Me sentindo frustrada

2379 Words
Ivy Você não sabe o quanto fiquei surpreso e feliz ao receber sua resposta. As pessoas ao meu redor estão perguntando se eu vi um passarinho verde, m*l sabem elas que o que eu vi foi algo mais majestoso, eu vi uma fênix renascer das cinzas. Ah!  Minha doce Ivy,  assim como você também tenho meus demônios,  cujo os quais enfrento um por um todos os dias. Tenho um pedido a lhe fazer, apenas me deixe te amar. Não pense nem por um segundo que estou enganado, a verdade é que vi bem no fundo de seus olhos uma dor profunda, tudo o que eu quero é ser a pessoa que te ensinará a sorrir e fará as trevas irem embora. Eu posso te mostrar o que o verdadeiro amor pode fazer, não tenha medo. Quanto a minha identidade,  no momento eu não posso revelar e acho que você já sabia que isso iria acontecer. Ivy eu estou longe de ser um estranho,  pode achar que eu estou sendo esnobe, mas sou tudo aquilo que o seu coração precisa. Cada minuto que passo longe de você é como se eu fosse um forasteiro longe de casa,  você é o meu lar pois é com você que está meu coração. A você eu entrego minha vida e sei que em breve estaremos juntos. Sempre seu... Ele me respondeu. O Estranho. Seu apelido soa engraçado quando pronuncio. - Estranho. – Falou em um tom mais alto, mas somente para que eu possa ouvir. Eu realmente não esperava receber uma segunda carta. Achei que depois de contar o quanto perdida estou, ele fosse acabar perdendo o interesse e me esquecido. Mas ele fez o contrário, escreveu uma carta ainda mais confiante na garota que ele pensa que existe. Devorei cada linha, frase e palavra. As vezes demorando mais um pouco em certa descrições. Temos algo em comum. Um passado obscuro. Duas pessoas buscando uma luz no final do túnel. O Estranho não me pede nada de valor, nem prova... Ele apenas deseja me amar. Mas amar alguém sem tocar, falar, ver seu rosto, seus olhos... Sentir seu coração bater descompassado ao menor toque da pessoa amada? Como posso deixar alguém me amar assim? Sem uma prova real, sem revelar seu nome? O que ele esconde que pode ser tão sério que não possa ao menos falar quem é? Como me deixar envolver de novo em uma relação que não posso ter a certeza que estou sendo correspondida? Uma vez deixei meu coração fazer suas escolhas e olha como acabei no final. Perdida. Uma pelegrina em busca do seu destino. Eu lamento meu coração amado, mas dessa vez será minha razão que irá decidir. Preciso de respostas e pretendo questioná-lo sobre isso, mas não agora. Quer dizer, eu vou sim por que sou curiosa por natureza. Tenho perguntas. Milhares. Mas vou fazer de um jeito sutil. Tenho que começar a treinar esse meu novo lado. Fecho a carta e levo ao nariz, como que para sentir seu cheiro, alguma coisa que indique que ele é real. Não encontro nenhum cheiro em especial, a não ser de papel normal. Guardo a carta dentro do envelope deixando em cima da cama e vou para minha segunda reunião do dia. A turma já está me esperando no corredor onde leva à sala da psicóloga que uma vez por semana tira um tempo para conversar em particular com cada um de nós. Hoje estou feliz. Mais do que feliz. Passei o sábado com Belinda. Ela estava triste, mesmo afirmando que estava tudo bem. Ainda acho que seja por causa de Nick. Belinda nunca vai confessar o quanto foi difícil perder ele duas vezes. Apesar de que sua amizade com Nanda esteja ao poucos voltando ao normal, ainda percebo certo desconforto quando pergunto sobre o casal. Belinda é forte, e logo vai superar isso. Ela sempre foi a mais forte da turma. Depois que consegui fazer com que se abrisse um pouco, ela me contou que Nick havia voltado para o Brasil. Depois de uma recuperação demorada, ele estava de volta. Belinda me contou da surpresa que ele preparou no mesmo dia em que Nanda resolveu cantar uma música em sua homenagem. Nick tinha entrado em contato com Belinda e juntos prepararam tudo. Até Kadu ajudou. Fiquei surpresa e teria dado tudo para estar presente nesse dia.  