CAPÍTULO VII

992 Words
CAPÍTULO VII A areia prateada cedia suavemente sob os meus pés descalços, fria e fina como ** de ossos antigos. O reflexo do céu arroxeado nas águas negras do lago criava a ilusão de estarmos caminhando à beira de um abismo estrelado. O perfume das vitórias-régias gigantescas não era apenas doce; era denso, quase oleoso, penetrando nos pulmões e amortecendo qualquer vestígio de dor ou cansaço que eu trouxesse da batalha anterior. A melodia dos tambores aquáticos ecoava no peito, ditando o ritmo do meu coração com uma cadência suave, hipnótica e irresistível. — Segurem isso. Agora — a voz de Tuli soou abafada, cortando o torpor que tentava se instalar. Ela forçou duas pequenas trouxas de pano rústico amarradas com cipó nas minhas mãos e nas de Alik. O cheiro pungente de cânfora, sal grosso e folhas amargas de arruda queimou minhas narinas, dissipando momentaneamente o nevoeiro adocicado da minha mente. — Não respirem apenas o ar do lago. Mordam a língua se sentirem o corpo esquentar demais. Alik segurava o amuleto com força, mas sua postura revelava a batalha silenciosa que travava internamente. O caçador destemido de Guaranímia, acostumado a rastrear feras com os olhos atentos, parecia fascinado pelas luzes azuladas que dançavam sobre as folhas aquáticas. — Tem pessoas ali no meio, Iara... — ele murmurou, apontando a ponta da lança para o centro do espelho d'água. — Não parecem monstros. Parecem nobres de um festival que nunca acaba. — Porque a pele que eles usam é feita dos nossos desejos — avisei, puxando o braço dele com firmeza para que não desse mais um passo em falso. — Lady Vespera disse que a prova é minha. Vocês prometeram ser minhas testemunhas e guardar a minha retaguarda, não se afogarem por vontade própria. Atrás de nós, encostada na carruagem de ébano, a vampira mantinha os braços cruzados dentro das mangas compridas de seda, observando com um desdém divertido. — A Pérola da Memória repousa no peito do Senhor do Lago — declarou a emissária. — Se você tocar as águas sem ser convidada para a dança, o peso das correntes te puxará direto para o lodo. Eles exigem um parceiro. Quem dentre vós terá a coragem de cruzar o espelho primeiro? Dei um passo adiante, tocando a margem onde a água encontrava a areia. Ao contrário do pântano lodoso da Cuca, o toque daquela água era tépido, quase aveludado, como um banho perfumado. No instante em que os meus pés submergiram alguns centímetros, uma ondulação prateada se espalhou em círculos concêntricos até o centro do lago. A música cessou abruptamente. As figuras mascaradas pararam seus giros rodopiantes. Uma por uma, as cabeças cobertas por chapéus de palha imaculadamente brancos se viraram na minha direção. Suas máscaras de madrepérola refletiam as luzes azuladas das vitórias-régias, cintilando em tons de rosa, verde e ouro. Então, o círculo de dançarinos se abriu com uma reverência lenta e teatral. Do centro do leito, a água começou a se erguer sem derramar uma única gota, formando degraus líquidos. Descendo por eles com uma elegância sobrenatural, surgiu uma figura imponente. Trajava linho branco cortado com a perfeição dos nobres imperiais, com botões esculpidos em madrepérola reluzente. Um terno impecável que não possuía uma única mancha, contrastando com sua pele dourada como o sol poente. Seu chapéu branco cobria o topo da cabeça, mas sob a aba inclinada, seus olhos brilhavam com um tom âmbar profundo e predatório. No centro do seu peito, incrustada em um broche de prata viva que se contorcia como uma serpente marinha, repousava uma esfera opaca do tamanho de um punho fechado: a Pérola da Memória. — Uma mortal de pele de cobre e olhos cheios de chamas... — a voz do homem deslizou pelo ar como veludo sobre seda, tão macia que parecia ressoar diretamente dentro dos meus pensamentos. — Há muitas luas uma filha da terra firme não busca o reflexo do meu reino. Seja bem-vinda ao salão sem teto, Iara de Guaranímia. — Não vim para me banquetear com suas cortesias — respondi, tentando manter a voz firme enquanto a quarta ponta da coroa queimava em alerta na minha mão. — Vim buscar o selo da segunda prova. Entregue a pérola. O homem soltou uma risada melodiosa, retirando de leve a aba do chapéu com dois dedos de unhas polidas e levemente acinzentadas. — Entregar? A coroa de Mittér não se constrói com esmolas, pequena princesa. No salão dos Botos, tudo deve ser conquistado na dança. Conceda-me três voltas sobre o espelho d'água. Se ao fim da terceira melodia você ainda se lembrar do seu nome, de onde veio e do sangue que carrega, a pérola será sua. Mas se esquecer... você será a rainha eterna do meu palácio submerso. — Não faça isso, Iara! — gritou Alik, erguendo a lança e tentando invadir a margem, mas a água endureceu sob seus pés como vidro quebrado, repelindo-o para trás com um estalo violento. — É uma armadilha! Eles usam magia de esquecimento! — É a regra da prova, Alik — Tuli segurou o ombro dele, a voz embargada de angústia. Ela olhou para mim, os olhos castanhos marejados, mas firmes. — Lembre-se do gosto amargo do lodo, Iara. Lembre-se do cheiro de pinho da nossa vila. Não se deixe levar pelo perfume dele. Assenti com a cabeça, apertei o amuleto de ervas entre os dedos esquerdos e estendi a mão direita marcada para o Senhor do Lago. No instante em que a pele dele tocou a minha, uma onda de choque percorreu meu corpo. Não era dor; era uma sensação avassaladora de alívio e acolhimento, como se todas as cobranças da minha mãe, todas as dúvidas do meu pai e todo o medo da floresta deixassem de existir. Ele me puxou para o centro do lago com uma leveza inacreditável. Meus pés não afundaram: a superfície da água sustentava nossos passos como um piso polido de mármore líquido.
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