O crepúsculo m*l havia engolido o horizonte quando o céu sobre Guaranímia tingiu-se de uma escuridão antinatural. Não era a noite comum: uma tempestade de cinzas e fumaça púrpura desceu das montanhas, bloqueando as estrelas. O sino da aldeia dobrou com fúria ensurdecedora.
Das copas dos pinheiros ancestrais, os espíritos do Perê caíram em redemoinhos desgovernados, gritando em agonia:
— As asas chegaram! O céu está rachando! Não brinquem no escuro!
Um estrondo abissal partiu a encosta ao sul da vila. Da f***a fumegante, dezenas de criaturas aladas — gárgulas corrompidas e espectros com garras de ossos reluzentes — ergueram-se no ar, batendo asas membranosas que espalhavam um cheiro nauseante de podridão e eclipse. No centro do enxame, pairava a gigantesca silhueta de Morvath: quatro asas colossais abertas contra a tempestade, chifres pontiagudos curvados para o céu e olhos ocos que brilhavam como luas mortas.
— Ele veio colher o coração do sul antes que a aliança se firme! — gritou Tuli, arremessando dois frascos de fogo alquímico contra as primeiras feras que mergulhavam sobre as casas. As explosões azuis iluminaram a praça, queimando asas e derrubando três abominações na terra batida.
Lady Vespera desembainhou uma espada de prata viva que reluzia com fulgor escarlate.
— Protejam a carruagem e o povo! — ordenou a vampira, saltando com velocidade sobrenatural e decepando a cabeça de um espectro no ar. — A soberana é o alvo primordial!
Alik colocou-se diante de mim, cravando a lança no peito de uma b***a que descia em voo rasante. O sangue n***o do monstro espirrou sobre suas vestes, mas ele não recuou um único passo.
— Iara, a flauta! — gritou ele em meio ao caos de gritos e madeira se partindo. — As armas comuns não tocam o corpo daquela abominação! Use o cântico do pacto!
Arranquei o mimbý restaurado da cintura. O bambu taquara vibrava com tanto calor que parecia queimar meus dedos. Subi no teto da carruagem de Obsidian, expondo-me diretamente à fúria de Morvath.
A colossal criatura alada notou minha presença. Com um rugido que fez as pedras das fundações de Guaranímia estremecerem, ele desceu em mergulho vertical com suas garras de estrelas estendidas para esmagar minha fronte e arrancar a coroa.
Levei a flauta aos lábios.
Desta vez, não toquei apenas a melodia das águas ou o chamado de socorro à floresta. Toquei o acorde dos dois mundos: o sopro rústico dos homens de Guaranímia entrelaçado com a fúria ancestral dos monstros de Mittér. A marca de seis pontas na minha mão ardeu em um clarão ofuscante, e a Coroa da Titã libertou suas constelações presas, formando uma cúpula de lanças de luz estelar ao meu redor.
A onda sonora ressoou como um trovão divino. No instante em que as garras de Morvath tocaram a barreira mística, a energia estelar explodiu contra seu peito, rompendo duas de suas asas em uma chuva de cinzas e penas calcinadas. A entidade uivou de dor cósmica, recuando para os céus enquanto o enxame de espectros se desintegrava em poeira sob a ressonância da taquara.
— Nós nos encontraremos no coração do abismo, princesa mortal! — a voz cavernosa de Morvath ecoou pela última vez antes de sua silhueta ferida desaparecer no horizonte das montanhas.
O céu voltou a clarear, revelando a lua cheia que banhava a praça em prata pura. Caí de joelhos sobre o teto do veículo, arfando de exaustão, mas a coroa continuava firme e reluzente sobre minha cabeça.
Alik e Tuli subiram ao meu lado, segurando minhas mãos com um orgulho feroz. Abaixo de nós, humanos e vampiros ergueram suas armas em uníssono, aclamando a mulher que acabara de rechaçar o senhor do eclipse. A aliança estava selada com sangue e magia. A marcha final para os abismos de Mittér agora tinha uma líder indomável.