Capítulo 1: O Ônibus das Seis
Leide — caminhava apressada.
— Vou chegar atrasada de novo — pensava.
Andava rápido para atravessar a passarela. Não podia chegar ao escritório atrasada outra vez; já seria a terceira. Tudo por causa do encanamento do prédio. Já tinha falado com o síndico do condomínio, mas nada havia sido resolvido. Pensou que talvez fosse melhor fazer uma reclamação no grupo dos moradores. Assim, quem sabe, o problema da falta de água todas as manhãs finalmente seria solucionado.
Quando chegou à passarela, o ônibus para Niterói já tinha passado.
Ela não acreditou.
Se tivesse sorte, outro passaria dali a quinze minutos.
Reduziu o passo. Não precisava mais correr; já tinha perdido o ônibus das seis da manhã e, inevitavelmente, chegaria atrasada.
Enquanto esperava, pegou o celular e colocou sua música favorita para tocar. Com o fone de ouvido, foi se acalmando.
Depois de vinte minutos, o ônibus finalmente chegou.
A parte boa era que ainda havia lugares para sentar. As cadeiras ao lado da janela, porém, já estavam todas ocupadas. Sentou-se no primeiro banco alto, perto da porta. Caso o ônibus enchesse, não teria dificuldade para descer.
Um rapaz dormia sentado.
Ela olhou rapidamente. Ele vestia uma jaqueta preta, calça jeans e uma touca. Leide deu uma risada discreta.
— Esse aí deve sentir muito frio — pensou.
A viagem seria longa: cerca de uma hora e meia por causa do trânsito. Agora ela entendia por que o rapaz cochilava.
Quando o ônibus atravessava a ponte, Zuleide também acabou adormecendo. Não tão discretamente quanto o rapaz ao lado, que permanecia encostado na janela, com a cabeça baixa.
Sem perceber, ela deixou a cabeça cair sobre o ombro dele.
E continuou dormindo.
Depois que passaram pela ponte, Luís Felipe sentiu o ombro dormente. Um cheiro suave invadiu seu nariz — cereja.
Olhou pela janela. O ônibus já se aproximava da universidade; logo precisaria descer.
Então percebeu algo estranho. O peso no ombro não era apenas cansaço. Ao olhar para o lado, viu alguns cabelos pretos escorrendo sobre seu ombro. A moça que estava ao seu lado havia adormecido ali.
Por um instante, ficou imóvel.
Se sua noiva visse aquela cena, seria difícil explicar.
Tentou mover discretamente o braço, mas a moça continuava encostada nele, profundamente adormecida. Com cuidado, tocou levemente o ombro dela.
Leide despertou assustada. Ao perceber onde estava apoiada, arregalou os olhos e se afastou rapidamente.
— Desculpa… — disse, sem graça. — Que situação embaraçosa.
Ela se ajeitou no banco enquanto observava o rapaz guardar a touca e passar a mão pelos cabelos castanhos claros e lisos, tentando arrumá-los.
Leide prendeu os cabelos em um coque rápido, espalhando ainda mais pelo ar o perfume do shampoo de cereja.
O ponto de Luís Felipe chegou.
E, para surpresa dos dois, também era o de Leide.
Quando se levantaram ao mesmo tempo, acabaram esbarrando um no outro. Os fones de ouvido de ambos caíram no chão.
Já perto da porta do ônibus, os dois se abaixaram quase ao mesmo tempo.
— Desculpa — disseram juntos.
Luís Felipe pegou seu fone do chão. Leide fez o mesmo.
Sem dizer mais nada, desceram do ônibus e seguiram em direções opostas.
Leide nunca costumava ser tão atrapalhada assim. Mas aquele rapaz havia conseguido deixá-la completamente sem jeito.
Atravessou a pista enquanto colocava o fone de ouvido. Porém, a música estava baixa e falhando.
Pensou que talvez estivesse descarregado.
Guardou o aparelho na pequena bolsinha dentro da bolsa e seguiu para o escritório. Trabalhando na área administrativa há mais de dois anos, havia passado em um processo seletivo. O salário era bom.
Mas, com tantos atrasos naquele mês, tinha quase certeza de que parte dele seria descontada no próximo pagamento.
E aquele definitivamente não estava sendo um bom começo de dia.
No escritório, Leide entrou discretamente, mas as meninas já estavam avisando que o dono da loja queria falar com ela.