Ver que meus amigos estão felizes me deixa a um passo de me recuperar totalmente. Eu nunca me perdoaria se algo pior tivesse acontecido com Nick ou com a Nanda. E sem esquecer Belinda que tinha sido arrastada para o galpão no mesmo dia em que Diogo descobriu onde eu estava internada. Aquela noite ainda consegue me deixar algumas noites acordada. Ainda estou pensando em tudo o que aconteceu e no que está acontecendo comigo, quando a porta da sala abre e um Gustavo sorridente a atravessa. Eu sou a próxima. Ele consegue aumentar ainda mais seu sorriso quando me vê. Eu retribuo, por que ele é um cara legal e da turma é o mais velho. - Posso passar no seu quarto depois? Tenho algumas coisas para te contar. Demoro um pouco para responder, por que apesar de ser um cara legal, eu o vejo como um amigo. E é assim que eu quero que permaneça. - Tudo bem. – Falo por fim sem ter coragem de falar que isso não parece ser uma boa ideia. - Legal. Até mais tarde então. Com isso, ela segura a porta aberta para que eu entre. Eu passo por ela e ele a fecha, me deixando sozinha com a psicóloga. - Bom dia Ivy. - Bom dia Adriana. - Sente-se, por favor, vamos conversar um pouco. - Adoro essa parte do dia, por que você já deve ter percebido que eu adoro conversar. Sobre qualquer coisa... Música, livro, histórias... – Falei rindo enquanto me sentava na poltrona. - Eu percebi. Parece-me que você  está mais feliz do que nos outros dias? - Estou mesmo. - Quer me contar o motivo? - Tenho vários motivos na verdade. - E pode me contar todos? - Alguns. Meu amigo Nick, aquele que estava em coma, está de volta ao Brasil. E está recuperado. nanda está mais do que feliz... Todos estão felizes... - Isso sim é uma ótima notícia. O que mais? - Bem, o outro motivo ainda não posso falar. Estou ainda em fase de estudo... - Em fase de estudo? - Não posso dar muito detalhes, mas aparentemente, existe alguém que gosta de mim... - Ivy, aqui todos gostam de você. - Eu sei disso, mas é um gostar diferente, entende? - Sem mais detalhes fica difícil. – Ela riu. - Eu sei, mas preciso ficar com isso só para mim, pelo menos por enquanto, até descobrir o que fazer. - E você acha que descobrirá em breve? - Eu espero que sim. Ficamos conversando por tanto tempo que perdi a noção do tempo. Era maravilhoso conversar com Adriana. Ela é mais que uma psicóloga aqui dentro, é uma amiga em que podemos confiar nossos medos e esperanças. É como se ela fosse um grande baú de segredos. Foi com ajuda dela que consegui depois de algumas semanas internada aqui aceitar a visita dos meus pais. Eu estava muito envergonhada pelo o que fiz, e o medo da rejeição deles era o que me assombrava mais. No primeiro momento, vi a tristeza estampada em seus rostos, mas meu pai logo me puxou para um abraço e disse que tudo ficaria bem. Naquele dia entendi que amor de pai e mãe é incondicional. Não importa quantas merdas você faça em sua vida. Seus pais sempre estarão lá para te oferecer a mão e o colo. Quando voltei para o quarto, tomei um banho rápido e fui procurar André. Quando ele não estava em sua sala, estava andando pela clínica meio que observando seus aprendizes, como ele costuma nos chamar. Eu precisava falar com ele sobre a segunda carta que recebi. Só ele sabia da existência delas, e isso era um segredo só nosso. Encontrei ele na nossa pequena horta conversando com uma garota magricela, acho até mais magra do que eu. Ela está aqui a menos de três semanas e estava tendo um pouco de dificuldade para se adaptar. Eu até tentei uma aproximação, mas ela deixou bem claro que ela não precisava estar aqui. Que ela não era uma viciada. Papo de quem acha que está tudo bem em se drogar. - André, estava te procurando... Oi. – Falei olhando para a garota. Ela me responder com um breve movimento de cabeça e depois se levantou e foi em direção ao pavilhão onde fica a área de trabalho em grupo, como pintura e desenho. - O que aconteceu? - Nada demais, eu só queria te contar que já li a segunda carta. - E?... – Perguntou enquanto se erguia do chão e batia em seus joelhos para tirar a terra que estava grudada. - E nada... Estou meio frustrada, para falar a verdade. - Por quê? O seu admirador não foi gentil dessa vez? - Aí é que está... Ele foi gentil, foi mais que isso. Ele se declarou. Ele me ama... - E você, o que pensa sobre isso? - Eu estou achando isso tudo muito louco. Recebo cartas de alguém que se diz apaixonado, mas tem medo de revelar seu nome... Quer me fazer feliz, mas se recusa a dizer por que está se escondendo de mim. Quer ser meu apoio, mas como vai fazer isso