Capítulo 2 – O Café Que Não Esfriou

975 Words
O relógio marcava nove da manhã quando Sofia entrou no escritório, ainda tentando convencer a si mesma de que o que aconteceu no elevador não havia significado nada. Mas, no fundo, sabia que havia significado tudo. Ela ajeitou o crachá, respirou fundo e caminhou até sua baia. Júlia já estava lá, debruçada sobre o teclado com um sorriso travesso. — Amiga… — começou, sem nem levantar a cabeça. — Sonhei que o CEO te chamou pra tomar café. Sofia riu, tentando parecer natural. — Sonhou errado. — Acha mesmo que eu não percebo essa cara de quem passou a noite pensando em alguém de terno? Sofia revirou os olhos, mas o rubor na pele a denunciava. — Eu só pensei em trabalho. — Aham. — Júlia cruzou os braços. — Trabalho de respiração, talvez. Sofia balançou a cabeça, rindo sem graça. Mas, no fundo, o coração batia acelerado. Parte dela queria acreditar que o que aconteceu no elevador havia sido um acaso. A outra parte… esperava por mais. E então, o impossível aconteceu. Lorenzo Martins entrou no andar. O silêncio caiu sobre o escritório como uma onda. Até o som dos teclados parou. Ele andava com passos firmes, um copo de café na mão — diferente do habitual copo térmico que seu assistente trazia. E, sim, ele caminhava na direção dela. Sofia sentiu o estômago despencar. Júlia a cutucou, sussurrando: — Eu retiro tudo o que disse. Isso não é sonho. É roteiro de dorama! Antes que Sofia pudesse reagir, Lorenzo parou diante da sua mesa. Os olhos dele tinham o mesmo brilho calmo de antes — mas, agora, havia algo mais. Algo que ela não sabia nomear. — Bom dia, senhorita Duarte. — Ele colocou o copo à frente dela. — Trouxe um café. Prometi que hoje não deixaria esfriar. Sofia piscou, surpresa. — O senhor… lembrou? — Eu raramente esqueço o que me chama atenção. — respondeu ele, com um meio sorriso quase imperceptível. O mundo pareceu diminuir. Por um instante, era só ela, ele e aquele café. — Obrigada, senhor Martins. — disse, tentando disfarçar a voz trêmula. — Mas não precisava se incomodar. — Incomodar? — Ele inclinou levemente a cabeça. — Acho que é a primeira vez que tomo prazer em descer até este andar. Ela não soube o que responder. Os olhares se encontraram por tempo demais. Até que o assistente dele apareceu, interrompendo a magia. — Senhor Martins, a reunião com o conselho em dez minutos. Lorenzo assentiu, sem desviar o olhar dela. — Estou indo. Antes de sair, disse apenas: — Continue assim, senhorita Duarte. Está transformando mais do que planilhas. E foi embora. Sofia ficou parada, sem entender o que ele quis dizer. Júlia, é claro, não perdeu tempo: — “Transformando mais do que planilhas”? — repetiu com ênfase. — Traduzindo: “Você está transformando o meu coração gelado, senhorita Duarte!” — Júlia, para… — Não, eu tô séria. — Ela apoiou o queixo nas mãos. — Esse homem está olhando pra você, e o mundo inteiro está vendo. Sofia mordeu o lábio, tensa. Aquilo era perigoso. Ela sabia. Lorenzo era o tipo de homem que pertencia a um mundo inalcançável — o topo de uma torre de vidro, cercado por regras e aparências. E ela? Apenas mais uma funcionária. --- No 30º andar, Lorenzo tentava se concentrar na reunião com os diretores, mas falhava miseravelmente. As vozes soavam distantes, as planilhas irrelevantes. Tudo o que conseguia pensar era no sorriso tímido de Sofia e na forma como ela segurou o copo de café com as duas mãos, como se fosse algo precioso. — Senhor Martins? — o diretor chamou, o tirando de seus devaneios. — Sua opinião sobre o acordo com a filial de Londres? Lorenzo piscou, retomando o controle. — Adie a assinatura. Quero revisar pessoalmente. O diretor assentiu, e a reunião seguiu. Mas, internamente, Lorenzo sabia que algo estava mudando. Ele sempre viveu em função do dever — da empresa, do nome da família, das decisões certas. Mas, de repente, sentia vontade de fazer algo apenas… porque queria. E isso o assustava. --- No fim da tarde, Sofia decidiu ir embora mais cedo. Precisava de ar, de distância, de silêncio. Mas, ao sair do prédio, começou a chover. Sem guarda-chuva, correu até o toldo da cafeteria em frente. O som das gotas batendo na calçada a fez sorrir. No fundo, sempre amou a chuva. — Senhorita Duarte. A voz veio atrás dela, e Sofia se virou — o coração parou. Lorenzo estava ali, parado sob o mesmo toldo, o paletó escuro levemente molhado, o olhar firme como sempre. — Achei que já tivesse ido. — disse ela, ofegante. — Eu também. — Ele olhou para a chuva, depois para ela. — Mas, às vezes, a gente não controla o destino. Por um momento, ficaram em silêncio, observando as gotas caindo. As luzes da rua refletiam no rosto dele, tornando-o ainda mais bonito — e ainda mais inalcançável. — Gosta de chuva? — ele perguntou. — Gosto. — respondeu, sorrindo de leve. — Ela me faz acreditar que sempre há uma chance de recomeçar. Lorenzo assentiu, e um brilho passou por seus olhos. — Recomeçar… seria bom. O som da chuva abafou o resto. Mas Sofia sentiu — algo nele estava quebrando, uma muralha invisível. Quando a chuva diminuiu, ele olhou o relógio. — Está tarde. Posso levá-la em casa. Ela hesitou. — Não precisa, senhor Martins. — Eu insisto. — disse, com aquele tom calmo que não aceitava negativas. Sofia acabou aceitando. E, enquanto o carro avançava pelas ruas molhadas, ela olhava pela janela, tentando ignorar a sensação estranha de que o mundo acabava de mudar. Lorenzo, ao volante, observava o reflexo dela no vidro e pensava na mesma coisa: Que, talvez, fosse tarde demais para impedir o inevitável.
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