Estranho,
Como você não se identificou é assim que vou te chamar.
Nossa! Eu não sei bem o que dizer ou pensar confesso que fiquei horas meditando se deveria ou não te responder, no fim a curiosidade me venceu e a busca por respostas que eu não sei se terei me fez pegar a caneta.
Primeiro eu gostaria de te pedir desculpas por ignorar uma pessoa tão amável como você, mas você deve saber que eu não estava na minha melhor fase.
Infelizmente eu não tenho boas notícias, temo que você esteja se iludindo, pois eu não sou essa pessoa que você tem sonhado. Essa Ivy que você descreveu não sou eu. Tenho demônios ocultos que insistem em me assombrar.
A Ivy de verdade é uma que ninguém até hoje conheceu nem eu mesma.
Creio que será a última vez que vou ouvir falar de você então eu peço mais uma vez perdão por te desapontar e se puder me dar somente uma resposta para tantas perguntas que eu tenho, seria muito bom.
Quem é você estranho?
Ivy
Fiquei olhando para a folha durante vários minutos, se não horas. Depois de longos quatro dias aguardando ansioso por uma resposta, meio que ainda inseguro, por saber sua reação, e querendo muito ter estado ao seu lado quando ela abriu o envelope. Minha Ivy. Sei que pareço um t**o por pensar assim, mas é como a considero. Minha.
Não do tipo possessivo. De longe, eu sou alguém assim. Falo que ela é minha, por que a partir do momento em quem coloquei meus olhos nela, logo soube que era ela. A garota que iria tirar o meu chão no instante que percebesse minha presença.
Mas ela não viu. Em nenhum momento seu olhar encontrou o meu. Não que eu não fosse bonito ou atraente. Em sua cabeça, eu era apenas o cara que ela conheceu em uma festa. O cara que não perdia tempo conversando. Eu sempre estava procurando diversão. E isso incluía garotas mimadas que estavam à procura de uma noite de loucura.
E ela era uma delas. Uma garota mimada que sempre estava em busca de aventura. Dava para sentir de longe o seu gosto por adrenalina. Foi em uma dessas festas que eu a conheci. Um play boy, assim como eu, que sempre gostou de se exibir com dinheiro dos pais, achou que seria legal dar uma festa antes do início das aulas.
Ele assim como eu gostava de ter a atenção e sempre estar em companhia de garotas fúteis. Eu não iria comparecer, mas Diogo me convenceu, dizendo que lá eu encontraria várias garotas dispostas a fazer tudo que eu quisesse. Minha mente logo viajou. Garotas fáceis, que eu poderia pegar sem ouvir reclamações depois.
Estava há horas na festa e nenhuma garota tinha me chamado a atenção, até ela entrar usando um macacão vermelho, onde deixava bem claro e evidente as suas curvas. Ela queria atenção sobre ela, e eu tive a certeza que ela conseguiria. Seus cabelos possuíam cachos bem definidos e com uma maquiagem pesada, deu para perceber que ela não tinha vindo apenas beber e cair na piscina. Ela estava preparada para caçar.
Por metade da noite fiquei observando-a, meu primeiro pensamento foi chegar e logo marcar território, mas consegui me controlar, ainda mais por que eu não era o único que a queria. Diogo tinha me confidenciado que ela seria a da vez. E quando ele escolhe sua presa, é melhor não ficar no seu caminho. Então eu fiz minha retirada, por que se meter com Diogo, era como ter sua sentença de morte decretada.
Diogo era possessivo, violento e totalmente egoísta. Por diversas vezes, quando Ivy estava ausente, eu aparecia com uma garota diferente. Isso me deixava furioso, por que apesar de Ivy sempre parecer uma garota moderna, no fundo eu conseguia ver que ela queria ser amada. Era quase como uma necessidade.
Nesse dia, eles apenas conversaram. Diogo estava fazendo o reconhecimento do território. Lembro-me ainda que ela foi embora mais cedo do que previsto. Alguns drinks depois e ela estava completamente bêbada. O que me causou algumas risadas escondidas atrás de uma garrafa de cerveja.
A segunda vez que a vi foi em uma festa no campus. Diogo resolveu dar uma festa de boas vindas às aulas para seus amigos e convidados. Eu estava jogado no sofá segurando uma garrafa de cerveja e uma garota pendurada no meu pescoço, quando ela entrou acompanhada de uma garota morena, a novata, a mesma que esteve na festa do Kadu. Ela parecia deslocada e pouca a vontade em uma saia tão curta, que eu tinha certeza que não era dela.