estando longe?... André riu quando bufei. - Então quer dizer que ele está apaixonado? - Segundo o que ele diz na carta, ele já me ama e não é de hoje. Já enumerei todos os caras que conheci na faculdade e nenhum deles se encaixa no perfil do meu estranho. - Seu estranho? – Perguntou erguendo uma das sobrancelhas. - Foi um apelido que coloquei, já que não sei seu nome, e ele se recusa a falar. Depois falam que somos nós, as mulheres que fazemos dramas. - Acho que temos um Romeu apaixonado. - Ele pode até ser o tal Romeu, mas eu estou longe de ser a Julieta. Não vou me m***r por causa de um amor louco... - Julieta não se matou propositalmente... Ela tomou uma porção para que seus pais pensassem que ela havia se matado por proibir seu namoro com Romeu. - Não importa se foi uma porção ou não... No final ela se matou ao acordar e ver Romeu morto. Foi uma i****a. - Ela o amava de verdade e não suportou a ideia de viver sem ele. - Uma i****a duas vezes. - Falando assim, até parece que não acredita no amor. - Não mais. O amor te destrói. - Quando não é correspondido. - Por que estamos falando por metáfora? E por que diabos estamos falando de Romeu e Julieta? Estávamos falando da minha carta e de repente entramos em outro assunto? Nós dois rimos. - Que tal me ajudar com essas ervas daninhas enquanto você me conta mais detalhes da carta do seu estranho? - Eu até posso te ajudar, mas se por acidente os legumes não vingarem, não venha me culpar. André riu alto e eu ri junto com ele. Era muito divertido ficar com ele. À noite depois do jantar, Gustavo resolveu me acompanhar até meu quarto. Eu havia esquecido completamente que ele queria conversar comigo. Andamos em silêncio para o meu quarto, até eu começar a falar. - E então, como foi sua conversa com a Adriana? - Perguntei para puxar assunto. - Foi legal. Ela conseguiu esclarecer algumas dúvidas que ando tendo à algum tempo. - Sério? - Sim. Alguns medos que estou enfrentando aqui dentro. - Não é só você que está enfrentando isso. Acho que todos nós estamos. Só não gostamos de compartilhar. Quando chegamos ao meu quarto, eu abri a porta e entrei deixando ela aberta para que ele passasse. Minha cama estava bagunçada, eu havia largado algumas revistas que Belinda havia trazido na sua visita. Apenas fofoca dos famosos, nada em particular. - Você me dá só um instante, preciso escovar os dentes. - Fique a vontade. Não vou a lugar algum até você voltar. Nós rimos e eu segui para o banheiro. - E a sua conversa com a Adriana, como foi? – Ele perguntou. - Normal, como as outras... – Falei dando um tempo na escovação para responder. – Falei dos meus amigos da faculdade, da minha família... Essas coisas. Quando terminei, voltei para o quarto e encontrei Gustavo segurando uma das minhas cartas. - Não sabia que tinha amigos morando em Manaus. - E não tenho... - Então por que tem uma carta vindo de lá? - É uma carta de alguém que me conhece... - Alguém que te conhece? Morando tão longe assim? - Uma longa história... E você não deveria mexer nas minhas coisas. – Falei pegando a carta de sua mão e guardando na gaveta do criado mudo. - Eu não estava mexendo nas suas coisas. Estava apenas tentando arrumar. Desculpe-me se isso te chateou. – Disse parecendo ofendido. - Me desculpe, ok? Eu não queria parecer grossa... É só que... - Já entendi. Tem alguém na parada... - O quê!!! Alguém? Não... – Falei em uma mistura de choque e susto. - Ivy, eu não sou i****a. Percebi que você ficou nervosa quando me viu segurando o envelope. - Não fiquei nervosa... - Você não percebe, mas quando você é pega de surpresa, seus olhos te traem. Eles são bem expressivos. É fácil perceber. Eu fiquei em silêncio por que não sabia o que falar. - Eu preciso ir... – Disse se levantando e indo para a porta. - Mas você não queria conversar comigo? - Esqueci o que iria falar. Boa noite Ivy. Ele saiu me deixando com uma mente perturbada. O que tinha acontecido com ele? E desde quando ele vinha me observando sem que eu percebesse? Voltei ao criado mudo e peguei a carta de volta. Sentei na cama e li novamente. Algo estranho estava no ar. Eu precisava de respostas, e eu iria tê-las. Peguei meu caderno de anotações e comecei a redigir uma carta para meu estranho.
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