marca, a porta da carruagem se abre.
A névoa vermelha se espalha pelo chão.
Uma mulher desce.
Ela é alta, muito mais alta do que qualquer pessoa da vila. Sua pele tem a cor fria da lua e parece quase transparente sob a luz da manhã. Os cabelos negros chegam até seus joelhos, presos por pequenas joias vermelhas. Usa um vestido comprido, feito de várias camadas que se movem como asas fechadas.
Quando sorri, vejo as presas.
Toda a praça fica em silêncio.
— Guaranímia — ela diz.
Sua voz não é alta, mas chega até todos os cantos, como se sussurrasse dentro de cada ouvido.
— Sou Lady Vespera, emissária da Casa Philips e guardiã da quinta chave de Obsidian. Venho em nome do pacto firmado pelo sangue de Vlad Philips IV.
Os anciãos da vila se aproximam e se curvam.
Minha mãe me empurra para baixo, tentando me fazer curvar também.
— Ai! Para!
Lady Vespera olha diretamente para mim.
— Não é necessário.
Minha mãe me solta imediatamente.
A vampira desce o último degrau da carruagem e caminha pela praça. Ninguém se move. Até os espíritos do Perê param de rir e se escondem entre as folhas da árvore.
Ela para diante de mim.
Seus olhos são vermelhos, mas não como sangue. São mais escuros, quase negros, com um brilho rubro no centro.
— Iara de Guaranímia.
— Sim.
Minha voz sai mais fina do que eu queria.
— Mostre sua mão.
Olho para Tuli. Ela faz um pequeno gesto negativo, mas Lady Vespera já estende a própria mão.
Entrego a minha.
A marca da coroa está ainda mais escura.
A vampira passa a unha sobre ela. Sinto uma fisgada gelada subindo pelo braço.
— Então é verdade — diz.
Um murmúrio se espalha pela multidão.
— O que é verdade? — pergunto.
Lady Vespera solta minha mão e olha para os anciãos.
— Durante mil anos, os povos enviaram seus escolhidos ao Baile de Skotous. Os líderes indicam. Obsidian recebe. A Coroa observa.
Ela volta os olhos para mim.
— Mas, nesta lua de sangue, a Coroa escolheu antes dos líderes.
Minha mãe leva a mão à boca.
Meu pai parece prestes a desmaiar.
— Isso é bom? — pergunto.
— Ainda não sabemos.
— Excelente. Adoro quando coisas mágicas me escolhem e ninguém sabe se vou morrer.
Algumas pessoas riem, nervosas. Lady Vespera não.
— A Coroa da Titã não desperta por desejo, senhorita Iara. Ela desperta quando sente uma mudança capaz de ameaçar o pacto… ou de renová-lo.
— E como descobrimos qual dos dois eu sou?
Ela sorri, mostrando as presas outra vez.
— Sobrevivendo às provas.
Meu entusiasmo diminui um pouco.
— Quantas?
— Três antes do baile. Outras aguardam em Obsidian.
— E a primeira?
Lady Vespera olha para o céu.
O sol ainda está subindo, mas uma sombra circular começa a se formar sobre ele. Não é uma nuvem. Parece que uma lua escura está atravessando a manhã.
— Já começou.
O chão treme.
De algum lugar além das casas, vindo da direção do pântano, um rugido atravessa a vila. As janelas batem. As galinhas correm. Os cervos sem pele abaixam as cabeças.
Reconheço aquele som.
A Cuca.
Mas nunca a ouvi gritar daquele jeito.
Não é um chamado.
É dor.
O arco de pedra na entrada da vila se acende com uma luz verde. As árvores ao redor dele se retorcem, e raízes grossas rompem o chão. Uma delas traz alguma coisa presa entre seus galhos.
Um mimbý partido ao meio.
O instrumento cai na praça.
Alik empalidece.
Eu reconheço os entalhes no bambu.
— Você disse que tinha jogado fora — falo.
Ele não responde.
Lady Vespera se abaixa e toca o instrumento quebrado. Um líquido n***o escorre de dentro dele, espalhando um cheiro podre de pântano.
— A p******o de Guaranímia foi ferida — anuncia. — Antes que a sombra deixe o sol, a escolhida deverá atravessar o portal, encontrar a guardiã e recuperar aquilo que foi roubado dela.
— E o que foi roubado? — pergunta um dos anciãos.
Lady Vespera olha para mim.
— O coração.
Minha mãe segura meu braço.
— Ela não vai.
— Se não for — diz a vampira —, o portal permanecerá aberto. E tudo que a Cuca manteve do lado de fora poderá entrar.
Como se entendesse suas palavras, alguma coisa golpeia o outro lado do arco.
A superfície do portal se forma sozinha, escura e grossa como água suja. Uma silhueta enorme passa atrás dela.
Depois outra.
E outra.
Meu pai segura minha mãe. Os caçadores levantam as armas. Alik continua olhando para o mimbý quebrado como se estivesse diante de um cadáver.
Eu fecho a mão marcada.
Estou com medo.
Muito medo.
Mas todos estão olhando para mim do jeito que sempre olharam: esperando que eu recue, que eu precise ser protegida, que eu aceite o lugar pequeno que escolheram para mim.
Respiro fundo.
— O que preciso levar?
Minha mãe aperta meu braço com mais força.
— Iara, não.
— Se eu quero atravessar os portões de Obsidian, preciso conseguir atravessar o portal da minha própria vila.
Olho para Lady Vespera.
— Eu vou.
A marca na minha palma queima.
Acima de nós, a sombra cobre completamente o sol.
Por um instante, o dia vira noite.
E, no reflexo n***o do portal, vejo a mão feita de estrelas surgir atrás de mim.
Ela não tenta me puxar.
Não tenta me salvar.
Seus dedos descem devagar sobre minha cabeça, formando o desenho de uma coroa.
Tuli segura minha outra mão.
— Iara… — ela sussurra, tremendo. — Foi assim que terminou minha visão.
Do outro lado do portal, a Cuca grita novamente.
Desta vez, entre o rugido e o som das árvores quebrando, consigo ouvir uma voz.
Uma voz que não é dela.
— Venha buscar o coração, princesa.