O silêncio que se instalou na praça central de Guaranímia após a retirada forçada de Morvath não era feito de paz, mas de expectativa pura. As cinzas incandescentes das abominações aladas ainda flutuavam no ar noturno, pousando suavemente sobre a grama pisoteada e sobre as lajes frias onde meus pés descansavam. Olhei para a carruagem n***a de Obsidian, cujas laterais de ébano traziam marcas profundas de garras espectrais, e depois para os rostos dos aldeões. Ninguém desviava o olhar. Pela primeira vez na história da nossa gente, caçadores humanos de arco e flecha empunhavam suas armas ombro a ombro com guerreiros vampiros de capa rubra.
Desci do teto da carruagem com o auxílio de Alik. Seus braços firmes sustentaram meu corpo trêmulo até que minhas sandálias tocassem o chão. O caçador olhava para mim com uma mistura densa de admiração e inquietação; o suor escorria por sua têmpora, misturado a vestígios de fuligem púrpura.
— Você quase partiu o céu em dois, peixinha — sussurrou ele, mantendo a mão pousada em minha cintura por um segundo a mais do que o necessário. — Mas você ouviu o que aquela coisa disse antes de fugir. Ele está recuando para o coração do abismo. Não vai esperar que a aliança se fortaleça.
— Ele foi ferido pela luz da Titã, mas não foi destruído — interveio Tuli, aproximando-se com dois potes de cerâmica abertos nas mãos. Ela passou uma camada fresca de unguento de folhas amargas e sal sobre as queimaduras que a magia da flauta havia deixado nas pontas dos meus dedos. O aroma de cânfora aliviou a dormência que subia pelo meu antebraço. — A ferida que você abriu nas asas dele só vai torná-lo mais desesperado. Morvath vai tentar devorar o núcleo de Mittér antes que a lua de sangue chegue ao seu ápice.
Lady Vespera limpou a lâmina de prata viva na barra da capa, fazendo um estalo seco ao embainhá-la. Suas feições aristocráticas estavam tensas, desprovidas de qualquer condescendência cortesã.
— Os batedores alados de Obsidian trouxeram notícias através do espelho de sangue — anunciou a emissária, olhando diretamente para mim. — A f***a dos Primordiais, localizada no fundo da Garganta de Camazotz, rompeu seus últimos lacres de basalto. As correntes de Vlad Philips IV não conseguem mais conter as emanações do eclipse. Se não marcharmos agora, o castelo cairá por baixo antes do amanhecer.
Minha mãe aproximou-se do círculo, acompanhada pelo Ancião Baruk e pelos líderes das patrulhas de caça humana. Ela não trazia mais o medo nos olhos; havia no rosto daquela mulher rígida a resolução de quem finalmente compreendia a magnitude do destino da filha.
— Guaranímia não ficará assistindo da cerca — declarou minha mãe, sua voz soando clara e resoluta para toda a praça. — Nossos caçadores conhecem as trilhas secretas do pântano e as passagens de rocha viva melhor do que qualquer mapa desenhado em Obsidian. Vinte de nossos melhores homens marcharão com a princesa sob a liderança de Alik.
Alik olhou para o conselho e bateu a base de sua lança no chão em um juramento silencioso. Os outros caçadores ergueram seus arcos longos de madeira taquara, enquanto as sentinelas vampiras batiam os punhos contra as armaduras de prata em resposta harmônica.
— Reúnam os mantos pesados e os cantis com água de banho benzida — ordenei, sentindo a autoridade da Coroa da Titã queimar de forma reconfortante na minha testa. — Nós não marchamos para defender uma vila ou um castelo isolado; nós marchamos para erradicar a escuridão que quer apagar todas as espécies.
A marcha começou antes que a meia-noite se esgotasse. A comitiva avançou pela trilha oculta que cortava o pântano da Cuca, guiada pelas pequenas luzes douradas que os espíritos do Perê lançavam à nossa frente. À medida que nos aproximávamos dos contrafortes rochosos que sustentavam o Castelo Obsidian, o solo começou a tremer com vibrações rítmicas e profundas, semelhantes ao pulsar de um coração descomunal enterrado vivo.
Ao chegarmos à base da Garganta de Camazotz, o cenário era dantesco. A grande ponte de ossos petrificados fora parcialmente destruída, e uma f***a de onde jorrava fumaça púrpura e relâmpagos negros engolia as fundações inferiores da fortaleza. No platô de basalto, centenas de guerreiros dos clãs de Mittér — lobisomens de Lycaonia, falanges de górgonas encouraçadas e lanceiros vampiros da Casa Dracul — mantinham uma linha defensiva desesperada contra hordas de quimeras corrompidas que subiam das entranhas do abismo.
Lorde Malakar lutava na linha de frente, com suas vestes escarlates rasgadas e duas espadas de ferro n***o cintilando com sangue viscoso. Ao avistar a nossa vanguarda mista de humanos e sentinelas reais, o grão-duque abriu caminho entre duas feras aladas e recuou até a nossa posição.
— Vocês demoraram, princesa! — rosnou o vampiro, arfando pesadamente enquanto limpava as presas ensanguentadas. — Morvath rompeu o Selo da Titã no santuário submerso. Ele está drenando a seiva viva das raízes da montanha. Se a câmara do coração for profanada por completo, Mittér inteira desabará sobre o nada!
— Onde fica a entrada do santuário? — perguntei, desembainhando a adaga de ferro estelar que Lady Vespera me dera.
— Abaixo da cascata de lava n***a — respondeu Malakar, apontando para um túnel estreito esculpido na rocha viva, ladeado por pilares em chamas. — Mas o caminho está selado por barreiras de escuridão sólida. Nenhuma lâmina forjada em aço comum ou magia vampírica conseguiu arranhar o véu.
Tuli deu um passo à frente, segurando um frasco com a poção de revelação que preparara com as cinzas da primeira batalha:
— A escuridão de Morvath não responde à força pura, Lorde Malakar; responde à verdade do sangue que carrega o pacto. Iara tem o coração da floresta e as memórias das águas. Ela abrirá a passagem.
Alik colocou-se à minha frente com a lança empunhada com ambas as mãos, seus olhos fixos na boca do túnel escuro:
— Nós cobrimos a sua retaguarda até o último degrau, Iara. Vá e tome o coração da montanha.
Com um grito uníssono de guerra, os caçadores de Guaranímia e os guerreiros de Obsidian investiram contra a horda que bloqueava o desfiladeiro. As flechas com pontas embebidas em óleo bento assobiavam pelo ar, abrindo um corredor de fogo e sombras. Corri em direção ao túnel proibido, com Tuli e Alik ao meu lado, sentindo a marca de seis pontas em minha palma latejar como brasa viva diante do confronto derradeiro.