Ivy não. Ela parecia que estava em casa. Falou com todo mundo e apresentou sua amiga, que no final descobri que se chamava Nanda. Conversaram um bom tempo com outro cara que me lembro de ter visto pelos corredores, até Diogo aparecer e roubar sua atenção.
Ele falou alguma coisa que deixou Nanda, sua amiga irritada. Não pude ouvir direito por causa do barulho, mas posso falar com sinceridade que se pudesse, a garota teria matado Diogo. Sorri para mim mesmo, tentando imaginar como ela faria isso.
Logo depois, vejo Ivy rindo de alguma coisa que Diogo falou, deixando sua amiga ainda mais irritada. Ela falou alguma coisa e segundos depois, os dois saíram do apartamento deixando Nanda sozinha.
Se eu fosse um cara legal, eu teria ido falar com ela, só para que ela não ficasse mais desconfortável do que já estava. Mas eu não era um cara legal, e muito menos me importava em ser. A única que merecia minha atenção era Ivy. E essa tinha saído de braços dados com Diogo.
Minha noite já tinha terminado antes mesmo de começar. Empurrei a garota que estava nas minhas pernas, me levantei e fui embora. Eu precisava me aliviar e me livrar da presença que Ivy causava quando estávamos no mesmo ambiente.
Agora olhando para sua carta, que quase pirei por sua demora, tudo que passei só serviu para aumentar a certeza que ainda podia ter uma chance. Mesmo lendo que ela não é mais a mesma. Parece que está perdida, procurando sua identidade. Apesar de afirmar que não é a garota que eu conheci, eu tenho certeza que ainda é ela, mais contida, mas ainda é ela.
Sei dos seus demônios, por que ela sabendo ou não, sempre estive por perto, só esperando a oportunidade para ajudar. Mas ela nunca pediu, nem mesmo quando tudo parecia quase insuportável.
Agora ela está em busca da Ivy de verdade, e eu quero muito poder estar por perto para apoiá-la. E não pretendo desistir assim tão fácil. Agora eu estou no jogo, e dessa vez entrei para vencer.
Leio mais uma vez, e deixo escapar um sorriso, quando ela menciona que sua curiosidade foi maior que o medo do desconhecido. Confesso que até eu ficaria com medo de responder a carta de um estranho que não quis se identificar.
Estranho.
Foi assim que ela me chamou. Meu Deus, se ela soubesse, que de longe, sou estranho. Sou apenas alguém, como ela mesma falou, que não conseguiu enxergar. Sinto uma pontada de tristeza em saber que nunca passei por seus pensamentos.
Mas ainda que ela esteja desistindo assim tão fácil, sem querer deixou uma brecha para que eu possa responder sua carta e conseguir convencê-la a continuar me escrevendo, pelo menos por enquanto, até eu me sentir seguro para me apresentar pessoalmente.
Sei que o momento é de recuperação e descoberta, e eu me contentaria em apenas estar do seu lado em sua caminhada.
Ouço uma batida na porta e escondo a carta debaixo do meu colchão. Olho para a porta onde um homem de aparentemente trinta anos me encara com olhos interrogatórios.
- O que está fazendo aqui Vinny? – Ele pergunta quando estou me recuperando da euforia por ter recebido a carta de Ivy.
- Nada, estava apenas descansando... – Tentei pensando em uma resposta rápida.
- Mas ainda é tão cedo. Passam um pouco depois das quatro. – Disse olhando para o relógio.
- Na verdade, eu só precisava respirar um pouco. Sair um pouco daquele ambiente fechado. – Eu falo, o que não deixa de ser verdade.
- Entendo... Raquel disse que você recebeu uma carta... – Ele soltou.
Garota fofoqueira. Não sabe ficar com sua língua dentro da boca. Eu forço um sorriso e olho para qualquer lugar procurando alguma justificativa.
- Apenas uma carta... De uma amiga... Quer dizer...
- Nossa Vinny, é a primeira vez desde que chegou aqui que o vejo gaguejar. – Ele esboçou um sorriso. – Ela deve ser bem... Importante... – Disse estreitando o olhar.
- Não é ninguém importante Paulo, apenas alguém que deseja saber se eu estou me adaptando. – Menti.
