Capítulo Um: A Ômega Renegada
A brisa leve do início da primavera batia no meu rosto, fazendo os meus cabelos voarem como uma dança suave, enquanto os meus pés descalços deslizavam pela grama da floresta e o cheiro da neve derretendo era agradável ao meu olfato.
Finalmente o inverno rigoroso estava a ir embora, não era mais necessário usar as peles pesadas para me manter aquecida, ou colocar o dobro de peles em meu ninho para não c.ongelar de frio. Antes minha loba poderia se aquecer apenas com a presença e o cheiro do meu pai, porém, aos 17 anos tudo isso acabou.
Normalmente quando as jovens da alcateia completam os seus 17 anos, somos apresentadas para a Deusa da Lua em uma grande celebração, é quando os lobos ômegas estão prontos para se conectar com seu alfa predestinado, era algo especial, uma festa linda que era feita na segunda semana da primavera. É quando a lua cheia está no seu ápice, todos os ômegas, fêmeas e machos, se vestem com trajes brancos e temos nossas peles pintadas com uma tinta vermelha, todos usam flores no cabelo e temos que manter nossos pés descalços para ter a conexão com a natureza. Quando completamos 5 anos, nosso cheiro natural enfraquece e só se expande novamente no dia do festival da lua, o lobo ômega expande o cheiro quando seu alfa está perto, é o sinal que suas almas se pertencem.
Desde então, é responsabilidade do alfa manter seu parceiro ou parceira feliz, alimentado e aquecido. O lobo ômega se sente seguro somente com seu alfa e somente o seu parceiro pode-lhe prover todas as necessidades necessárias.
Infelizmente, eu não tive essa sorte. A pequena Lia, ansiosa e sonhadora, que cresceu observando os casais se formarem na noite do festival, vendo os alfas cortejando seus ômegas, lhes trazendo caças, presentes e fazendo as vontades da pessoa amada.
—Mamãe, o papai lhe cortejou com muitos presentes?
—Seu pai me trouxe uma caça enorme, era um belo alce e ele mesmo tirou a pele para fazer um lindo cobertor, quentinho e com o cheiro dele. —Mamãe contava com brilho nos olhos. — Escute Lia, quando chegar o momento, o seu alfa irá lhe reivindicar e conectar suas almas.
—No dia do festival?
—Exato, meu amor! No momento que o seu cheiro se expandir pelo ar, ele vai te reconhecer e após o cortejo, vocês vão poder se unir e ele poderá lhe dar a marca das almas gêmeas.
Então desde os 10 anos, fiquei sonhando com o momento em que iria participar do festival e crescendo orando para a Deusa, para que me mandasse um bom alfa. Mas nunca pensei que seria castigada, de forma c***l e sem explicação, pois não havia alfa para mim em minha alcateia.
E como eu tinha certeza? Simples, meu cheiro nunca se expandiu, na verdade, meu cheiro sumiu e desde então, minha loba ficava reclusa dentro de mim e nem mesmo podia me transformar. Uma omega defeituosa, que foi renegada pela própria Deusa e é assim que sou conhecida por todos na alcateia.
Mas voltando para a floresta, estava caminhando sem direção, apenas ouvindo o barulho dos pássaros e querendo aproveitar o momento sozinha, antes que minha mãe gritasse meu nome na entrada da floresta.
Hoje, uma parte dos alfas guerreiros voltavam para a aldeia e tiravam a semana para descansar, afinal passaram o inverno protegendo a todos e também, temos uma semana para preparar tudo para o festival. Por insistência de meus pais, participei do ritual dois anos seguidos, mas o resultado era o mesmo e este ano, me neguei a passar tamanha vergonha novamente.
Não havia alfa para mim e se o castigo da Deusa era que eu fosse sozinha, então eu faria a sua vontade.
—LIAAAAA!!!
Respirei fundo e segurei meus olhos para que não rolassem, me preparei para voltar e ajudar minha mãe nos afazeres, já que Aria estaria se paparicando dentro do ninho. Minha irmã mais nova, seria apresentada na próxima semana e claro, havia uma pequena pressão sobre nossa família, os burburinhos pela aldeia eram ouvidos por nós, todos se perguntavam se Aria seria defeituosa como eu, comentavam que nossa família era amaldiçoada pela Deusa e isso deixava minha irmã nervosa.
Não preciso caminhar muito para ver a imagem de minha mãe, os cabelos grisalhos presos em um coque bem feito, o vestido marrom de um tecido leve e mangas curtas, um avental amarrado em sua cintura e um sorriso carinhoso dava luz ao seu rosto. Apesar de estar mais velha, ainda era uma mulher bela e seus olhos ainda transmitiam o mesmo conforto de quando eu era uma criança curiosa.
—Pela lua, onde se meteu menina?!
—Andando por aí, aproveitando que não posso congelar até os ossos. —Dei de ombros ao começar a caminhar ao seu lado.
—Esse inverno foi difícil, não é mesmo? —Ela me olha preocupada.
—Nada que eu não pudesse aguentar, mãe. —Sorri. —Ficarei bem.
—Lia. —Ela segura meu braço, me fazendo parar de andar e olhar para ela. —O que acha de tentar esse ano novamente? Hm?
—Mamãe, até mesmo o nosso ancião já disse que não tem alfa para mim aqui. —Falei cansada de sempre dizer isso. —E sabe que não posso ir embora para outra alcateia, estou bem sozinha mãe, vou aceitar o que a Deusa me deu.
—Ah Lia, sabe que fico preocupada.
—Eu sei mãe, mas por favor, tente não ficar. —Minha mão toca seu rosto. —Vamos focar em Aria, tenho certeza que a Deusa separou um bom alfa para ela.
Seguro sua mão para que volte a caminhar comigo, nossa cabana era um pouco afastada, mas pude notar uma movimentação na vila.
—Porque estão todos tão agitados?
—Ah, quase esqueci de comentar! —Minha mãe fica animada. —O filho mais velho de nosso líder está voltando, depois de tanto tempo fora e agora ele está vindo para se juntar a alcateia!
—Quando ele chega?
—Acredito que na próxima semana! Esperamos que ele chegue a tempo do festival, afinal ele precisa de uma ômega. —Ela diz.