CAPÍTULO 21 – LUZES DA MADRUGADA

974 Words
A cidade parecia lavar os próprios pecados naquela noite. A chuva caía sem pressa, os faróis se espelhavam no asfalto e, pela primeira vez em semanas, o prédio dormia. Mas Sofia não. O apartamento estava em meia-luz, o som do relógio marcava a respiração da madrugada. Ela segurava o celular na mão, lendo pela décima vez a última mensagem anônima. “Parabéns.” Não parecia ameaça. Não parecia elogio. Soava como ironia — ou como despedida. Deixou o celular sobre a mesa e foi até a janela. As gotas escorriam como fios de tempo. A campainha tocou. Uma vez. Depois outra, mais curta. O tipo de toque que só uma pessoa sabia fazer. Sofia abriu. Lorenzo estava lá, sem paletó, cabelo úmido da chuva e um olhar que parecia carregar o peso do mundo — mas ainda encontrava força pra sorrir. — Não consegui dormir — ele disse. — E achei que você também não conseguiria. Sofia abriu passagem, com aquele gesto simples de quem convida o acaso pra entrar. — Café? — Ou chá. Desde que tenha você do outro lado da mesa. A cozinha ficou pequena demais pra dois corações cansados. O vapor da chaleira subiu como névoa entre eles. — Sabe o que é estranho? — ela começou. — Mesmo depois de tudo, do medo, da empresa, das câmeras… eu ainda acho bonito o jeito como a vida tenta continuar. — Bonito e teimoso — ele respondeu. — Igual a você. Ela riu, baixinho. — E igual a você, que devia estar dormindo, mas aparece de madrugada com esse olhar de filme triste. Lorenzo encostou-se ao balcão, os olhos fixos nela. — Eu achava que sabia comandar tempestades. Até conhecer você. Agora, cada vez que chove, eu só quero estar onde você está. Silêncio. A chuva respondeu por eles. Sofia colocou a xícara na frente dele. — Acha que “P.” acabou? — Acho que “P.” é mais conceito do que pessoa. Uma ideia que não aceita perder. Mas a gente aprendeu o que ela mais teme. — O quê? — A luz. — Ele a olhou de novo. — E o amor, porque ele não precisa se esconder. Ela sorriu, mas havia uma lágrima tímida escapando. Não era dor — era descarga. — Eu tenho medo, Lorenzo. Não de “P.”… de voltar a viver em alerta. De achar que cada coisa boa vai ser cobrada com juros. — Então deixa eu ser tua conta paga. A frase saiu leve, mas o impacto foi grande. Sofia desviou o olhar, rindo nervosa. — Você fala bonito demais. — É que com você eu falo verdadeiro. Ele se aproximou. Não para beijar — só para diminuir a distância. O dorama mora nesses centímetros. — Sofia… — ele começou, e a voz estava rouca, cansada e sincera. — O dia que eu achei que tinha te perdido, eu percebi que o que me sustentava não era o poder. Era o cotidiano. O café, o bilhete, a tua calma. Ela olhou pra ele e enxergou um homem inteiro, não o CEO, não o símbolo, só o homem. — Eu também errei com o tempo — ela confessou. — Esperei o mundo parar pra ser feliz. Mas o mundo nunca para. A gente é que precisa desacelerar dentro dele. Lorenzo tocou o rosto dela com a ponta dos dedos, o toque mais devagar que o vento. — Então desacelera comigo. Só hoje. Sofia fechou os olhos. Não houve beijo, nem pressa. Só dois corpos respirando no mesmo ritmo — uma cena que fazia o público feminino suspirar e pensar: é disso que eu quero lembrar. Horas depois, o café esfriava, o mundo seguia em silêncio. Sofia pegou o caderno das “coisas que importam” e escreveu uma nova frase: “Nem toda madrugada é solidão. Às vezes, é só o universo cochichando pra gente não desistir.” Lorenzo leu por cima do ombro dela. — Vai publicar? — Não. — Ela sorriu. — Essa é só pra nós. Ele encostou o queixo no ombro dela, e o gesto era o mais íntimo possível. A madrugada não precisava de trilha sonora. Quase amanhecendo, o celular vibrou com uma notificação do sistema de segurança. Sofia pegou o aparelho e o rosto mudou. — O que foi? — Lorenzo perguntou. Ela mostrou a tela. Uma câmera da empresa havia detectado movimento às 03h17, no corredor do 17º andar — vazio, trancado, sem ninguém autorizado. Lorenzo se endireitou, já alerta. — Pode ser falso positivo. — Ou pode ser “P.” lembrando que a história ainda não acabou. A imagem era granulada, mas havia um vulto. Uma figura magra, de capuz, carregando algo nas mãos. E, no canto inferior do vídeo, um reflexo rápido — algo que parecia uma orquídea. A mesma que ele dera pra ela no início de tudo. Sofia sentiu o frio subir. — Ele esteve lá. No andar onde tudo começou. Lorenzo pegou o celular, respirou fundo. — Amanhã a gente volta pra lá. Juntos. — E se for armadilha? — Então caímos de mãos dadas. — Ele sorriu pequeno. — Prometo segurar firme. Ela riu, mesmo com o medo. — Você e suas frases… — Eu e minhas promessas. Do lado de fora, o céu começava a clarear. O primeiro raio de sol atravessou o vidro e pousou exatamente no caderno dela, sobre as palavras “não desistir”. Sofia olhou pro brilho e murmurou, quase pra si: — A luz sobe devagar, mas nunca deixa de subir. Lorenzo encostou a testa na dela. — Igual a gente. A câmera do prédio gravava o amanhecer, o mesmo céu onde a história começou. Lá embaixo, o 17º andar esperava silencioso — como um capítulo prestes a ser aberto. E o público, como sempre, esperava junto
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