CAPÍTULO XIII

1465 Words
O amanhecer sobre o Castelo Obsidian não trouxe o sol dourado que eu costumava ver despontar sobre os pinheiros de Guaranímia. Em Mittér, a aurora era uma ferida aberta no céu: veios de névoa avermelhada e cinzas vulcânicas arrastavam-se pelas ameias de pedra n***a, tingindo as vidraças góticas dos aposentos reais em um escarlate sombrio. Dormir havia sido impossível. Cada vez que eu fechava os olhos, sentia o pulsar frio das estrelas presas na Coroa da Titã e o eco distante do rugido de Morvath reverberando nas entranhas da montanha. Permaneci de pé diante do espelho de corpo inteiro emoldurado por prata oxidada e ossos de quimera. Eu m*l reconhecia a figura refletida. O vestido simples de linho verde fora substituído por um manto cerimonial de veludo verde-escuro, pesado e forrado em seda n***a, com arabescos dourados bordados ao longo das mangas largas. Em volta da minha cintura, uma faixa de couro cru sustentava a bainha de uma adaga de ferro estelar — presente silencioso deixado por Lady Vespera antes do romper da aurora. Meus cabelos escuros caíam em cachos volumosos sobre os ombros, entrelaçados com pequenos anéis de ouro e as cinzas perfumadas do pântano que Tuli usara para selar meu couro cabeludo. — Você parece uma lenda esculpida em bronze e floresta — a voz suave de Tuli quebrou o silêncio da antecâmara. Ela se aproximou, ajeitando com as mãos firmes o colarinho do meu manto. Seus olhos amendoados carregavam olheiras sutis, mas sua presença emanava uma serenidade inabalável. Em sua cintura, a bolsa de couro agora repousava ao lado de um estojo de pergaminhos e tintas de ervas aromáticas. — Mas não deixe que esse veludo esconda quem você é. Em Obsidian, as feras farejam a fraqueza antes mesmo de ouvirem as palavras. — Eu não pretendo esconder nada — respondi, fechando a mão direita e sentindo o calor vivo das seis pontas queimarem sob a pele. — Minha mãe dizia que eu era uma selvagem por andar descalça na lama; hoje esses monstros vão descobrir que a floresta morde tão forte quanto as presas deles. Alik entrou no quarto empurrando as pesadas portas de ébano. Ele havia banhado o corpo e limpado o sangue da têmpora, mas recusara qualquer libré nobre oferecida pelos servos de Obsidian. Vestia seu colete de couro batido de caçador, reforçado com placas de ferro nas ombreiras, e segurava a lança com a mesma firmeza que usava ao vigiar as fronteiras do sul. Ao lado de sua adaga, o mimbý de taquara reluzia, vivo e atento. — O Grande Conselho dos Clãs já está reunido no Salão das Tapeçarias — anunciou Alik, seu tom grave denotando a urgência da situação. — Lady Vespera mandou avisar que Lorde Malakar convocou todos os patriarcas antes do meio-dia. Os lobos estão furiosos pela derrota de Fenrir, e os senhores vampiros já redigiram três petições para contestar o seu direito de emitir ordens imperiais. Eles querem ver se a nova princesa sabe governar ou se apenas sabe empunhar magia bruta. — Então vamos mostrar a eles — declarei, erguendo o queixo. Cruzamos os corredores superiores da fortaleza sob a escolta cerimonial de seis guardas vampiros trajando cotas de malha prateadas. Por onde passávamos, servos duendes, feiticeiras e cortesãos de várias linhagens curvavam-se à margem dos tapetes, embora seus olhares predatórios acompanhassem cada passo dos meus guardiões mortais. O Salão das Tapeçarias era circular e sufocante. O teto sustentava um domo de vitrais que filtrava a luz avermelhada da manhã, iluminando uma colossal mesa redonda de basalto n***o esculpida no centro do ambiente. Ao redor dela, sentavam-se os líderes supremos de Mittér: Lorde Malakar à cabeceira temporária; o Grão-Lobo Kaelen, patriarca de Lycaonia e pai de Fenrir; a Matriarca Medusa dos clãs das Górgonas; o Arquimago dos Duendes das Profundezas; e Lady Vespera, posicionada em silêncio à esquerda do assento vago da coroa. A minha entrada fez cessar uma discussão áspera que ecoava no salão. Caminhei sem hesitar até a cadeira de espaldar alto entalhada com o emblema da Titã. Alik postou-se de pé atrás do meu ombro direito, a ponta de sua lança descansando no chão com um estalo seco. Tuli colocou-se à minha esquerda, desenrolando o pergaminho oficial e molhando a pena na tinta n***a. Sentei-me no trono de ébano, apoiando as mãos sobre a superfície polida da mesa. A Coroa sobre a