Sofia leu a mensagem mais uma vez: “Saiam do terraço hoje.”
Sem assinatura. Só um ponto final que parecia uma lâmina.
— É “P.” — ela disse, e não soou como dúvida.
Lorenzo afastou o celular devagar, como quem afasta um copo que pode estar envenenado. — Então ficamos longe do terraço.
— Ou subimos com polícia e luz — sugeriu Caetano. — Mas tenho a sensação de que é exatamente isso que ele quer.
Helena cruzou os braços, o olhar pousado na janela. — Quando o inimigo aponta o norte, o caminho é oeste. — Respirou. — O andar errado é o certo.
Vera assentiu. — Ele quer nossa atenção no topo. Então a armadilha deve estar em outro lugar.
— Subsolo, garagem, casa de máquinas do térreo, copa do 17º, recepção — Arthur listou sem levantar a cabeça. — Posso ativar varredura completa. Mas… — ergueu os olhos — se ele programou algo sensível a movimento, melhor não passearmos com antenas.
Sofia sentiu o corpo alinhar-se ao pensamento. — Ele aprendeu nossa rotina. Hoje tem “terraço” às 20h. O prédio inteiro sabe. — Olhou para Lorenzo. — Então ele prepara a cena no topo e apronta o golpe no chão.
— Porta giratória — disse Helena, como quem encontra uma peça de quebra-cabeça no tapete. — Se bloquearem as saídas numa emergência, criam pânico e nos filmam de fora.
— Ou a escada pressurizada — completou Vera. — Falsa fumaça, alarme acionado de propósito, correria. A imagem perfeita.
— Vamos dividir — decidiu Caetano. — Equipe Alfa com a polícia, varredura silenciosa na garagem e térreo; equipe Bravo simula rotina no 30º e “cancela” o terraço discretamente. Nada de comunicados. Só mudança de percurso.
Lorenzo olhou para Sofia e baixou a voz. — Você fica comigo.
— Eu fico — ela respondeu, sem hesitar. Era menos promessa do que casa.
19h18. O prédio tinha luzes em modo crepúsculo: nem dia, nem noite. O relógio da copa do 30º marcava hora exata, como se o tempo servisse de testemunha. Júlia apareceu com duas canecas e uma piada pronta.
— Café de nervoso. E pão de queijo de fé.
Sofia aceitou a caneca, riu curto. — Quem te deu licença pra salvar toda cena?
— O sindicato das melhores amigas — Júlia piscou, mas os olhos atentos. — Tô com o coração batendo no joelho. Se precisar, eu grito “corta” e derrubo o cenário.
— Só não derruba o presidente — brincou Lorenzo.
— Esse a gente só derruba de amor — retrucou Júlia, e foi embora antes de perceber que falou alto demais. Sofia encarou a caneca e o riso veio atrasado, com rubor.
Helena conferiu o relógio. — Alfa, posição.
— Alfa posicionado — respondeu Caetano no ponto. — Nada anormal na garagem. O leitor clandestino apreendido não apita. Mas tem duas câmeras novas externas apontadas pro prédio. Uma delas no prédio vizinho, janela 12B.
— Registradas — disse Arthur. — Geo-tag coletada.
Vera checou as saídas no monitor. — Porta de emergência do térreo com lenta oscilação de sinal. Pode ser jammer.
— Anota — pediu Helena. — E pede apoio silencioso.
Sofia apoiou a caneca no peitoril. O vidro devolveu seu rosto e, por um segundo, ela se viu como a internet viu: assunto, suspeita, manchete. O peito fisgou. Lorenzo percebeu a mudança de ar e encostou o ombro no dela, sem pedir.
— Se o mundo te olha torto, eu reposiciono o mundo — sussurrou.
— Não repara — ela respondeu, com humor macio. — Eu fico alta por dentro quando você fala assim.
O elevador acusou “subindo”. Parou no 29º. Depois, no 30º. A porta abriu. Um carrinho de limpeza. Boné. Máscara. O coração de Sofia crispou.
— Identificação — pediu Vera, indo ao encontro.
A mulher tirou o boné, surpresa, e as luzes do 30º refletiram nos brincos: era do prédio, crachá no bolso, nome “Rita”. Tudo certo. O nervosismo, porém, não desceu inteiro. “P.” ensinou o corpo deles a desconfiar.
— Pode continuar, Rita — disse Vera, gentil. — Só não passe pelo escritório da presidência agora.
— Sim, senhora.
A porta se fechou. O ar continuou rachado.
— Alfa, notícia? — Caetano.
— Sinal de aerossol detectado no duto próximo à escada pressurizada do térreo — respondeu um dos policiais. — Nada tóxico. Parece “máquina de fumaça” com cheiro de eucalipto. Teatro.
— Eles querem pânico bonito — Arthur resumiu.
— Corta a fumaceira e trava a porta da escada por dez minutos — ordenou Caetano. — Facilities, em ação. E… — parou meio segundo — alguém está mexendo no quadro de luz secundário perto dos elevadores de serviço.
— Térreo? — Vera.
— Térreo.
— Eu vou — disse Helena.
— Você fica — rebateu Lorenzo, espelhando o tom de mãe que ela usava nele. — Eu vou com Caetano. Sofia fica comigo.
— Eu fico — repetiu Sofia, a frase virando refrão de calma.
