CAPÍTULO XIV

750 Words
A carruagem real de ébano e ossos cortou a névoa avermelhada que separava os picos áridos de Mittér dos vales verdejantes do sul. À medida que descíamos em direção ao portal de pedra, a atmosfera pesada de enxofre cedia lugar ao cheiro familiar de terra molhada, casca de pinho e folhas de taquara. Através da vidraça escura, vi a muralha natural de árvores que cercava Guaranímia. O arco da Cuca, outrora rachado pelo sangue profanado, agora resplandecia com uma seiva viva e luminescente, restaurado pela canção do mimbý. — Você está pronta para isso? — a voz de Alik soou baixa ao meu lado. Ele segurava a lança entre os joelhos, mas seus olhos examinavam a praça da vila que se aproximava sob as rodas suspensas do veículo. O caçador vestia agora uma túnica de linho escuro sob o colete de couro, presente da corte, mas recusara qualquer insígnia que o afastasse de suas origens. — Eles viram você partir como uma garota desobediente. Agora voltamos em uma carruagem puxada por bestas sem pele. — Não sou mais apenas a garota que corria descalça — respondi, alisando o tecido verde-escuro do meu manto imperial. Tuli segurava o estojo com o Primeiro Decreto no colo, seus dedos entrelaçados aos meus com um calor firme e encorajador. A carruagem tocou a praça central com um impacto suave. O silêncio que tomou a aldeia foi imediato e aterrorizado. Dezenas de aldeões recuaram contra as paredes de pedra das casas. Crianças esconderam-se atrás das cercas tortas, enquanto os caçadores da guarda local empunhavam arcos e lanças rudimentares com mãos trêmulas. A porta se abriu. Desci o primeiro degrau, seguida por Alik e Tuli. Lady Vespera permaneceu junto à porta da carruagem, seus olhos vermelhos brilhando sob o capuz n***o, uma sentinela silenciosa de Obsidian. No centro da praça, perto da velha árvore sagrada, estavam meus pais. Minha mãe trajava um xale pesado sobre os ombros, os olhos arregalados em choque ao encarar a Coroa da Titã que brilhava sobre a minha cabeça com constelações vivas. Meu pai deu um passo incerto à frente, o rosto pálido e vincado de noites insones. — Iara...? — a voz da minha mãe falhou, despida de qualquer tom autoritário de outrora. — Pelos céus... o que fizeram com você? — Ninguém fez nada comigo, mãe — dei três passos firmes em sua direção, sentindo o manto arrastar sobre a terra batida. — Eu busquei o que era meu por direito. E voltei para garantir que esta vila não seja engolida pela guerra que se aproxima. O Ancião Baruk, líder do conselho humano de Guaranímia, adiantou-se com seu cajado de madeira entalhada. — Você traz as feras da noite até as nossas portas, criança! Os mensageiros de Obsidian anunciaram que uma humana reina entre os monstros, mas nós não nos submeteremos a decretos forjados no sangue de abominações! — Não são as feras de Obsidian que ameaçam Guaranímia, Baruk — retrucou Alik, cravando a lança no chão com autoridade de veterano. — Se não fosse pela Princesa Iara, a Cuca estaria morta e o pântano teria vomitado os horrores de Morvath sobre cada telhado desta vila. Ela enfrentou o labirinto e as águas do sul para proteger este chão! Tuli deu um passo à frente e desenrolou o pergaminho lacrado com os sinetes dos lordes de Mittér: — Este é o Primeiro Decreto do Pacto Renovado. A floresta está sob p******o imperial. As patrulhas de caça humana e as sentinelas de Obsidian lutarão lado a lado nas fronteiras. Aqueles que recusarem a aliança estarão desamparados quando o abismo romper a terra. Minha mãe aproximou-se devagar, seus dedos trêmulos tocando a barra do meu vestido de seda e depois subindo até a cicatriz luminosa de seis pontas na minha palma. Lágrimas silenciosas escorreram por suas bochechas enrugadas. — Eu queria que você fosse uma donzela para que o mundo não a ferisse... — sussurrou ela, com a voz embargada. — Mas você nasceu para dobrar o próprio mundo, minha filha. Abracei-a com força, sentindo pela primeira vez que o abismo entre nós havia sido transposto não pelo medo, mas pelo respeito. Meu pai juntou-se a nós, pousando a mão pesada em meu ombro com um orgulho que nenhum sermão antigo poderia apagar. O conselho de anciãos curvou a cabeça diante do estandarte, e os aldeões baixaram suas armas. Guaranímia havia aceitado sua nova rainha; mas o vento repentino que soprou do norte anunciava que o tempo de celebração seria breve.
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