minha cabeça emitiu um zumbido baixo, e as sombras da sala pareceram se aquietar sob o meu comando. — Senhores de Mittér — quebrei o silêncio com a voz firme, sem deixar transparecer a exaustão que pesava em meus ossos. — Disseram-me que o conselho tinha urgência em ouvir a minha voz. Aqui estou. O Grão-Lobo Kaelen bateu os punhos peludos contra a mesa com tanta violência que fez as taças de cristal tremerem. Seus olhos amarelos ardiam de ódio, e suas presas rangiam a cada palavra: — O meu filho jaz na enfermaria com o peito esmagado por magia profana! Você pode ter enganado a Coroa com truques do pântano, garota humana, mas os clãs do norte não enviarão seus guerreiros nem abrirão seus celeiros para uma mortal que m*l sabe a diferença entre um tratado de guerra e uma cantiga de ninar! — O Príncipe Fenrir desafiou a soberana no Círculo da Contenda sob as leis sagradas de Vlad Philips IV — interveio Lady Vespera, com a frieza de uma adaga de gelo. — Ele colheu o resultado da própria arrogância. — Chega — ergui a mão marcada, e um lampejo púrpura silenciou os sussurros que começavam a se formar. Olhei diretamente nos olhos selvagens de Kaelen. — O seu filho vive porque eu escolhi não arrancar a garganta dele no mosaico, Grão-Lobo. Se eu quisesse guerra com Lycaonia, a carcaça dele teria sido jogada aos cervos de ossos antes da meia-noite. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Até mesmo Lorde Malakar estreitou os olhos, surpreso pela agressividade controlada das minhas palavras. — Se nos reunimos aqui — continuei —, não foi para lamentar o orgulho ferido dos príncipes, mas para tratar da verdadeira ameaça. Morvath despertou. A Cuca sangrou no pântano e o portal de Guaranímia foi profanado. Enquanto vocês disputam precedência em taças de vinho, a escuridão que quase extinguiu nossos ancestrais está quebrando as correntes sob as montanhas. A Matriarca Medusa deslizou suas escamas douradas pela cadeira, e as serpentes que coroavam sua cabeça ergueram-se em uníssono, sibilando com curiosidade: — E o que a jovem princesa humana propõe? Marchar com nossos exércitos para o abismo às cegas? — Não às cegas — respondi. Virei-me para Tuli e fiz um gesto com a cabeça. A jovem bruxa estendeu o pergaminho no centro da mesa de basalto. — Este é o Primeiro Decreto da Coroa da Titã sob o meu reinado. Tuli leu em voz alta e melodiosa, fazendo cada cláusula ecoar pelas abóbadas: — Primeiro: as fronteiras entre os territórios humanos do sul e o reino de Mittér ficam declaradas sob guarda mútua; nenhum clã de monstros atacará assentamentos mortais, e nenhuma tribo humana caçará criaturas protegidas pelo pacto. Segundo: a Casa Philips e a Guarda Real de Obsidian enviarão emissários aos postos avançados da floresta para investigar as fendas deixadas pelas garras de Morvath. Terceiro: os líderes de cada linhagem prestarão juramento de contingente conjunto até a próxima lua cheia, sob pena de traição direta à Titã. Lorde Malakar soltou um riso seco e aveludado, recostando-se na cadeira de ônix: — Um decreto ousado, Vossa Alteza. Mas você esquece que os homens de Guaranímia nos temem tanto quanto odeiam a nossa existência. Como pretende fazer com que sua própria gente aceite a p******o dos monstros que sempre consideraram abominações? Olhei para Alik, que assentiu sutilmente com a cabeça, e depois voltei meu olhar para o vampiro ancião: — Porque eu mesma levarei o decreto até eles. Eu sou a ponte entre os dois mundos. Amanhã ao meio-dia, a carruagem real de Obsidian pousará na praça de Guaranímia. Meus pais, os caçadores e os anciãos verão que a filha que eles queriam trancafiada em casa agora dita as leis que manterão as duas espécies vivas. Ergui-me da mesa de basalto. A luz carmesim dos vitrais desenhou uma sombra imponente atrás de mim, com as pontas da coroa projetando-se na parede como chifres e asas de fogo celestial. — Assinem o decreto, lordes de Mittér. Ou preparem-se para enfrentar o abismo sem a Coroa ao lado de vocês. Um a um, começando por Lady Vespera e terminando pelo relutante Grão-Lobo Kaelen, os anéis de sinete foram pressionados contra a cera quente sobre o pergaminho. O pacto fora renovado. A batalha política em Obsidian estava vencida; mas a prova de fogo contra o meu próprio passado nos aguardava na aldeia do sul.
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