O relógio marcava nove da manhã quando Sofia entrou no escritório, ainda tentando convencer a si mesma de que o que aconteceu no elevador não havia significado nada.
Mas, no fundo, sabia que havia significado tudo.
Ela ajeitou o crachá, respirou fundo e caminhou até sua baia. Júlia já estava lá, debruçada sobre o teclado com um sorriso travesso.
— Amiga… — começou, sem nem levantar a cabeça. — Sonhei que o CEO te chamou pra tomar café.
Sofia riu, tentando parecer natural. — Sonhou errado.
— Acha mesmo que eu não percebo essa cara de quem passou a noite pensando em alguém de terno?
Sofia revirou os olhos, mas o rubor na pele a denunciava. — Eu só pensei em trabalho.
— Aham. — Júlia cruzou os braços. — Trabalho de respiração, talvez.
Sofia balançou a cabeça, rindo sem graça. Mas, no fundo, o coração batia acelerado. Parte dela queria acreditar que o que aconteceu no elevador havia sido um acaso. A outra parte… esperava por mais.
E então, o impossível aconteceu.
Lorenzo Martins entrou no andar.
O silêncio caiu sobre o escritório como uma onda. Até o som dos teclados parou. Ele andava com passos firmes, um copo de café na mão — diferente do habitual copo térmico que seu assistente trazia.
E, sim, ele caminhava na direção dela.
Sofia sentiu o estômago despencar. Júlia a cutucou, sussurrando:
— Eu retiro tudo o que disse. Isso não é sonho. É roteiro de dorama!
Antes que Sofia pudesse reagir, Lorenzo parou diante da sua mesa. Os olhos dele tinham o mesmo brilho calmo de antes — mas, agora, havia algo mais. Algo que ela não sabia nomear.
— Bom dia, senhorita Duarte. — Ele colocou o copo à frente dela. — Trouxe um café. Prometi que hoje não deixaria esfriar.
Sofia piscou, surpresa. — O senhor… lembrou?
— Eu raramente esqueço o que me chama atenção. — respondeu ele, com um meio sorriso quase imperceptível.
O mundo pareceu diminuir. Por um instante, era só ela, ele e aquele café.
— Obrigada, senhor Martins. — disse, tentando disfarçar a voz trêmula. — Mas não precisava se incomodar.
— Incomodar? — Ele inclinou levemente a cabeça. — Acho que é a primeira vez que tomo prazer em descer até este andar.
Ela não soube o que responder.
Os olhares se encontraram por tempo demais. Até que o assistente dele apareceu, interrompendo a magia.
— Senhor Martins, a reunião com o conselho em dez minutos.
Lorenzo assentiu, sem desviar o olhar dela. — Estou indo.
Antes de sair, disse apenas:
— Continue assim, senhorita Duarte. Está transformando mais do que planilhas.
E foi embora.
Sofia ficou parada, sem entender o que ele quis dizer. Júlia, é claro, não perdeu tempo:
— “Transformando mais do que planilhas”? — repetiu com ênfase. — Traduzindo: “Você está transformando o meu coração gelado, senhorita Duarte!”
— Júlia, para…
— Não, eu tô séria. — Ela apoiou o queixo nas mãos. — Esse homem está olhando pra você, e o mundo inteiro está vendo.
Sofia mordeu o lábio, tensa. Aquilo era perigoso. Ela sabia. Lorenzo era o tipo de homem que pertencia a um mundo inalcançável — o topo de uma torre de vidro, cercado por regras e aparências.
E ela?
Apenas mais uma funcionária.
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No 30º andar, Lorenzo tentava se concentrar na reunião com os diretores, mas falhava miseravelmente. As vozes soavam distantes, as planilhas irrelevantes. Tudo o que conseguia pensar era no sorriso tímido de Sofia e na forma como ela segurou o copo de café com as duas mãos, como se fosse algo precioso.
— Senhor Martins? — o diretor chamou, o tirando de seus devaneios. — Sua opinião sobre o acordo com a filial de Londres?
Lorenzo piscou, retomando o controle. — Adie a assinatura. Quero revisar pessoalmente.
O diretor assentiu, e a reunião seguiu. Mas, internamente, Lorenzo sabia que algo estava mudando.
Ele sempre viveu em função do dever — da empresa, do nome da família, das decisões certas. Mas, de repente, sentia vontade de fazer algo apenas… porque queria.
E isso o assustava.
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No fim da tarde, Sofia decidiu ir embora mais cedo. Precisava de ar, de distância, de silêncio. Mas, ao sair do prédio, começou a chover.
Sem guarda-chuva, correu até o toldo da cafeteria em frente. O som das gotas batendo na calçada a fez sorrir. No fundo, sempre amou a chuva.
— Senhorita Duarte.
A voz veio atrás dela, e Sofia se virou — o coração parou.
Lorenzo estava ali, parado sob o mesmo toldo, o paletó escuro levemente molhado, o olhar firme como sempre.
— Achei que já tivesse ido. — disse ela, ofegante.
— Eu também. — Ele olhou para a chuva, depois para ela. — Mas, às vezes, a gente não controla o destino.
Por um momento, ficaram em silêncio, observando as gotas caindo. As luzes da rua refletiam no rosto dele, tornando-o ainda mais bonito — e ainda mais inalcançável.
— Gosta de chuva? — ele perguntou.
— Gosto. — respondeu, sorrindo de leve. — Ela me faz acreditar que sempre há uma chance de recomeçar.
Lorenzo assentiu, e um brilho passou por seus olhos. — Recomeçar… seria bom.
O som da chuva abafou o resto. Mas Sofia sentiu — algo nele estava quebrando, uma muralha invisível.
Quando a chuva diminuiu, ele olhou o relógio. — Está tarde. Posso levá-la em casa.
Ela hesitou. — Não precisa, senhor Martins.
— Eu insisto. — disse, com aquele tom calmo que não aceitava negativas.
Sofia acabou aceitando. E, enquanto o carro avançava pelas ruas molhadas, ela olhava pela janela, tentando ignorar a sensação estranha de que o mundo acabava de mudar.
Lorenzo, ao volante, observava o reflexo dela no vidro e pensava na mesma coisa:
Que, talvez, fosse tarde demais para impedir o inevitável.