19h42. O 30º ficou mais silencioso, como se a noite tivesse tirado os sapatos. Júlia surgiu com uma manta, largou nas costas de Sofia e piscou. — Figurino de dorama, parte dois. Se não tiver beijo, tem pelo menos abraço que esquenta.
— O comitê aprova — Sofia sorriu, agradecida.
Lorenzo se aproximou. O mundo a dois ficou a um palmo.
— Se o episódio de hoje terminar sem beijo, eu processo o roteirista — ele disse, suave, e a curva do sorriso quase fez a cena acontecer ali.
Quase.
O rádio chiou alto.
— Achamos — a voz de Caetano cortou. — Quadro de luz secundário com timer. Programado para 20h00. Se aciona, corta metade do prédio por três minutos. Suficiente para caos calculado.
— Desativa? — Vera.
— Desativar agora dispara alarme — respondeu Caetano. — O timer está amarrado ao circuito. Precisamos enganar o relógio.
Arthur já digitava. — Consigo atrasar o pulso do timer em 4 minutos via by-pass local. Suficiente pra esvaziar o térreo sob comando.
— Faça — disse Helena. — E cancele o terraço, sem dizer “cancelado”. Tirem o motivo de filmagem.
— Já tirei — respondeu Vera. — O terraço está em “manutenção técnica”. Porta trancada. Ponto cego do espetáculo.
Sofia sentiu o corpo soltar um pouco. Lorenzo a observou com o tipo de atenção que aquece. A distância entre eles ficou de novo do tamanho de um beijo possível. Ela ergueu o queixo um grão. Ele inclinou a cabeça, quase.
— Pronto — Arthur avisou no ponto. — Timer atrasado. Térreo em evacuação discreta. Sem pânico.
— Bravo, preparem-se para ficar no 30º — Caetano. — Se a luz cair, ninguém corre. A gente espera.
Sofia e Lorenzo se olharam. Era um pacto de cena: se o mundo apagasse, eles seriam vela.
19h59. O relógio digital da impressora virou 20:00. Nada aconteceu. O prédio respirou. Duas pessoas no térreo bocejaram sem saber que escaparam de virar figurantes do caos.
— Pulso passou — Arthur. — E… — pausa — alguém agora tenta ativar manual no quadro.
— Peguei a mão — disse Caetano, e houve o som seco de punho no metal, mais vozes, passos rápidos. — Detido. Funcionário temporário com crachá clonado. Sem documento.
— Sem máscara? — Vera.
— Sem máscara. Cara limpa. Marcelo Prado? — Caetano hesitou. — Não. Outro. Mas o celular dele tem mensagens de “Prado”. Chamando de “Pálio”.
Sofia prendeu o ar. Pálio. O apelido que Pedro citara na delegacia.
— Pálio é ponte intermediária — Helena concluiu. — Nunca motorista do próprio carro.
— Mandem pra delegacia — Vera alinhou. — E press kit completo pro regulador agora. Relatório de tentativa de sabotagem.
O 30º voltou a caber no peito de Sofia. O corpo pediu descanso, a alma pediu sentido. Ela olhou para Lorenzo. O mundo, por um instante, se calou. Havia espaço para um beijo. Um beijo simples. Um beijo casa.
— Agora? — ele sussurrou, sorrindo nos olhos.
— Agora — ela respondeu.
E, enfim, o dorama pagou a promessa. Foi beijo que não prova nada — só existe. Quente sem pressa, sincero como pão de queijo na copa, protegido pelo vento que não ousou interromper. Júlia, longe, ergueu silenciosamente os braços como quem comemora gol, e Helena sorriu com uma ternura que dava licença.
O rádio chiou de novo — mas, dessa vez, ninguém separou. O beijo terminou em riso, e o riso em suspiro.
— A gente merecia — disse ele, baixinho.
— A gente construiu — corrigiu ela.
Mais tarde, já sentados numa sala de vidro vazia, Vera colocou sobre a mesa uma pasta fina.
— Último ponto da noite: as câmeras externas — ela disse. — A janela 12B do prédio vizinho pertence a um escritório alugado por uma offshore. Contrato assinado por… Pontus Tech.
— Temos a mira. Falta a mão — Caetano resumiu.
O celular de Sofia vibrou. Número desconhecido. Um vídeo curto: o saguão do térreo vazio, filmado de fora. Legenda recortada:
“Vocês escolheram a ponte certa. Hoje.”
Silêncio.
— Ele não está indo embora — disse Helena. — Só mudou a trilha.
Sofia olhou para Lorenzo. O medo ainda morava no prédio. Mas, por algum motivo, estava com menos móveis.
— Amanhã — ela disse, com a voz no lugar —, a gente desce pro térreo por vontade, não por pânico. E toma café no vidro.
— Com jornal do dia — completou Helena.
— E com beijo do dia — arriscou Júlia, sem freios.
Sofia riu. O mundo pode tentar roubar a narrativa — mas certas linhas só dois podem escrever.
No celular, outra notificação. Remetente desconhecido. Uma palavra só:
“Parabéns.”
Era elogio? Era ironia? Era ameaça? No dorama certo, era gancho.
Sofia trancou o aparelho, respirou fundo e encostou a testa no vidro. Lá fora, a cidade piscou, indiferente e cúmplice. Aqui dentro, vigas firmes. E um romance que, mesmo sob ataque, escolhia ser raiz.
O céu, finalmente, parecia do lado deles. E “P.”, do lado de fora, ia ter que aprender a perder sem plateia.