Capítulo 20 – O Andar Errado

1721 Words
Sofia leu a mensagem mais uma vez: “Saiam do terraço hoje.” Sem assinatura. Só um ponto final que parecia uma lâmina. — É “P.” — ela disse, e não soou como dúvida. Lorenzo afastou o celular devagar, como quem afasta um copo que pode estar envenenado. — Então ficamos longe do terraço. — Ou subimos com polícia e luz — sugeriu Caetano. — Mas tenho a sensação de que é exatamente isso que ele quer. Helena cruzou os braços, o olhar pousado na janela. — Quando o inimigo aponta o norte, o caminho é oeste. — Respirou. — O andar errado é o certo. Vera assentiu. — Ele quer nossa atenção no topo. Então a armadilha deve estar em outro lugar. — Subsolo, garagem, casa de máquinas do térreo, copa do 17º, recepção — Arthur listou sem levantar a cabeça. — Posso ativar varredura completa. Mas… — ergueu os olhos — se ele programou algo sensível a movimento, melhor não passearmos com antenas. Sofia sentiu o corpo alinhar-se ao pensamento. — Ele aprendeu nossa rotina. Hoje tem “terraço” às 20h. O prédio inteiro sabe. — Olhou para Lorenzo. — Então ele prepara a cena no topo e apronta o golpe no chão. — Porta giratória — disse Helena, como quem encontra uma peça de quebra-cabeça no tapete. — Se bloquearem as saídas numa emergência, criam pânico e nos filmam de fora. — Ou a escada pressurizada — completou Vera. — Falsa fumaça, alarme acionado de propósito, correria. A imagem perfeita. — Vamos dividir — decidiu Caetano. — Equipe Alfa com a polícia, varredura silenciosa na garagem e térreo; equipe Bravo simula rotina no 30º e “cancela” o terraço discretamente. Nada de comunicados. Só mudança de percurso. Lorenzo olhou para Sofia e baixou a voz. — Você fica comigo. — Eu fico — ela respondeu, sem hesitar. Era menos promessa do que casa. 19h18. O prédio tinha luzes em modo crepúsculo: nem dia, nem noite. O relógio da copa do 30º marcava hora exata, como se o tempo servisse de testemunha. Júlia apareceu com duas canecas e uma piada pronta. — Café de nervoso. E pão de queijo de fé. Sofia aceitou a caneca, riu curto. — Quem te deu licença pra salvar toda cena? — O sindicato das melhores amigas — Júlia piscou, mas os olhos atentos. — Tô com o coração batendo no joelho. Se precisar, eu grito “corta” e derrubo o cenário. — Só não derruba o presidente — brincou Lorenzo. — Esse a gente só derruba de amor — retrucou Júlia, e foi embora antes de perceber que falou alto demais. Sofia encarou a caneca e o riso veio atrasado, com rubor. Helena conferiu o relógio. — Alfa, posição. — Alfa posicionado — respondeu Caetano no ponto. — Nada anormal na garagem. O leitor clandestino apreendido não apita. Mas tem duas câmeras novas externas apontadas pro prédio. Uma delas no prédio vizinho, janela 12B. — Registradas — disse Arthur. — Geo-tag coletada. Vera checou as saídas no monitor. — Porta de emergência do térreo com lenta oscilação de sinal. Pode ser jammer. — Anota — pediu Helena. — E pede apoio silencioso. Sofia apoiou a caneca no peitoril. O vidro devolveu seu rosto e, por um segundo, ela se viu como a internet viu: assunto, suspeita, manchete. O peito fisgou. Lorenzo percebeu a mudança de ar e encostou o ombro no dela, sem pedir. — Se o mundo te olha torto, eu reposiciono o mundo — sussurrou. — Não repara — ela respondeu, com humor macio. — Eu fico alta por dentro quando você fala assim. O elevador acusou “subindo”. Parou no 29º. Depois, no 30º. A porta abriu. Um carrinho de limpeza. Boné. Máscara. O coração de Sofia crispou. — Identificação — pediu Vera, indo ao encontro. A mulher tirou o boné, surpresa, e as luzes do 30º refletiram nos brincos: era do prédio, crachá no bolso, nome “Rita”. Tudo certo. O nervosismo, porém, não desceu inteiro. “P.” ensinou o corpo deles a desconfiar. — Pode continuar, Rita — disse Vera, gentil. — Só não passe pelo escritório da presidência agora. — Sim, senhora. A porta se fechou. O ar continuou rachado. — Alfa, notícia? — Caetano. — Sinal de aerossol detectado no duto próximo à escada pressurizada do térreo — respondeu um dos policiais. — Nada tóxico. Parece “máquina de fumaça” com cheiro de eucalipto. Teatro. — Eles querem pânico bonito — Arthur resumiu. — Corta a fumaceira e trava a porta da escada por dez minutos — ordenou Caetano. — Facilities, em ação. E… — parou meio segundo — alguém está mexendo no quadro de luz secundário perto dos elevadores de serviço. — Térreo? — Vera. — Térreo. — Eu vou — disse Helena. — Você fica — rebateu Lorenzo, espelhando o tom de mãe que ela usava nele. — Eu vou com Caetano. Sofia fica comigo. — Eu fico — repetiu Sofia, a frase virando refrão de calma. 