CAPÍTULO 19 – ENTRE VIDRO E RAIZ

1044 Words
O relógio da recepção marcava 07:02 quando o elevador abriu e o cheiro de piso encerado se misturou ao de café recém-passado. A equipe estava posicionada — Caetano perto da porta giratória, Vera ao lado da mesa de atendimento, Helena em silêncio calculado, e Sofia… no centro, como ponto de equilíbrio da ponte. Lorenzo chegou um minuto depois. Terno escuro, expressão afiada — mas o olhar procurou primeiro por ela, como se confirmasse: está bem? Sofia respondeu com um leve aceno, sem palavras. Era o tipo de cuidado que não fazia barulho, mas fazia casa. 07:14. O painel do elevador brilhou TÉRREO. Ângela saiu com a bolsa no ombro, a mesma camisa creme, o mesmo sorriso doce que carregava há anos. Parou ao ver todos ali. O sorriso desfez – não em culpa, mas em susto. — O que está acontecendo? — ela perguntou, a voz quase infantil. Helena deu um passo à frente, mas não falou. Quem falou foi Sofia. — Ângela, calma. Você não está sendo acusada. Mas precisamos conversar sobre o que aconteceu com o abajur do seu setor. Ângela piscou duas vezes, confusa. — O abajur? — O que chegou há três semanas — Vera completou, mostrando a foto. — Este. Presente em nota fria. Dentro dele havia uma microcâmera. Ângela levou a mão à boca. Os olhos marejaram rápido, como quem entende antes de acreditar. — Eu… eu só recebi. Era final de tarde, eu estava correndo para ir embora, o motoboy disse que era “material do fornecedor”. Eu nem abri… — A pessoa pediu para você assinar? — Caetano perguntou, calmo, mas firme. Ela assentiu. — Sim… ele disse “é só assinar, moça”. Eu não sabia… Sofia deu um passo lento, se aproximando, não como superior — como quem oferece lugar seguro. — Ângela, olha pra mim. Você está com medo. Eu sei esse rosto. O medo de ter feito algo sem querer. — Pausa. — Mas quem erra sem intenção não é cúmplice. É vítima. Ângela chorou sem barulho. Chorava como quem estava cansada de guardar a própria inocência. Lorenzo olhou para Sofia com algo que era quase admiração. Ela tinha esse dom: desmontar bombas com humanidade. Helena pegou um lenço e colocou na mão da assistente. — Você é viga da casa, não fissura. Mas agora a gente precisa que você lembre de tudo. Tudo mesmo. Inclusive o que parece pequeno. A respiração de Ângela se ajeitou aos poucos. — Tinha um cheiro estranho… tipo perfume masculino barato… e o motoboy não usava uniforme. E tinha uma pessoa esperando o elevador atrás dele. Um homem de paletó claro. Vera ergueu o rosto na hora. Lorenzo e Caetano trocaram olhar. Sofia sentiu o coração marcar compasso diferente. — Paletó claro — repetiu Sofia. — O mesmo da imagem da recepção. O mesmo “Prado”. Ângela franziu a testa, tentando puxar memória. — Ele falou… algo como “a gente se vê semana que vem”. Como se fossem… conhecidos. Mas eu nunca tinha visto aquele homem. Helena sorriu com uma amargura discreta. — Eles usaram a sua educação como porta. Ângela desabou no banco de espera, encolhida, mas aliviada por finalmente não estar sozinha na culpa. ⸻ Enquanto Vera orientava o advogado, Lorenzo levou Sofia para perto da parede de vidro, longe do fluxo. — Você foi incrível lá atrás — ele disse. Sem teatro, sem texto pronto. — Não sei se você percebe, mas quando você fala… as pessoas param de cair. Ela riu, tímida. — Eu só reconheço o medo. Já precisei que alguém olhasse pra mim sem me acusar. — Então talvez seja por isso que funciona — ele respondeu. Silenciou. O tipo de silêncio que aproxima, não separa. Sofia respirou fundo, olhando a cidade passando lá fora. — Sabe o que mais me assusta? — perguntou, sem desviar o olhar. — Não é “P.”, nem as câmeras, nem os recortes. É a sensação de que, se eu vacilar, eles usam o meu nome contra você. E eu não quero ser brecha. Não pra eles. Lorenzo virou o rosto na direção dela. — Ouve… — ele disse, devagar. — Eu sei quem você é. E sei quem eu me torno perto de você. Eles não conseguem tocar isso. Ela olhou para ele como quem ouve algo que o peito entendia antes da mente. O passo seguinte era um beijo. Estava ali. No tempo. No olhar. No ar. Mas a porta da recepção abriu com um susto. — Presidente! — Caetano chamou. — O pendrive do envelope foi decodificado. Tem coisa grande. Lorenzo fechou os olhos por meio segundo, como quem sorri do destino. Quase-beijo 3. O roteiro estava sendo fiel ao gênero. — Vamos — Sofia disse, já recuperando o ar profissional. Mas a pele ainda sabia: tinha algo ali, e era real. ⸻ Na sala de perícia improvisada, Arthur projetou a tela: dentro do pendrive, um único arquivo de vídeo. Imagem escura, mas com áudio claro: “Se derrubarem peão, torre cai. Vocês escolheram a ponte errada.” Depois, silêncio. Um quadro preto. E então — a imagem final: foto de Lorenzo falando com Helena no terraço, tirada à distância, como mira. Sofia sentiu o frio subir. Não era só empresa. Era pessoal. — Eles estão filmando do prédio vizinho — Arthur disse, ampliando o zoom. — Ou mais de um — completou Vera. Helena ajeitou o colar, sem pressa. — Então agora sabemos que eles não querem apenas vencer. Querem intimidar. Lorenzo respirou fundo. Olhou para Sofia. Dessa vez, o olhar não prometia proteção. Prometia cumplicidade. — Então a gente intimida de volta. Com transparência. Com método. E com presença. — E com pão de queijo — murmurou Júlia, entrando com uma bandeja. Todo mundo riu. Rir em guerra é luxo — e sobrevivência. ⸻ Mas antes que a tensão virasse alívio, o celular de Sofia vibrou. Número desconhecido. Mensagem simples. “Saiam do terraço hoje.” Sem assinatura. Só um ponto final. Sofia encarou o texto. Um arrepio — não de medo, mas de certeza. “P.” nunca manda aviso à toa. Ela levantou os olhos para Lorenzo. — Acho que o próximo ataque já escolheu o andar.
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