Ivy, com certeza não se classifica como ninguém importante. É por ela que decidi ser melhor, para poder merecê-la e dar a ela a segurança de que precisa. Quero ser aquele a quem pode correr quando seus pesadelos se tornarem insuportáveis.
Paulo me olhou por mais alguns instantes, e depois resolveu esquecer o assunto.
- As crianças estão perguntando por que seu professor preferido está demorando tanto para voltar.
- Eu já estou indo... Só preciso de mais alguns minutos.
- Está bem, vou tentar inventar alguma brincadeira para entretê-las enquanto você não volta. – Disse saindo e fechando a porta.
Solto um suspiro e puxo a carta de volta do colchão. Coloco dentro do envelope e vou procurar um local para escondê-la. Escondo atrás de um porta-retratos preso na parede. Raquel é curiosa por natureza e se eu me descuidar, ela encontrará e após ler, me encherá de perguntas.
Ela é apenas uma adolescente de dezesseis anos muito curiosa que adora ficar no meu pé o dia inteiro. Não sei por que milagre de Deus, ela ainda não invadiu meu quarto, onde divido com mais três pessoas, não muito diferente da faculdade.
Saio do pequeno alojamento e quando chego à pequena sala de aula improvisada, vários pares de olhos me encaram, e logo começa a gritaria. É estranho em como me sinto confortável com suas demonstrações de carinho. Até parece que não sou eu quem está nesse corpo.
- Tio Vinny, por que demorou tanto? O senhor estava apertado e por isso saiu correndo para fazer xixi? – Pergunta uma menina morena de cabelos negros e lisos que chegam à metade de sua cintura.
- Paloma, você não pode sair por aí perguntando se seu professor precisava ir ao banheiro. – Paulo fala logo atrás dela.
- Só perguntei por que eu faço a mesma coisa. Não sabia que perguntar era feio... – Ela mostra um bico e juro que vai chorar a qualquer momento.
Eu me agacho para poder ficar do seu tamanho e poder conversar olhando em seus olhos.
- Não há nada de errado em perguntar Paloma. O tio apenas precisou de um tempo, ok?
Vejo-a desmanchar o bico e abrir um longo sorriso.
- Então agora está na hora de brincar? – Pergunta começando a pular como um canguru.
Não consigo conter um sorriso ao ver suas mãos se mexendo como se fosse asas.
- Sim. Está na hora de brincar. Vamos lá para fora... Mas formem filas.
Sem precisar falar duas vezes, todos correm para uma fila indiana de frente para a porta dos fundos da sala. Há um pequeno parque, na verdade, apenas um escorregador e dois balanços, onde eles se revezam para brincar.
Quando cheguei aqui, fugindo de mim mesmo, esperava encontrar um lugar onde ninguém me incomodaria. Onde eu passaria despercebido. Mas como em uma cidade pequena, isso é impossível, logo surgiram comentários querendo saber quem era o estranho na cidade.
Eu tive que me enturmar, arranjar um emprego até descobrir o que faria logo em seguida. Foi quando apareceu a vaga de faxineiro nessa escola, que não é nada mais que um grande galpão dividido em quatro salas de aulas. Que vai da primeira à quarta série.
Nem sei como acabei professor, um dia estava limpando o chão e no outro estava contando histórias para as crianças. No início foi bem difícil, já que elas são curiosas por natureza e fazem de tudo para chamar a atenção dos adultos.
Uma semana depois, eu era seu mais novo professor, amigo e contador de história. Para elas é muito importante ter alguém que se importe. Moro em uma comunidade carente esquecida pelo governo. As famílias sobrevivem do que conseguem produzir, seja comida ou artesanato.
Isso me faz lembrar o tempo em que eu tinha tudo, mas não dava valor. É engraçado como o destino encontra uma maneira de te dar uma lição. Agora estou aqui, sem ter dinheiro, e ainda assim, estou feliz, como nunca estive antes. Estou quase completo, falta apenas uma pessoa... Ivy. Minha Ivy.
Com esse pensamento, sigo para o parque entreter as crianças enquanto seus pais estão trabalhando para colocar comida na mesa.
Não vejo a hora de voltar para meu quarto e reler pela quinquagésima vez a carta de Ivy. Não me conterei e logo escreverei uma resposta para sua pergunta, ainda que não saiba se devo revelar minha verdadeira identidade.