19h42. O 30º ficou mais silencioso, como se a noite tivesse tirado os sapatos. Júlia surgiu com uma manta, largou nas costas de Sofia e piscou. — Figurino de dorama, parte dois. Se não tiver beijo, tem pelo menos abraço que esquenta. — O comitê aprova — Sofia sorriu, agradecida. Lorenzo se aproximou. O mundo a dois ficou a um palmo. — Se o episódio de hoje terminar sem beijo, eu processo o roteirista — ele disse, suave, e a curva do sorriso quase fez a cena acontecer ali. Quase. O rádio chiou alto. — Achamos — a voz de Caetano cortou. — Quadro de luz secundário com timer. Programado para 20h00. Se aciona, corta metade do prédio por três minutos. Suficiente para caos calculado. — Desativa? — Vera. — Desativar agora dispara alarme — respondeu Caetano. — O timer está amarrado ao circuito. Precisamos enganar o relógio. Arthur já digitava. — Consigo atrasar o pulso do timer em 4 minutos via by-pass local. Suficiente pra esvaziar o térreo sob comando. — Faça — disse Helena. — E cancele o terraço, sem dizer “cancelado”. Tirem o motivo de filmagem. — Já tirei — respondeu Vera. — O terraço está em “manutenção técnica”. Porta trancada. Ponto cego do espetáculo. Sofia sentiu o corpo soltar um pouco. Lorenzo a observou com o tipo de atenção que aquece. A distância entre eles ficou de novo do tamanho de um beijo possível. Ela ergueu o queixo um grão. Ele inclinou a cabeça, quase. — Pronto — Arthur avisou no ponto. — Timer atrasado. Térreo em evacuação discreta. Sem pânico. — Bravo, preparem-se para ficar no 30º — Caetano. — Se a luz cair, ninguém corre. A gente espera. Sofia e Lorenzo se olharam. Era um pacto de cena: se o mundo apagasse, eles seriam vela. 19h59. O relógio digital da impressora virou 20:00. Nada aconteceu. O prédio respirou. Duas pessoas no térreo bocejaram sem saber que escaparam de virar figurantes do caos. — Pulso passou — Arthur. — E… — pausa — alguém agora tenta ativar manual no quadro. — Peguei a mão — disse Caetano, e houve o som seco de punho no metal, mais vozes, passos rápidos. — Detido. Funcionário temporário com crachá clonado. Sem documento. — Sem máscara? — Vera. — Sem máscara. Cara limpa. Marcelo Prado? — Caetano hesitou. — Não. Outro. Mas o celular dele tem mensagens de “Prado”. Chamando de “Pálio”. Sofia prendeu o ar. Pálio. O apelido que Pedro citara na delegacia. — Pálio é ponte intermediária — Helena concluiu. — Nunca motorista do próprio carro. — Mandem pra delegacia — Vera alinhou. — E press kit completo pro regulador agora. Relatório de tentativa de sabotagem. O 30º voltou a caber no peito de Sofia. O corpo pediu descanso, a alma pediu sentido. Ela olhou para Lorenzo. O mundo, por um instante, se calou. Havia espaço para um beijo. Um beijo simples. Um beijo casa. — Agora? — ele sussurrou, sorrindo nos olhos. — Agora — ela respondeu. E, enfim, o dorama pagou a promessa. Foi beijo que não prova nada — só existe. Quente sem pressa, sincero como pão de queijo na copa, protegido pelo vento que não ousou interromper. Júlia, longe, ergueu silenciosamente os braços como quem comemora gol, e Helena sorriu com uma ternura que dava licença. O rádio chiou de novo — mas, dessa vez, ninguém separou. O beijo terminou em riso, e o riso em suspiro. — A gente merecia — disse ele, baixinho. — A gente construiu — corrigiu ela. Mais tarde, já sentados numa sala de vidro vazia, Vera colocou sobre a mesa uma pasta fina. — Último ponto da noite: as câmeras externas — ela disse. — A janela 12B do prédio vizinho pertence a um escritório alugado por uma offshore. Contrato assinado por… Pontus Tech. — Temos a mira. Falta a mão — Caetano resumiu. O celular de Sofia vibrou. Número desconhecido. Um vídeo curto: o saguão do térreo vazio, filmado de fora. Legenda recortada: “Vocês escolheram a ponte certa. Hoje.” Silêncio. — Ele não está indo embora — disse Helena. — Só mudou a trilha. Sofia olhou para Lorenzo. O medo ainda morava no prédio. Mas, por algum motivo, estava com menos móveis. — Amanhã — ela disse, com a voz no lugar —, a gente desce pro térreo por vontade, não por pânico. E toma café no vidro. — Com jornal do dia — completou Helena. — E com beijo do dia — arriscou Júlia, sem freios. Sofia riu. O mundo pode tentar roubar a narrativa — mas certas linhas só dois podem escrever. No celular, outra notificação. Remetente desconhecido. Uma palavra só: “Parabéns.” Era elogio? Era ironia? Era ameaça? No dorama certo, era gancho. Sofia trancou o aparelho, respirou fundo e encostou a testa no vidro. Lá fora, a cidade piscou, indiferente e cúmplice. Aqui dentro, vigas firmes. E um romance que, mesmo sob ataque, escolhia ser raiz. O céu, finalmente, parecia do lado deles. E “P.”, do lado de fora, ia ter que aprender a perder sem plateia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD