Capítulo 18 – Luz que Sobe

1798 Words
A porta do escritório de Helena abriu como se obedecesse a um ritual antigo. O abajur da mesa, aceso, recortava a madeira em dourado. Não havia bagunça possível ali; até o ar parecia organizado. — Sem tocar em nada — avisou Vera, já erguendo a câmera para registrar ângulos. — Começamos por molduras, luminárias e grelhas de ar. Arthur passou a lanterna pelo rodapé, depois pelo quadro com a foto da primeira fábrica. O feixe estacou. — Aqui. Na base da moldura, um furo do tamanho de uma moeda, pintado com a mesma cor do verniz. Dentro, a lente minúscula de uma microcâmera. O fio sumia atrás do batente e ressurgia no interior do abajur, onde um microtransmissor bebia energia do soquete. Inteligente. Feito para durar. — Tiraram nossa imagem do lugar mais bonito da sala — disse Helena, sem dramatizar. — Que audácia r**m. — Cadeia de custódia — lembrou Vera. — Arthur, fotos, número de série, retirada com luva. O abajur também. Lorenzo aproximou-se de Sofia um passo curto. Não tocou; ficou perto. O cuidado dele tinha o tamanho exato do espaço que ela desejava. — Você está tremendo — ele disse, baixo. — Eu fico com frio quando fico com medo. — Ela sorriu de leve. — Já te contei. — Já. — Ele acenou. — E eu sou o casaco. Sofia riu sem querer. Uma coragem mansa encaixou no peito. Caetano fotografou a etiqueta sob a base do abajur e ergueu uma sobrancelha: — Brinde de fornecedor. Consta como presente “institucional” deixado na recepção há três semanas. Quem assinou o recebimento foi… — leu — Ângela. — Minha assistente — disse Helena, sem piscar. — Que está de férias desde anteontem. A sala ficou um pouco mais estreita. Sofia viu o que “P.” queria: rachar por dentro. Olhou para Helena, pronta para o golpe. Helena, porém, já estava erguendo o queixo com a classe de quem atravessa fogo sem cheiro de fumaça. — Não acusem sem prova — ela cortou, firme. — A Ângela é viga há anos. Ou erraram por ela… ou a usaram. — Voltou-se para Caetano. — Vamos aos fatos. Recepção, imagens de segurança, nota de entrada do brinde. Nomes e horários. — Na fila — disse Caetano. — Hoje ainda. Arthur guardou a microcâmera em embalagem antiestática. O modem e o mini-PC da casa de máquinas já tinham destino: delegacia e regulador. — Hoje foi dia de luz — comentou Helena, recolhendo o próprio cansaço com elegância. — Que continue. Sofia respirou. A vontade de desabar veio com a mesma força da vontade de ficar de pé. Ela escolheu ficar. O prédio foi esvaziando devagar. Reuniões terminaram de terminar, saltos perderam a pressa. Na copa do 30º, alguém esqueceu um pão de queijo em cima da bancada; Júlia entrou, enxergou Sofia e ergueu o pacote. — Aprovado pelo comitê sentimental? — Aprovadíssimo. — Sofia mordeu, sentiu o corpo inteiro agradecer. — Notícias? — Notícias boas: você viralizou nos stories da galera com a frase “logs e pão de queijo”. — Júlia sacudiu o celular. — Notícias ruins: tem hater até na xícara. Mas a gente hidrata e passa. Sofia abraçou. As duas ficaram ali um segundo a mais. Era só amizade — e era tudo. — Vão subir? — Júlia apontou com a cabeça para o terraço, o código secreto de “vão respirar”. — Vamos. — Sofia guardou a caneca na pia, como quem guarda uma intenção. O vento no terraço tinha cheiro de noite e de cidade molhada, mesmo sem chuva. Luzes acesas, helicóptero distante, gente que não era eles vivendo vidas que não eram as deles. Às vezes era bom lembrar que o mundo não tinha um único enredo. — Me diz uma coisa — Lorenzo falou, encostando os braços no parapeito. — Se amanhã alguém tentar nos reescrever, qual frase você quer que continue igual? Sofia pensou um segundo e respondeu sem floreio: — “Eu não sou vidro.” Ele assentiu, sério. — E eu não sou martelo. — Silêncio breve. — Eu quero ser mesa. E casaco, nos dias frios. Ela riu baixo. A risada ficou em casa. — O pior dos medos é quando a gente começa a duvidar da nossa leitura — Sofia confessou, olhando o horizonte. — Eles querem que eu olhe a Helena e veja uma mulher possível traída. Que eu olhe a Júlia e veja uma fissura. Que eu olhe pra mim e veja atalho. — E o que você vê? — ele perguntou, devagar. — Vejo raiz. — Virou o rosto. — E você? Os olhos dele não fugiram. — Vejo casa. A resposta era simples e grande. O silêncio que veio depois tinha gosto de beijo. Ele chegou perto. O mundo soltou um pouco a corda. O ar inclinou. — Lorenzo… — Sofia sussurrou, não para frear, mas para nomear. — Eu escolho devagar. Não porque duvido. Porque quero que caiba. — Eu espero devagar — ele devolveu, um sorriso pequeno. — E sem fazer fila. A distância entre os dois ficou do tamanho de um “quase” confortável — o dorama perfeito: calor, promessa, limites respeitados. Uma cena que gruda no público porque entende que desejo também é método. O celular vibrou no bolso dela. Um grupo: “Governança Núcleo”. Caetano: “Recepção confirmou: o abajur chegou por motoboy, sexta, 19h14. Nota fria, pagador: Pontus Tech. Camisa do motoboy? Sem logo. Imagens em anexo.” Vera: “Ampliei o reflexo do vidro. No balcão, além do motoboy, há um homem esperando elevador. Paletó claro. Prado (confirmado por reconhecimento facial preliminar).” Lorenzo leu por cima e o corpo inteiro dele escolheu ação. — É Brasília descendo elevador. — É “P.” escrevendo com letra emprestada — emendou Sofia. — Amanhã, depoimento da Ângela. — Sem caça às bruxas — reforçou ele. — Sem caça — repetiu. — Só luz. O telefone vibrou de novo. Delegacia. Caetano atendeu; colocou no viva-voz. — Pedro aceitou delação — informou o delegado. — Confirmou pagamentos em dinheiro e transferência via contas laranjas da Pontus. E trouxe um nome: o apelido “Pálio”. É o contato que pairava acima dos técnicos. Pedro diz que “Pálio” responde a “Prado” e recebia, às vezes, instruções de uma mulher de voz “educada e impaciente”. — Educada e impaciente — murmurou Helena, que havia chegado silenciosa, as mãos nos bolsos do casaco. — Isso define metade do Congresso. — E levantou o queixo. — Continue, delegado. — Pedro também disse que a microcâmera “do quadro bonito” foi testada uma noite, quando a sala ficou aberta, e que quem liberou a entrada foi “uma moça da agenda”. O nome ele não sabe. Viu só de costas. — Pausa. — Amanhã colho mais detalhes. Helena agradeceu, desligou e ficou alguns segundos olhando para o edifício espelhado à frente — era como encarar uma versão fantasiosa deles, só reflexos e luz. — Se Ângela não foi cúmplice — ela disse, sóbria —, foi porta. E porta precisa de chave. — Voltou-se para Sofia. — Amanhã, você abre com as duas: firmeza e doçura. Ela fala comigo, mas confia em você. — Eu falo — Sofia garantiu, sentindo a responsabilidade sentar ao lado. — Eu sei o caminho que as pessoas usam pra não cair. — E, se cair, a gente não aplaude — completou Helena. — A gente levanta. Júlia apareceu na porta do terraço com duas mantas cinza. — Trouxe figurino de dorama: casal em crise com frio e a melhor amiga que salva com cobertor. — Riu. — E pão de queijo. — Você salva qualquer cena — Sofia brincou, pegando a manta. — Inclusive a minha. — Então me paga em spoiler. — Júlia piscou. — Teve beijo? — Quase — Lorenzo respondeu, com humor. — O roteiro é c***l. — O roteiro é sábio — corrigiu Helena, deixando uma manta sobre o ombro de Sofia, um gesto de mãe que não pede licença. — O público feminino gosta de promessas que valem a pena. Sofia sorriu. A cena guardou calor; a noite, vento; o coração, fôlego. O celular apitou mais uma vez. Remetente desconhecido. Uma única frase recortada, foto granulada anexada. “Quem segura as vigas também cansa.” A foto mostrava a garagem vazia do prédio, luz fria, e um envelope branco preso sob o limpador do carro de Helena. A assinatura fina no canto da imagem: P. — Vamos descer — disse Lorenzo, já acionando segurança. — Não sozinhos. — Não sozinhos nunca mais — Sofia confirmou, e o nós ficou grande o suficiente para cobrir o caminho. A garagem tinha cheiro de concreto e eco. O envelope estava lá, obediente, quase teatral. Vera fotografou, numerou, luvas, pinça, respiração controlada. Abriu. Dentro, duas coisas: um pendrive preto (outro), e uma folha recortada de artigo técnico sobre “pontos críticos” em pontes. Subscrito à mão, a mesma assinatura fina: “Quem ergue, às vezes derruba. Às 7h15.” — 7h15? — Caetano checou o relógio. — De amanhã? Sofia sentiu o peito lembrar do medo e, ao mesmo tempo, do método. — 7h15 é quando a Ângela costuma chegar — ela sussurrou, surpreendendo a si mesma com a memória. — Ela sempre diz “chego antes do trânsito”. Helena não piscou. — Amanhã, 7h, recepção. Sem espetáculo. — Olhou para Vera. — E advogado para a Ângela, independente. Ela não é inimiga. — Feito — disse Vera. — E polícia discreta — acrescentou Caetano. — Se for armadilha, é a última de hoje. Lorenzo passou o braço pelas costas de Sofia, não como quem protege uma peça, mas como quem aquece a pessoa que escolheu ficar. — Terraço depois? — ele arriscou, baixinho, precisando dar um sentido gentil ao futuro imediato. — Terraço depois — ela respondeu. — E, se o roteiro deixar, juros. A luz da garagem os fez parecer personagens de uma série boa: bonitos de vulnerabilidade, fortes de método, prontos para a cena seguinte. Na tela do celular de Sofia, a última mensagem de “P.” permaneceu aberta. E, pela primeira vez, em vez de trincar, ela sorriu de lado. Quem tenta dominar a narrativa às vezes esquece que o público também escreve o final. Ela abriu o bloco de notas e digitou, para si: “Quando a ponte aprende a falar, o rio escuta.” Fechou. Amanhã, 7h. Ângela, recepção, advogado, polícia, logs. E eles dois — sem pressa, com casa. A noite respirou. A luz subiu escada. E o dorama fez o que faz melhor: deixou todo mundo querendo mais.
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