Deixou a bolsa em sua sala e foi direto para a sala do seu Eduardo Guimarães, que parecia estressado. Ele olhou para o relógio.
Passava das 7h30.
— Meia hora atrasada de novo?
— Seu Eduardo, o ônibus não parou e estava engarrafado. Eu tentei sair mais cedo, porém…
— Se tivesse saído mesmo cedo, não estaria atrasada.
Leide pediu desculpas e prometeu ficar até mais tarde, terminando o trabalho para não entregar nada em atraso. Na verdade, ela nunca tinha entregado nenhum documento fora do prazo, mas precisava dizer alguma coisa.
Voltou para sua sala com alguns arquivos para revisar os documentos financeiros da empresa. Era uma empresa de peças para motos e carros. Vendiam e recebiam peças de fora, e Leide era responsável por analisar os preços, organizar tudo em planilhas e conferir os valores.
Na hora do almoço, parou para comer junto com as colegas de trabalho. Seu Eduardo costumava almoçar em um restaurante próximo à loja, enquanto as meninas ficavam ali mesmo, em um pequeno refeitório.
Leide foi até a bolsa pegar o fone de ouvido para colocá-lo para carregar, já que a volta para casa seria longa.
Mas estranhou.
O fone não era o dela.
Colocou as mãos na cabeça.
Ainda estava pagando as prestações daquele fone de ouvido sem fio. Além disso, era raro encontrar um modelo igual.
Suspirou.
Decidiu não se estressar naquele momento. Vai que, na volta, encontra o rapaz do ônibus e ele devolva o fone.
Colocou o aparelho de volta na bolsa e carregou apenas o outro par.
Retornou ao trabalho. Havia prometido ficar até 18h30, mesmo que o expediente terminasse às 17h00.
Imprimiu algumas planilhas para a reunião de sábado, já que seu Eduardo iria viajar e queria tudo no papel. Ele não tinha muita paciência com coisas digitais. Era novo, na casa dos quarenta e poucos anos, um bom chefe — desde que ninguém chegasse atrasado.
Depois de organizar tudo em uma pasta na sala dele, Leide pegou a bolsa e saiu da loja.
O porteiro estava esperando por ela para fechar.
— Desculpa — disse Leide.
Mas havia prometido ficar até mais tarde e precisava cumprir. Caso contrário, na segunda-feira seu Eduardo certamente reclamaria.
Antes de chegar ao ponto de ônibus, começou a garoar. Era aquela chuvinha fina que não molha de verdade, mas também não para.
Ela tinha esquecido o guarda-chuva na mesa do escritório.
Não voltaria para buscá-lo.
Já estava atrasada para encontrar Marcos, seu paquera. Eles estavam saindo há algum tempo, mas nenhum dos dois queria algo sério.
Leide preferia assim. Não queria um relacionamento em que tivesse que dar satisfação o tempo todo e se sentisse presa. Já tinha vivido algo parecido três anos antes e não queria repetir a experiência.
Marcos também parecia pensar da mesma forma. Divorciado havia pouco tempo, tinha passado cinco anos casado, mas o relacionamento não deu certo e os dois decidiram se separar.
Eles haviam marcado às oito na pizzaria La Bonner.
Provavelmente ela chegaria atrasada. Não daria tempo de passar em casa para se arrumar.
Por um momento pensou em cancelar. Mas, depois de uma semana intensa e de um dia estressante, precisava comer uma pizza e beber uma cerveja.
Quando chegou ao ponto, viu o ônibus parado.
Olhou para o céu e agradeceu.
Pelo menos teve sorte.
E teria ainda mais sorte se encontrasse o rapaz dos cabelos claros.
Olhou para todos os lados do ônibus.
Nada.
Suspirou, frustrada.
Teria que esperar até segunda-feira.
A ponte estava parada. Leide olhou para o relógio: já passava das 19h30. Não daria tempo de chegar à pizzaria.
Pegou o celular e mandou uma mensagem para Marcos:
— “Não vai rolar hoje. Fiquei presa no trabalho e, com essa chuva, só chego amanhã.”
Marcos visualizou a mensagem. Ele estava saindo do trabalho e indo direto para a pizzaria com alguns amigos e colegas.
— “Que pena! Estou indo agora com o pessoal. Então nos vemos depois.”
Leide suspirou, encostou no banco do ônibus e acabou cochilando.