— IARA, ACORDE GAROTA OU VOU TER QUE TE DAR BANHO NA CAMA??
Acordo com minha mãe gritando.
Abro os olhos devagar. Ainda está cedo. O sol m*l começou a nascer e os primeiros raios entram pelas frestas da janela, iluminando o quarto com uma luz fraca e dourada. Lá fora, as galinhas já estão cantando como se fossem donas do mundo.
Eu me sento na cama e sinto o cheiro h******l da minha própria roupa.
Estou suja, não tomei banho e nem troquei de roupa ontem. Sei que se minha mãe me ver nesse estado, com certeza vai me jogar um balde de água fria enquanto grita na minha cara.
Então me levanto, dou uma espreguiçada, e pulo a janela do meu quarto.
Saio correndo direto para a casa da Tuli – minha melhor amiga – ela sempre tem água quente. Hihihihi!.
Todas as casas da vila parecem iguais, mas, elas sempre tem algumas pequenas diferenças entre elas. Algumas têm cercas tortas, outras, vasos de plantas nas janelas, e algumas, cabras leiteiras em cercas ao lado da casa.
Chego na casa da Tuli e já vejo as enormes videiras que tem em volta da casa dela, quase subindo pelas paredes. Eu pulo a janela – que é uma a******a na parede coberta por um pano de linho grosso – e entro no quarto dela.
— Tuli! Tudo bem amiga. — Eu tropeço no pano da janela, caio no chão e olho para ela.
— Ai meu OSSOS!! — Ela se assusta.
Tuli está sentada no chão em volta de um monte de frascos e ervas espalhadas.
— Iara?! Como você entrou aqui?
— Pela janela.
— Ah sim! Claro, de que outra forma entraria aqui, não é?. Eu sabia, eu vi!
Me levanto do chão, e vou na direção dela.
— Tá tudo bem?. Você chegou a dormir esses dias? — Pergunto preocupada.
— Porque está aqui!? — ela diz parecendo muito tensa — Aconteceu alguma coisa? Está em perigo?
Ela levanta, derrubando os fracos em volta dela, alguns soltam fumaça, outros uma espécie de brilho, alguns só derretem como um tipo de ácido.
Ela vem em minha direção com um olhar meio assustador.
Rápido demais!
— Ei, calma?! — Me assusto.
Tuli segura meus braços com força, e me olha de cima a baixo.
— Você está bem?! — Ela pergunta, olhando direto nos meus olhos, como se estivesse procurando alguma coisa dentro de mim.
— Tô…só estou fedendo! — Me afasto dela, tirando suas mãos de mim — Você…está me assustando! — Olho com medo.
— Ah! O que…? Desculpe…não sei o que deu em mim. — Ela leva a mão à cabeça e franze a testa, como se estivesse procurando uma resposta para o que fez.
— Uhum…Então sua mãe ainda esquenta aquele enorme caldeirão de água quente?
Tento mudar o assunto para que o clima não fique desconfortável.
E eu ainda preciso tomar banho!
— Ah, sim, claro. Então você veio… tomar banho, não é?
Ela ainda parece meio perdida.
— SIM, por favor, estou me sentindo um porco do mato hihihihi.
— Hahaha. Adoro sua risada peixinha, parece uma Perê.
— Ahh, para de me elogiar florzinha. Sabe que fico com vergonha.
— Hahahaha.
— Hihihihi.
Então vamos até a sala dela onde está o caldeirão.
Ele repousa sobre um suporte de ferro, ainda soltando leves espirais de vapor. Embaixo há uma chama, acesa por lenhas, que parece quase se apagar, como se já tivesse sido acesa a algum tempo.
O cheiro do ambiente é acolhedor — lenha queimada, ervas secas e um leve toque adocicado que sempre parece envolver a casa de
Tuli.
Quase ao lado do caldeirão, tem uma banheira que fica encostada na parede de pedra. À primeira vista, ela nem parece uma banheira
– mais lembra um móvel robusto, quase um baú antigo ou uma arca de madeira trabalhada.
É feita de tábuas grossas, reforçadas com aros de metal escurecidos pelo tempo, e possui uma tampa pesada, articulada por dobradiças rústicas.
Tuli vai até ela para abrir a tampa que está fechada – a superfície da tampa é plana e firme, servindo como uma espécie de bancada improvisada – ela tira dali, panos empilhados e dobrados, frascos de ervas secas, e algumas tigelas de madeira.
Dentro há um balde e uma concha de ferro, que já ficam prontos para o uso no banho.
— Pode usar à vontade, só não demore porque minha mãe vai usar o caldeirão para um feitiço — Diz ela, se afastando com um olhar que parece carregar um resquício daquela tensão de antes.
Eu me aproximo do caldeirão – feito de ferro grosso e escurecido, ele tem uma superfície irregular, marcada por séculos de fogo, fuligem e uso constante.
Não é liso. Pequenas ondulações, manchas e texturas contam histórias de tudo o que já foi preparado ali dentro. As alças laterais são grossas e arredondadas, gastas pelo toque de muitas mãos.
Às vezes, parecem quase moldadas pelo tempo – e estendo a mão com cautela, tocando a água de leve. Está na temperatura certa.
— Pensei que sua mãe não fosse mais bruxa.
— Ela ainda não é. Mas me ensina o que ela sabe.
— Queria que minha mãe fosse assim.
Pego o balde e a concha de ferro da banheira. Encho o balde com a água do caldeirão.
Eu tiro a roupa com rapidez, mais por necessidade do que por conforto, e me sento dentro da banheira.
Terá que ser um banho rápido então não posso jogar a água do balde dentro da banheira, terei que pegá-la com a concha e me banhar assim.
O primeiro contato da água quente sobre minha pele me faz soltar um suspiro longo, quase como se todo o peso do dia anterior escorresse junto.
A sujeira começa a ceder, misturada à água que escorre pela banheira. Passo as mãos pelos braços, pelo rosto, pelos cabelos, sentindo aos poucos meu corpo voltar a si.
— Hm… — murmuro.
Ela me observa por um instante… e, dessa vez, seu olhar já não é assustador. Apenas… atento.
E isso, de alguma forma, me deixa ainda mais inquieta do que antes.
Ela se aproxima com um pequeno pote de barro. Ao abrir a tampa, um cheiro denso e agradável se espalha — algo entre folhas amargas, flores doces e terra molhada depois da chuva.
— O que é isso? — Eu estranho essa coisa.
Seria alguma magia ou poção?
— Sabão de ervas — Ela explica — Eu mesma que faço. Ajuda a limpar… e a cuidar.
Pego um pouco com os dedos. A textura é diferente de tudo que já usei — não escorre fácil, é espessa, quase como uma pasta viva.
— Pode se dizer que é uma loção de bruxa.
Espalho a pasta devagar, sentindo como ela desliza diferente da água — mais densa, mais presente. A espuma se forma sutil, quase discreta, enquanto minhas mãos percorrem a pele, limpando a sujeira que ainda resta do dia anterior.
Começo pelos braços e desço pelos ombros, pelo colo, deixando o calor da água abrir caminho para o toque.
O cheiro das ervas se intensifica, se misturando ao vapor, envolvendo tudo ao redor.
Continuo, pelos braços novamente, mais devagar, como se cada movimento tivesse se tornado consciente.
A água deslizava pela minha pele acobreada enquanto a luz suave da manhã me vestia, fazendo meu corpo brilhar como se eu tivesse sido esculpida em metal quente, e o sabão deixa um leve rastro opaco antes de ser levado pela água.
Quando desço mais, lavando o restante do corpo com o mesmo cuidado — com calma, sem pressa alguma — percebo.
Atrás de mim, o silêncio de Tuli, que já não é o mesmo.
Não é distraído.
Não é ausente.
É atento.
Ela está me olhando, mas não como antes. O olhar dela não busca perigo, nem sinais estranhos.
Ele… permanece.
Fixo.
Quente.
Como se estivesse sendo puxada por algo que não consegue evitar.
Eu paro por um segundo, apenas o suficiente para sentir o peso desse olhar nas minhas costas.
Quando olho de lado, vejo.
Os olhos dela percorrem cada movimento meu como se estivesse vendo algo raro. Algo que precisa ser guardado na memória antes que desapareça.
Ela se aproxima.
— Seu cabelo, não esqueça de lavá-lo também.
— No banho?
— Claro! Vai deixar sua mãe lavá-lo com cinzas e alecrim denovo?
— Tem razão.
Ela se ajoelha ao lado da banheira. Pega um dos potes de barro que estão ali do lado.
— Vire um pouco — diz, com a voz baixa.
Obedeço inclinando o corpo para frente, apoiando os braços na borda de madeira. Meu cabelo cai pesado pelas costas, ainda úmido do vapor e da água que já havia tocado a superfície dos fios.
Tuli mergulha a concha no balde e despeja a água devagar sobre minha cabeça.
A água quente escorre lentamente, abrindo caminho entre os fios, soltando o que estava preso, desfazendo a poeira do caminho e o cheiro do dia anterior.
Ela faz isso mais uma vez, e outra. Até que meu cabelo esteja completamente molhado.
Os fios escurecem ainda mais com a água, como se a devorasse, ganhando brilho sob a luz fraca da manhã. O volume se acomoda,
não desaparece — apenas muda de forma, mais definido, mais pesado pela umidade.
Ela pega um pouco da pasta de ervas. A esfrega entre os dedos, e então leva as mãos até minha cabeça.
O primeiro toque é cuidadoso, quase hesitante.
Os dedos dela encontram minha raiz com delicadeza. Ela não esfrega de qualquer maneira, vai abrindo espaço entre os fios com paciência, permitindo que a mistura alcance o couro cabeludo.
A pasta tem um cheiro quase de mel escuro, folhas esmagadas e algo fresco que lembra chuva, e o sabão que ela me deu.
Os dedos dela massageiam lentamente minha cabeça, circulando perto da nuca, depois subindo.
Fecho os olhos.
A sensação é boa demais.
— Você sempre teve tanto cabelo… — Ela murmura.
Sua voz soa distante, como se estivesse pensando alto.
Ela pega mais água e despeja devagar. O sabão escorre em filetes claros, levando embora a espuma suave.
As mãos dela retornam. Agora descendo pelo comprimento, apertando delicadamente os fios entre os dedos para espalhar a mistura até as pontas.
Atrás de mim, sinto a respiração dela mais próxima.
Abro os olhos e viro um pouco o rosto.
Tuli está concentrada, mas não apenas nisso.
Os fios lisos dela caem sobre os ombros enquanto se inclina. O cabelo castanho – como a árvore – acompanha cada movimento, escorrendo como seda molhada pelas laterais do rosto. Algumas mechas escapam atrás da orelha, outras grudam levemente em sua pele – de ébano – por causa do vapor.
Diferente do meu, o cabelo dela repousa com facilidade, reto e comprido, brilhando como âmbar, quando a luz encontra sua superfície.
Mas seus olhos…
Seus olhos continuam em mim, olhando algo que nunca teve coragem de olhar tão de perto.
Duas esferas castanhas, não como o seu cabelo, mas, densa, e profunda, que até o preto da pupila se perde em sua íris, criando um olhar aveludado que parece de alguma forma me guardar dentro dele como se implorasse para me proteger.